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Há 10 pontos em «Cristo que Passa» cujo tema é Jesus Cristo  → o cristão, outro Cristo .

Procurámos resumir e comentar alguns traços dos lares que refletem a luz de Cristo e que são, por isso, luminosos e alegres, repito, nos quais a harmonia que reina entre os pais se transmite aos filhos, a toda a família e aos diversos ambientes que a envolvem. Assim, em cada família autenticamente cristã reproduz-se de algum modo o mistério da Igreja, escolhida por Deus e enviada ao mundo como guia.

As palavras do apóstolo que se leem na epístola da solenidade da Sagrada Família – «eleitos de Deus, santos e amados» – aplicam-se plenamente a todos os cristãos, qualquer que seja a sua condição: sacerdotes ou leigos, casados ou solteiros. É isso que todos somos, cada um no lugar que ocupa no mundo: homens e mulheres escolhidos por Deus para dar testemunho de Cristo e levar
aos que nos rodeiam a alegria de se saberem filhos de Deus, apesar dos nossos erros e procurando lutar contra eles.

É muito importante que o sentido vocacional do matrimónio esteja sempre presente, tanto na catequese e na pregação como na consciência daqueles a quem Deus quiser levar por esse caminho, porque essas pessoas são real e verdadeiramente chamadas a integrar-se no desígnio divino para a salvação de todos os homens.

Por isso, o melhor modelo que podemos apresentar aos esposos cristãos é talvez o das famílias dos tempos apostólicos: o centurião Cornélio, que foi dócil à vontade de Deus e em cuja casa se consumou a abertura da Igreja aos gentios; Áquila e Priscila, que propagaram o cristianismo em Corinto e em Éfeso, e colaboraram no apostolado de São Paulo; Tabita, que assistia aos necessitados de Jope com a sua caridade. E tantas outras famílias de judeus e gentios, de gregos e romanos, nos quais a pregação dos primeiros discípulos
do Senhor lançou raízes.

Famílias que viveram de Cristo e que deram a conhecer Cristo. Pequenas comunidades cristãs que foram centros de irradiação da mensagem evangélica. Lares iguais aos outros lares daquele tempo, mas animados de um espírito novo, que contagiava quem os conhecia e com eles convivia. Assim foram os primeiros cristãos e assim havemos de ser nós, cristãos de hoje: semeadores de paz e de alegria, da paz e da alegria que Cristo nos trouxe.

A arriscada segurança do Cristão

«Qui habitat in adiutorio Altissimi, in protectione Dei coeli commorabitur»: habitar sob a proteção de Deus, viver com Deus, eis a arriscada segurança do cristão. Temos de estar convencidos de que Deus nos ouve, de que está sempre atento; assim, o nosso coração encher-se-á de paz. Mas viver com Deus é indubitavelmente correr um risco, porque o Senhor não Se contenta em partilhar: quer tudo. E aproximar-se um pouco mais d’Ele significa estar disposto a uma nova conversão, a uma nova retificação, a ouvir com mais atenção as suas inspirações, os santos desejos que faz brotar na nossa alma, e a pô-los em prática.

Certamente que, desde a nossa primeira decisão consciente de viver integralmente a doutrina de Cristo, avançámos muito pelo caminho da fidelidade à sua palavra. Mas não é verdade que ainda há tanto por fazer? Não é verdade que resta, sobretudo, tanta soberba? É indubitavelmente necessária uma nova mudança, uma lealdade mais plena, uma humildade mais profunda,
de modo que, diminuindo o nosso egoísmo, Cristo cresça em nós, pois «illum oportet crescere, me autem minui», Ele é que deve crescer, e eu diminuir.

Não podemos ficar parados. Temos de avançar para a meta que São Paulo apontava: «Não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim». A ambição é alta e nobilíssima: a identificação com Cristo, a santidade. Mas, para quem deseja ser coerente com a vida divina que, pelo batismo, Deus fez nascer na nossa alma, não há outro caminho: o avanço é progresso na santidade; o retrocesso é negar-se ao desenvolvimento normal da vida cristã. Porque o fogo
do amor de Deus tem de ser alimentado, tem de aumentar todos os dias, arreigando-se na alma; e o fogo mantém-se vivo queimando novas coisas. Por isso, quando não aumenta, está a caminho de se extinguir. Recordai as palavras de Santo Agostinho: «Se disseres basta, estás perdido. Procura sempre mais, caminha sempre, progride sempre. Não permaneças no mesmo sítio, não retrocedas, não te desvies.»

A Quaresma coloca-nos agora perante estas perguntas fundamentais: avanço na minha fidelidade a Cristo, em desejos de santidade, em generosidade apostólica no meu dia a dia, no meu trabalho habitual entre os meus companheiros de profissão?

Cada um responda a estas perguntas sem ruído de palavras e verá que é necessária uma nova transformação, para que Cristo viva em nós, para que a sua imagem se reflita limpidamente no nosso comportamento.

«Se alguém quer vir após Mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz dia após dia e siga-Me.» Cristo diz-no-lo de novo, a nós, intimamente: a cruz de cada dia. Escreve São Jerónimo: «Não só em tempo de perseguição, ou quando se apresenta a possibilidade do martírio, mas em todas as situações, em todas as atividades, em todos os pensamentos, em todas as palavras, neguemos aquilo
que éramos e confessemos o que agora somos, visto que renascemos em Cristo.»

Na verdade, estas considerações mais não são que o eco das do apóstolo: «Outrora éreis trevas, mas agora sois luz, no Senhor. Procedei como filhos da luz – pois o fruto da luz está em toda a espécie de bondade, justiça e verdade –, procurando discernir o que é agradável ao Senhor.»

A conversão é coisa de um instante; a santificação é uma tarefa para toda a vida. A semente divina da caridade, que Deus pôs na nossa alma, aspira a crescer, a expressar-se em obras, a dar frutos que sejam, em cada momento, agradáveis ao Senhor. Por isso, é indispensável estarmos dispostos a recomeçar, a reencontrar – nas novas situações da nossa vida – a luz e o impulso da primeira conversão. E é por essa razão que havemos de nos preparar com um
exame profundo, pedindo ajuda ao Senhor, para podermos conhecê-lo melhor e conhecer-nos melhor a nós próprios. Não há outro caminho para nos convertermos de novo.

Uma luta incessante

A guerra do cristão é incessante, porque na vida interior há um perpétuo começar e recomeçar, que impede que, com orgulho, imaginemos que já somos perfeitos. É inevitável que haja muitas dificuldades no nosso caminho; se não encontrássemos obstáculos, não seríamos criaturas de carne e osso. Sempre teremos paixões a puxar-nos para baixo e sempre teremos de nos defender desses delírios mais ou menos veementes.

Sentir no corpo e na alma o aguilhão do orgulho, da sensualidade, da inveja, da preguiça e do desejo de subjugar os outros não deveria ser uma descoberta. É um mal antigo, sistematicamente confirmado pela nossa experiência pessoal; é o ponto de partida e o ambiente habitual para vencer a corrida para a casa do Pai, neste desporto íntimo. É por isso que São Paulo nos ensina: «Também eu corro, mas não às cegas; dou golpes, mas não no ar. Castigo o meu corpo e mantenho-o submisso, para que não aconteça que, tendo pregado aos outros, venha eu próprio a ser eliminado.»

O cristão não deve estar à espera de manifestações exteriores ou sentimentos favoráveis para iniciar ou sustentar esta contenda. A vida interior não é uma questão de sentimentos, mas de graça divina e de vontade, de amor. Todos os discípulos foram capazes de seguir Cristo no seu dia de triunfo em Jerusalém, mas quase todos O abandonaram na hora do opróbrio da cruz.

Para amar a sério, é preciso ser forte, leal, com o coração firmemente ancorado na fé, na esperança e na caridade. Só as pessoas levianas mudam caprichosamente o objeto dos seus amores, que não são amores, mas compensações egoístas. Quando há amor, há integridade: capacidade de entrega, de sacrifício, de renúncia; e, com a entrega, o sacrifício e a renúncia, com o suplício da contradição, a felicidade e a alegria, uma alegria que nada nem ninguém poderá tirar-nos.

Neste torneio de amor, não devemos entristecer-nos com as quedas, nem sequer com as quedas graves, se recorremos a Deus no sacramento da penitência, com dor e bons propósitos. O cristão não é um colecionador maníaco de folhas imaculadas de bons serviços. Jesus Cristo Nosso Senhor tanto Se comove com a inocência e a fidelidade de João como, depois da queda de Pedro, Se enternece com o seu arrependimento. Jesus compreende a nossa fragilidade e atrai-nos a Si como que por um plano inclinado, desejando que saibamos insistir no esforço de subir um pouco em cada dia. Ele vem à nossa procura, como foi à procura dos discípulos de Emaús; como foi à procura de Tomé, a quem mostrou e apresentou as chagas abertas das mãos e do peito, para que ele as tocasse. Jesus está sempre à espera de que voltemos para Ele, precisamente porque conhece a nossa fragilidade.

O cristão sabe que está incorporado em Cristo pelo batismo; habilitado a lutar por Cristo pela confirmação; chamado a operar no mundo pela participação na função real, profética e sacerdotal de Cristo; feito uma só coisa com Cristo pela Eucaristia, sacramento da unidade e do amor. Por isso, tal como Cristo, há de viver voltado para os outros homens, olhando com amor para todos e cada um dos que o rodeiam, e para toda a humanidade.

A fé leva-nos a reconhecer Cristo como Deus, a vê-lo como nosso salvador, a identificarmo-nos com Ele, agindo como Ele agiu. Depois de arrancar o apóstolo Tomé às suas dúvidas, mostrando-lhe as suas chagas, o Ressuscitado exclama: «Felizes os que creem sem terem visto.» Comenta São Gregório Magno: «Aqui, fala-se de nós de modo particular, porque possuímos espiritualmente Aquele a quem não vimos corporalmente. Fala-se de nós, mas com a condição de que as nossas ações sejam conformes com a nossa fé. Só crê verdadeiramente aquele que põe em prática aquilo em que crê. Por isso, a propósito daqueles que, da fé, apenas possuem as palavras, diz São Paulo que professam conhecer Deus, mas O negam com as obras.»

Não é possível separar, em Cristo, o seu ser de Deus Homem e a sua função de redentor. O Verbo fez-Se carne e veio ao mundo «ut omnes homines salvi fiant», para salvar todos os homens. Com todas as nossas misérias e limitações pessoais, nós somos outros Cristos, o próprio Cristo, também chamados a servir todos os homens. 

É necessário que aquele mandamento que continuará a ser novo ao longo dos séculos ressoe uma e outra vez. Escreve São João: «Caríssimos, não vos escrevo um mandamento novo, mas um mandamento antigo, que recebestes desde o princípio; este mandamento antigo é a palavra que ouvistes. Não obstante, digo-vos que o mandamento de que vos falo é um mandamento novo, que é verdadeiro em si mesmo e em vós, pois as trevas passaram e já
brilha a luz verdadeira. Quem diz que está na luz, mas aborrece o seu irmão, ainda está nas trevas. Quem ama o seu irmão permanece na luz e nele não há escândalo.»

Nosso Senhor veio trazer a paz, a boa nova, a vida, a todos os homens. Não só aos ricos, nem só aos pobres; não só aos sábios, nem só aos simples. A todos. Aos irmãos, pois somos todos irmãos, filhos de um mesmo Pai, Deus. Por isso, só há uma raça: a raça dos filhos de Deus; só há uma cor: a cor dos filhos de Deus; só há uma língua: a língua que fala ao coração e à inteligência, sem ruído de palavras, mas dando-nos a conhecer Deus e fazendo que nos amemos uns aos outros.

Contemplação da vida de Cristo

É esse amor de Cristo que cada um de nós se deve esforçar por realizar na sua vida. Mas, para sermos ipse Christus, temos de nos ver nele. Não basta termos uma ideia geral do espírito de Jesus, temos de aprender com Ele pormenores e atitudes. E, sobretudo, temos de contemplar a sua passagem pela Terra, as marcas que deixou, para delas tirar força, luz, serenidade, paz.

Quando amamos alguém, queremos conhecer os mais pequenos pormenores da sua existência, do seu carácter, para nos identificarmos com essa pessoa. Por isso, havemos de meditar na história de Cristo, desde o seu nascimento num presépio até à sua morte e à sua Ressurreição. Nos primeiros anos do meu labor sacerdotal, costumava oferecer exemplares do Evangelho ou livros onde se narrasse a vida de Jesus; porque temos de a conhecer bem, de a ter, completa, na mente e no coração, de modo que a qualquer momento, sem necessidade de nenhum livro, fechando os olhos, possamos contemplá-la como um filme; de forma que, nas diversas situações da nossa vida, as palavras e os atos do Senhor nos venham à memória.

Assim, daremos por nós metidos na sua vida. Porque não se trata apenas de pensar em Jesus e de imaginar aquelas cenas; havemos de meter-nos nelas por completo, de ser atores. Seguir Cristo de tão perto como Santa Maria, sua Mãe; como os primeiros doze, como as santas mulheres, como aquelas multidões que se apertavam em seu redor. Se assim fizermos, se não levantarmos obstáculos, as palavras de Cristo entrarão até ao fundo da nossa alma e transformar-nos-ão. Porque «a palavra de Deus é viva, eficaz e mais afiada
que uma espada de dois gumes; penetra até à divisão da alma e do corpo, das articulações e das medulas, e discerne os sentimentos e intenções do coração».

Se queremos levar os outros homens ao Senhor, temos de recorrer ao Evangelho para contemplar o amor de Cristo. Podemos fixar-nos nas cenas culminantes da Paixão, porque, como Ele mesmo disse, «ninguém tem mais amor do que quem dá a vida pelos seus amigos»; mas também podemos considerar o resto da sua vida, o seu trato habitual com quantos se cruzavam com Ele.

Para fazer chegar aos homens a sua doutrina de salvação e lhes revelar o amor de Deus, Cristo, perfeito Deus e perfeito Homem, procedeu de um modo humano e divino. Deus condescende com o homem, assume a nossa natureza sem reservas, exceto no pecado. 

É para mim uma alegria profunda considerar que Cristo quis ser plenamente homem, com carne como a nossa. Emociona-me contemplar a maravilha de um Deus que ama com coração de homem.

Não há nenhuma realidade que possa ser alheia ao afã de Cristo. Falando com profundidade teológica, isto é, não nos limitando a uma classificação funcional, falando com rigor, não se pode dizer que haja realidades – boas, nobres e até indiferentes – que sejam exclusivamente profanas, uma vez que o Verbo de Deus fixou a sua morada entre os filhos dos homens, teve fome e sede, trabalhou com as suas mãos, conheceu a amizade e a obediência, experimentou a dor e a morte; «porque foi nele que aprouve a Deus fazer habitar toda a plenitude e, por Ele e para Ele, reconciliar todas as coisas, pacificando, pelo sangue da sua cruz, tanto as que estão na Terra como as que estão no Céu».

Havemos de amar o mundo, o trabalho, as realidades humanas. Porque o mundo é bom; o pecado de Adão é que quebrou a harmonia divina da criação. Mas Deus Pai enviou o seu Filho Unigénito para restabelecer a paz, para que nós, tornados filhos por adoção, pudéssemos libertar a criação da desordem e reconciliar todas as coisas com Deus.

Cada situação humana é irrepetível, fruto de uma vocação única, que deve ser vivida com intensidade, realizando nela o espírito de Cristo. Assim, vivendo cristãmente entre os nossos iguais, com normalidade, mas em coerência com a nossa fé, seremos Cristo presente entre os homens.

Intimidade com Jesus Cristo no Pão e na Palavra

Se soubermos contemplar o mistério de Cristo, se nos esforçarmos por vê-lo com olhos limpos, perceberemos que continuamos a poder aproximar-nos intimamente de Jesus, em corpo e alma. Cristo assinalou-nos claramente o caminho: pelo Pão e pela Palavra, alimentando-nos com a Eucaristia, conhecendo e cumprindo o que Ele veio ensinar-nos, ao mesmo tempo que conversamos com Ele na oração. «Quem realmente come a minha carne e bebe o meu sangue fica a morar em Mim e Eu nele»; «Quem recebe os meus mandamentos e os observa esse é que Me tem amor; e quem Me tiver amor será amado por meu Pai, e Eu o amarei e hei de manifestar-Me a ele».

Não são meras promessas. São o cerne, a realidade de uma vida autêntica, a vida da graça, que nos move a tratar pessoal e diretamente com Deus. «Se guardardes os meus mandamentos, permanecereis no meu amor, assim como Eu, que tenho guardado os mandamentos do meu Pai, também permaneço no seu amor.» Esta afirmação de Jesus, feita no discurso da Última Ceia, é o melhor
preâmbulo para o dia da Ascensão. Cristo sabia que tinha de Se ir embora, porque, de um modo misterioso que não conseguimos compreender, depois da Ascensão viria – em nova efusão do Amor divino – a terceira Pessoa da Santíssima Trindade: «Contudo, digo-vos a verdade: é melhor para vós que Eu vá, pois, se Eu não for, o Paráclito não virá a vós; mas, se Eu for, Eu vo-lo enviarei.»

Foi-Se embora e enviou-nos o Espírito Santo, que rege e santifica a nossa alma. Ao operar em nós, o Paráclito confirma o que Cristo nos anunciou: que somos filhos de Deus; que não recebemos o espírito de escravidão para agir ainda por temor, mas o espírito de adoção de filhos, pelo qual clamamos: «Abba, Pai!»

Vedes? É a ação da Trindade na nossa alma. Qualquer cristão tem acesso a esta inabitação de Deus no mais íntimo do seu ser, se corresponder à graça que nos leva a unirmo-nos a Cristo no Pão e na Palavra, na Sagrada Hóstia e na oração. A Igreja põe diariamente à nossa consideração a realidade do Pão vivo e dedica-lhe duas grandes festas do ano litúrgico: a da Quinta-Feira Santa e a do Corpus Christi. Neste dia da Ascensão, vamos deter-nos na relação com Jesus através da escuta atenta da sua Palavra.

Apostolado, corredenção

Com a maravilhosa normalidade do divino, a alma contemplativa transborda em preocupação apostólica: «O coração ardia-me no peito; de tanto pensar nisto, esse fogo avivava-se.» Que fogo é este senão aquele de que fala Cristo: «Eu vim lançar fogo sobre a terra; e como gostaria que ele já se tivesse ateado»? Fogo de apostolado, que se robustece na oração; pois não há meio melhor que este para travar em todo o mundo a batalha pacífica em que cada cristão está chamado a participar: cumprir o que resta padecer a Cristo.

Jesus subiu aos Céus, dizíamos. Mas, convivendo com Ele na oração e na Eucaristia, o cristão pode ter com Jesus a mesma relação que tiveram os primeiros doze, deixando-se abrasar pelo mesmo zelo apostólico, para com Ele prestar um serviço de corredenção, que consiste em semear paz e alegria. Servir, pois: o apostolado não é outra coisa. Se contarmos exclusivamente com as nossas próprias forças, nada conseguiremos no terreno sobrenatural; sendo instrumentos de Deus, conseguiremos tudo: tudo posso naquele que me
conforta. Na sua infinita bondade, Deus decidiu utilizar estes instrumentos
ineptos. Por isso, o apóstolo não tem outro fim que não seja deixar o Senhor agir, mostrar-se inteiramente disponível para que Deus realize – através das suas criaturas, através da alma escolhida – a sua obra salvadora.

O apóstolo é o cristão que se sente inserido em Cristo, identificado com Cristo pelo batismo, habilitado a lutar por Cristo pela confirmação, chamado a servir Deus com a sua ação no mundo pelo sacerdócio comum dos fiéis, que confere uma certa participação no sacerdócio de Cristo; uma participação que – sendo essencialmente diferente da que constitui o sacerdócio ministerial – o torna capaz de participar no culto da Igreja e de ajudar os homens no seu caminho para Deus com o testemunho da palavra e do exemplo, com a oração e com a expiação.

Cada um de nós há de ser ipse Christus. Ele é o único mediador entre Deus e os homens; e nós unimo-nos a Ele para, com Ele, oferecer todas as coisas ao Pai. A nossa vocação de filhos de Deus no meio do mundo exige-nos que não procuremos apenas a nossa santidade pessoal, mas vamos convertendo os caminhos da Terra em veredas que, por entre os obstáculos, levem as almas ao Senhor; que participemos, como cidadãos comuns, em todas as atividades temporais, para sermos levedura que dê corpo a toda a massa.

Cristo subiu aos Céus, mas transmitiu a todas as realidades humanas honestas a possibilidade concreta de serem redimidas. São Gregório Magno trata este grande tema cristão com palavras incisivas: «Jesus partia assim para o lugar de onde era, e voltava do lugar onde continuava a morar. Efetivamente, quando subiu ao Céu, Ele uniu o Céu e a Terra com a sua divindade. Na festa de hoje, convém destacar solenemente o facto de o decreto que nos condenava, o juízo que nos tornava sujeitos à corrupção, ter sido suprimido. A natureza à qual se dirigiam as palavras: “Tu és pó e ao pó voltarás” (Gn 3, 19) subiu hoje ao Céu com Cristo.»

Não me cansarei de repetir, portanto, que o mundo é santificável;  é aos cristãos que compete em especial essa missão, purificando-o das ocasiões de pecado com que nós, homens, o desfeamos e oferecendo-o ao Senhor como hóstia espiritual, apresentada e dignificada com a graça de Deus e com o nosso esforço. Em rigor, tendo em conta que o Verbo Se dignou assumir integralmente a natureza humana e consagrar o mundo com a sua presença e com o trabalho das suas mãos, não se pode dizer que haja realidades nobres que sejam exclusivamente profanas. A grande missão que recebemos no batismo é a corredenção. A caridade de Cristo urge-nos a tomar sobre os nossos ombros uma parte dessa tarefa divina de resgatar as almas.

Dar a conhecer Cristo

Vejo todos os acontecimentos da vida – os de cada existência individual e, de certo modo, os das grandes encruzilhadas da história – como outros tantos apelos que Deus faz aos homens para olharem a verdade de frente; e como oportunidades que nos são oferecidas, a nós, cristãos, para anunciarmos com as nossas obras e as nossas palavras, ajudados pela graça, o Espírito a que pertencemos.

Cada geração de cristãos tem de redimir e santificar o seu tempo; para tanto, precisa de compreender e compartilhar os anseios dos homens seus iguais, a fim de lhes dar a conhecer, com dom de línguas, como podem corresponder à ação do Espírito Santo, à permanente efusão das riquezas do coração divino. A nós, cristãos, compete-nos anunciar nestes dias, a este mundo ao qual pertencemos e no qual vivemos, a antiga e sempre nova mensagem do Evangelho.

Não é verdade que os nossos contemporâneos estejam – assim, em geral ou em bloco – fechados, ou permaneçam indiferentes, ao que a fé cristã ensina sobre o destino e o ser do homem; não é certo que os homens do nosso tempo só tratem das coisas da Terra e não tenham interesse em olhar para o céu. Embora não faltem ideologias – e pessoas que as defendem – que estão efetivamente
fechadas à transcendência, na nossa época há ideais elevados e atitudes rasteiras, heroísmos e cobardias, aspirações e desenganos; há pessoas que sonham com um mundo novo, mais justo e mais humano, e outras que, talvez dececionadas com o fracasso dos seus ideais primitivos, se refugiam no egoísmo de buscarem apenas o próprio sossego ou de permanecerem mergulhadas no erro.

Temos de fazer chegar a todos esses homens e a todas essas mulheres, estejam onde estiverem, em momentos de exaltação ou nas suas crises e derrotas, o anúncio solene e categórico de São Pedro nos dias que se seguiram ao Pentecostes: Jesus é a pedra angular, o Redentor, o tudo da nossa vida; e «não há salvação em nenhum outro, pois não há debaixo do céu qualquer outro nome, dado aos homens, que nos possa salvar».

Tenhamos, pois, fé, sem nos deixarmos dominar pelo desalento; sem nos determos em cálculos meramente humanos. Para vencer os obstáculos, temos de começar a trabalhar, envolvendo-nos por completo nessa tarefa, de maneira que o próprio esforço nos leve a abrir novos caminhos. Perante qualquer dificuldade, o remédio é sempre este: santidade pessoal, entrega ao Senhor.

Ser santo é viver como o nosso Pai do Céu dispôs que vivêssemos. Dir-me-eis que é difícil. Sim, o ideal é muito elevado. Mas ao mesmo tempo é fácil: está ao alcance da mão. Quando uma pessoa adoece, nem sempre se consegue encontrar o remédio necessário. No plano sobrenatural, porém, não é assim, pois temos o remédio sempre à mão: é Jesus Cristo, presente na Sagrada Eucaristia, que também nos dá a sua graça nos outros sacramentos que instituiu.

Repitamos, com a palavra e com as obras: Senhor, confio em Ti, basta-me a tua providência ordinária, a tua ajuda de cada dia. Não temos nada que pedir a Deus grandes milagres; pelo contrário, temos de Lhe suplicar que nos aumente a fé, nos ilumine a inteligência, nos fortaleça a vontade. Jesus está sempre junto de nós e comporta-Se sempre como quem é.

Desde o começo da minha pregação, preveni-vos contra um falso endeusamento. Não te perturbe conheceres-te como és: assim, de barro; não te preocupes. Porque tu e eu somos filhos de Deus – e este é o endeusamento bom –, escolhidos por vocação divina desde toda a eternidade: «Foi assim que Ele [o Pai] nos escolheu em Cristo antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis na sua presença, no amor.» Nós, que somos especialmente de Deus, seus instrumentos apesar da nossa pobre miséria pessoal, seremos eficazes se não perdermos o conhecimento da nossa fraqueza. As tentações dão-nos a dimensão da nossa própria debilidade.

Se sentis desalento ao experimentar – talvez de modo particularmente vivo – a vossa mesquinhez, abandonai-vos por completo, com docilidade, nas mãos de Deus. Conta-se que, certo dia, um mendigo interpelou Alexandre Magno, pedindo-lhe uma esmola; Alexandre deteve-se e ordenou que o fizessem senhor de cinco cidades. O pobre, confuso e atordoado, exclamou: «Eu não pedia tanto!»; ao que Alexandre respondeu: «Tu pediste como quem és,
eu dou-te como quem sou».

Mesmo naqueles momentos em que temos uma consciência mais profunda das nossas limitações, podemos e devemos olhar para Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo, sabendo-nos participantes da vida divina. Não há nunca razões suficientes para olhar para trás30: o Senhor está ao nosso lado. Temos de ser fiéis, leais, de assumir as nossas obrigações, encontrando em Jesus o amor e o estímulo para compreender os erros dos outros e ultrapassar os
nossos. Assim, todos esses desalentos – os teus, os meus, os de todos os homens – também servirão de suporte ao Reino de Cristo.

Reconheçamos as nossas fraquezas, mas confessemos o poder de Deus. A vida cristã há de estar repleta de otimismo, de alegria, da firme convicção de que o Senhor quer servir-Se de nós. Se nos sentirmos parte da Santa Igreja, se nos considerarmos sustentados pela rocha firme de Pedro e pela ação do Espírito Santo, cumpriremos decididamente o pequeno dever de cada instante: semear todos os dias um pouco. E a colheita fará transbordar os celeiros.