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Há 4 pontos em «Cristo que Passa» cujo tema é Jesus Cristo  → relação com os seus discípulos .

Os Apóstolos, homens comuns

Agrada-me refletir num precedente que é narrado passo a passo nas páginas do Evangelho: a vocação dos primeiros doze. Vamos meditá-la devagar, pedindo a essas santas testemunhas do Senhor que saibamos seguir Cristo como elas O seguiram.

Os primeiros apóstolos – a quem tenho grande devoção e afeto – não eram, humanamente falando, grande coisa. Em termos sociais, à exceção de Mateus, que tinha seguramente uma boa posição na vida e deixou tudo quando Jesus lho pediu, eram pescadores: viviam do que ganhavam ao dia, passando a noite a trabalhar para conseguirem sustentar-se.

Mas a posição social é o menos. Não eram cultos, nem sequer muito inteligentes, pelo menos no que diz respeito às realidades sobrenaturais; não compreendiam os exemplos e as comparações mais simples, e recorriam ao Mestre, pedindo-Lhe: «Domine, edissere nobis parabolam», Senhor, explica-nos a parábola. Quando Jesus alude, com uma imagem, ao fermento dos fariseus, julgam que está a recriminá-los por não terem comprado pão.

Pobres, ignorantes. E nem sequer eram simples, despretensiosos; dentro das suas limitações, eram ambiciosos: discutem muitas vezes quem seria o maior, quando – segundo a sua mentalidade – Cristo instaurasse na Terra o reino definitivo de Israel; chegam a discutir e a exaltar-se na intimidade do Cenáculo, nessa hora sublime em que Jesus está prestes a imolar-Se pela humanidade.

Fé, pouca; é o próprio Jesus Cristo quem o afirma. Viram ressuscitar mortos, curar todo o tipo de doenças, multiplicar o pão e os peixes, acalmar tempestades, expulsar demónios. São Pedro, escolhido como cabeça, é o único que é capaz de responder com prontidão: «Tu és o Messias, o Filho de Deus vivo». Mas é uma fé que ele interpreta à sua maneira, razão pela qual se atreve a enfrentar Jesus para O impedir de Se entregar pela redenção dos homens; e Jesus tem de lhe responder: «Afasta-te, Satanás! Tu és para Mim um estorvo, porque os teus pensamentos não são os de Deus, mas os dos homens!». Comenta São João Crisóstomo que «Pedro raciocinava humanamente e havia concluído que tudo aquilo – a Paixão e a morte – era indigno de Cristo, era reprovável; por isso, Jesus repreende-o e diz-lhe: não, sofrer não é indigno de Mim; tu pensas assim porque raciocinas com ideias carnais, humanas».

Estes homens de pouca fé destacar-se-ão talvez no amor a Cristo? Não há dúvida de que O amavam, pelo menos de palavra; às vezes, até se deixam arrebatar pelo entusiasmo: «Vamos nós também, para morrermos com Ele». Mas, à hora da verdade, todos hão de fugir, exceto João, que O amava com obras e de verdade: só este adolescente, o mais jovem dos apóstolos, permanece junto da cruz; os outros não sentiam esse amor forte como a morte.

Foram estes os discípulos escolhidos pelo Senhor; Cristo elegeu-os assim, e era assim que se comportavam antes de, cheios do Espírito Santo, se tornarem colunas da Igreja. São homens comuns, com defeitos, com debilidades, que dizem mais do que fazem. E, contudo, Jesus chama-os para fazer deles pescadores de homens, corredentores, administradores da graça de Deus.

Não devíamos contemplar esses anos ocultos de Jesus, nem nenhum outro acontecimento da sua vida, sem nos sentirmos afetados, sem os reconhecermos como aquilo que são: apelos que o Senhor nos dirige para sairmos do nosso egoísmo, do nosso comodismo. O Senhor conhece as nossas limitações, o nosso individualismo e a nossa ambição; a dificuldade que temos em nos esquecermos de nós e nos entregarmos aos outros. Sabe o que é não encontrar amor e verificar que até os que afirmam segui-lo o fazem só a meias. Recordai aquelas cenas tremendas que os evangelistas nos descrevem,
em que vemos os apóstolos ainda cheios de aspirações temporais e de projetos exclusivamente humanos. Mas Jesus escolheu-os, mantém-nos junto a Si e confia-lhes a missão que recebeu do Pai.

Também a nós Jesus nos chama e nos pergunta, como a Tiago e João: «Potestis bibere calicem quem ego bibiturus sum?», estais dispostos a beber o cálice (este cálice da entrega completa ao cumprimento da vontade do Pai) que Eu vou beber? «Possumus!», sim, estamos dispostos!, respondem João e Tiago. E vós e eu, estamos seriamente dispostos a cumprir em tudo a vontade de Deus nosso Pai? Damos todo o nosso coração ao Senhor ou continuamos apegados a nós mesmos, aos nossos interesses, à nossa comodidade, ao nosso amor-próprio? Há em nós alguma coisa que não corresponde à nossa condição de cristãos e que nos impede de querermos purificar-nos? Apresenta-se-nos hoje uma boa oportunidade para retificar.

Temos de começar por nos convencer de que Jesus nos dirige pessoalmente estas perguntas: não sou eu que as faço, é Ele; eu nem a mim próprio me atreveria a fazê-las. Prossigo a minha oração em voz alta e vós, cada um de vós, por dentro, confessa ao Senhor: Senhor, valho tão pouco, tenho sido tantas vezes cobarde! Quantos erros!: nesta ocasião e naquela, nisto e naquilo. Mas também podemos exclamar: menos mal, Senhor, que me tens sustentado com a tua mão, porque eu me sinto capaz de todas as infâmias. Não me
largues, não me deixes; trata-me sempre como a uma criança. Que eu seja forte, valente, íntegro. Mas ajuda-me, como se ajuda quem é inexperiente; dá-me a tua mão, Senhor, e faz que a tua Mãe também esteja sempre a meu lado e me proteja. E assim, possumus!, seremos capazes de Te ter por modelo!

Não é presunção afirmar «Possumus!». Jesus mostra-nos este caminho divino e pede-nos que o empreendamos porque Ele o tornou humano e acessível à nossa fraqueza. Foi para isso que Se rebaixou tanto: «Foi por este motivo que aquele Senhor que, como Deus, era igual ao Pai Se abateu, tomando a forma de servo; mas abateu-Se na majestade e na potência, não na bondade e na misericórdia.»

A bondade de Deus quer facilitar-nos o caminho. Não rejeitemos o convite de Jesus, não Lhe digamos que não, não nos façamos surdos ao seu chamamento; porque não há desculpas, não temos motivos para continuar a pensar que não somos capazes. Ele ensinou-nos com o seu exemplo: «Portanto, peço-vos encarecidamente, meus irmãos, que não permitais que se vos tenha mostrado em vão exemplo tão precioso, mas que vos conformeis com Ele e vos renoveis no espírito da vossa alma.»

Santificar o trabalho, santificar-se no trabalho, santificar com o trabalho

Ao descrever o espírito da associação a que dediquei a minha vida, o Opus Dei, tenho dito que se apoia, como em seu gonzo, no trabalho quotidiano, na profissão que cada um exerce no meio do mundo. A vocação divina dá-nos uma missão, convida-nos a participar na incumbência única da Igreja, para sermos testemunhas de Cristo ante os nossos iguais, os homens, e levarmos todas as coisas a Deus.

A vocação acende uma luz que nos permite reconhecer o sentido da nossa existência; consiste em nos convencermos, com o resplendor da fé, da razão de ser da nossa realidade terrena. A nossa vida – a presente, a passada e a que há de vir – adquire novo relevo, uma profundidade de que não suspeitávamos. Todos os factos e acontecimentos passam a ocupar o seu verdadeiro lugar; entendemos aonde o Senhor nos quer levar e sentimo-nos como que dominados por esse encargo que nos está confiado.

Deus tira-nos das trevas da nossa ignorância, do nosso caminhar incerto por entre as incidências da história, e chama-nos com voz forte, como fez um dia com Pedro e André: «Venite post me, et faciam vos fieri piscatores hominum», vinde comigo e Eu farei de vós pescadores de homens, qualquer que seja o lugar que ocupemos no mundo.

Quem vive de fé pode ter dificuldades e lutas, dores e até amarguras, mas nunca desânimo ou angústia, porque sabe que a sua vida serve para alguma coisa, sabe para que veio a este mundo. «Ego sum lux mundi», proclamou Cristo; «qui sequitur me non ambulat in tenebris, sed habebit lumen vitæ», Eu sou a luz do mundo; quem Me segue não andará nas trevas, mas terá a luz da vida. 

Para merecer essa luz de Deus, é preciso amar, ter a humildade de reconhecer a necessidade de sermos salvos e dizer com Pedro: «A quem iremos nós, Senhor? Tu tens palavras de vida eterna! Por isso, nós cremos e sabemos que Tu é que és o Santo de Deus.» Se realmente procedermos assim, se abrirmos o nosso coração ao chamamento de Deus, poderemos repetir com verdade que não caminhamos nas trevas, pois a luz de Deus brilha por cima das nossas
misérias e dos nossos defeitos pessoais como o Sol brilha sobre a tempestade.

Entre tantas cenas narradas pelos evangelistas, detenhamo-nos em algumas, a começar pelos relatos da relação de Jesus com os doze. O apóstolo João, que transfere para o seu Evangelho a experiência de toda uma vida, narra a sua primeira conversa com o enlevo daquilo que nunca mais se esquece: «“Rabi – que quer dizer Mestre –, onde moras?” Ele respondeu-lhes: “Vinde e vereis.” Foram, pois, e viram onde morava e ficaram com Ele nesse dia.»

Diálogo divino e humano, que transformou a vida de João e de André, de Pedro, de Tiago e de tantos outros, preparando-lhes o coração para escutarem a imperiosa palavra que Jesus lhes dirigiu junto ao mar da Galileia: «Caminhando ao longo do mar da Galileia, Jesus viu dois irmãos: Simão, chamado Pedro, e seu irmão André, que lançavam as redes ao mar, pois eram pescadores. Disse-lhes: “Vinde comigo e Eu farei de vós pescadores de homens”. E eles deixaram as redes imediatamente e seguiram-no.»

Nos três anos seguintes, Jesus convive com os seus discípulos, conhece-os, responde às suas perguntas, resolve as suas dúvidas. Sim, Ele é o Rabi, o Mestre que fala com autoridade, o Messias enviado por Deus; mas, ao mesmo tempo, é acessível, próximo. Um dia, Jesus retira-Se para orar; os discípulos estavam por ali, talvez olhando para Ele e tentando adivinhar as suas palavras. Quando
Jesus regressa, um deles roga-Lhe: «Domine, doce nos orare, sicut docuit et Ioannes discipulos suos», Senhor, ensina-nos a orar, como João ensinou aos seus discípulos. «Disse-lhes Ele: “Quando orardes, dizei: Pai, santificado seja o teu nome.”»

É também com autoridade de Deus e com afeto humano que o Senhor recebe os apóstolos quando, pasmados com os frutos da sua primeira missão, Lhe narram as primícias do seu apostolado: «Vinde, retiremo-nos para um lugar deserto e descansai um pouco.»

Encontramos uma cena muito similar quase no final da vida de Jesus na Terra, pouco antes da Ascensão: «Ao romper do dia, Jesus apresentou-Se na margem, mas os discípulos não sabiam que era Ele. Jesus disse-lhes então: “Rapazes, tendes alguma coisa para comer?” Eles responderam-Lhe: “Não.” Disse-lhes Ele: “Lançai a rede para o lado direito do barco e haveis de encontrar.” Lançaram-na e, devido à grande quantidade de peixes, já não tinham forças para a arrastar. Então, o discípulo que Jesus amava disse a Pedro: “É o Senhor!”»

E Deus está à espera deles na praia: «Ao saltarem para terra, viram umas brasas preparadas com peixe em cima e pão. Jesus disse-lhes: “Trazei dos peixes que apanhastes agora.” Simão Pedro subiu à barca e puxou a rede para terra, cheia de peixes grandes: cento e cinquenta e três. E, apesar de serem tantos, a rede não se rompeu. Disse-lhes Jesus: “Vinde almoçar.” E nenhum dos discípulos se atrevia a perguntar-Lhe: “Quem és Tu?”, porque bem sabiam
que era o Senhor. Jesus aproximou-Se, tomou o pão e deu-lho, fazendo
o mesmo com o peixe.»

Jesus não tem estes gestos de delicadeza e afeto apenas com um pequeno grupo de discípulos, mas com todos: com as santas mulheres, com representantes do sinédrio como Nicodemos e com publicanos como Zaqueu, com doentes e com sãos, com doutores da Lei e com pagãos, com pessoas singulares e com multidões inteiras. 

Os Evangelhos narram que Jesus não tinha onde reclinar a cabeça, mas também nos contam que tinha amigos queridos e de confiança, desejosos de O receber em sua casa. E falam-nos da sua compaixão pelos doentes, da sua dor pelos ignorantes e por aqueles que erram, da sua indignação perante a hipocrisia. Jesus chora pela morte de Lázaro, ira-Se com os mercadores que profanam o Templo, deixa que o seu coração se enterneça com a dor da viúva de Naim.