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Há 4 pontos em «Cristo que Passa» cujo tema é Jesus Cristo  → ressurreição.

* Homilia proferida a 26 de março de 1967, Domingo de Páscoa da Ressurreição do Senhor

Cristo vive. Esta é a grande verdade que enche de conteúdo a nossa fé. Jesus, que morreu na cruz, ressuscitou, triunfando da morte, do poder das trevas, da dor e da angústia. «Não temais»: foi com esta invocação que um anjo saudou as mulheres que iam ao sepulcro. «Não vos assusteis! Buscais a Jesus de Nazaré, o crucificado? Ressuscitou; não está aqui1.» «Hæc est dies quam fecit Dominus, exultemus et lætemur in ea», este é o dia que o Senhor fez, alegremo-nos.

O tempo pascal é tempo de alegria, de uma alegria que não se limita a esta época do ano litúrgico, mas mora permanentemente no coração dos cristãos. Porque Cristo vive. Cristo não é uma figura que passou, que existiu em certo tempo e Se foi embora, deixando-nos uma recordação e um exemplo maravilhosos.

Não. Cristo vive. Jesus é o Emanuel: Deus connosco. A sua Ressurreição revela-nos que Deus não abandona os seus: «Pode uma mulher esquecer-se do seu bebé, não ter carinho pelo fruto das suas entranhas? Ainda que ela se esquecesse dele, Eu nunca te esqueceria», havia-nos prometido. E cumpriu a promessa. Deus continua a ter as suas delícias entre os filhos dos homens.

Cristo vive na sua Igreja. «Digo-vos a verdade: é melhor para vós que Eu vá, pois, se Eu não for, o Paráclito não virá a vós; mas, se Eu for, Eu vo-lo enviarei.» Era este o desígnio de Deus: morrendo na cruz, Jesus dar-nos-ia o Espírito de verdade e de vida. Cristo permanece na sua Igreja: nos sacramentos, na liturgia, na pregação, em toda a sua atividade.

Cristo continua presente entre nós de modo especial nessa entrega diária que é a Sagrada Eucaristia. Por isso, a Missa é o centro e a raiz da vida cristã. O Cristo total, cabeça e corpo, está presente em todas as missas: «Per ipsum, et cum ipso, et in ipso.» Porque Cristo é o caminho, o mediador: nele, encontramos tudo; fora dele, a nossa vida torna-se vazia. Em Jesus Cristo, e instruídos por Ele, «audemus dicere: Pater noster», atrevemo-nos a dizer: Pai nosso; atrevemo-nos a chamar Pai ao Senhor dos Céus e da Terra.

A presença de Jesus vivo na Sagrada Hóstia é a garantia, a raiz e a consumação da sua presença no mundo.

Cristo vive no cristão. A fé diz-nos que o homem em estado de graça está endeusado. Não somos anjos, mas homens e mulheres, seres de carne e osso, com coração e com paixões, com tristezas e com alegrias. Mas a divinização opera em todo o homem como que uma antecipação da ressurreição gloriosa. «Cristo ressuscitou dos mortos, como primícias dos que morreram. Porque, assim como por um homem veio a morte, também por um homem vem a ressurreição dos mortos. E, como todos morrem em Adão, assim em Cristo todos voltarão a receber a vida.»

A vida de Cristo é vida nossa, segundo o que Ele prometeu aos seus apóstolos na Última Ceia: «Se alguém Me tem amor, há de guardar a minha palavra; e o meu Pai o amará, e Nós viremos a ele e nele faremos morada.» Por isso, o cristão deve viver segundo a vida de Cristo, tornando seus os sentimentos de Cristo, de modo
que possa exclamar com São Paulo: «Non vivo ego, vivit vero in me Christus», não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim.

É necessário, portanto, que a nossa fé seja viva, que nos leve a crer realmente em Deus e a manter um constante diálogo com Ele. A vida cristã deve ser uma vida de oração constante, procurando estar na presença do Senhor de manhã até à noite e da noite até de manhã. O cristão não é um homem solitário, posto que vive em permanente conversa com Deus, que está junto de nós e nos Céus.

«Sine intermissione orate», orai sem cessar, manda o apóstolo. Recordando esse preceito apostólico, escreve Clemente de Alexandria: «Manda-se-nos louvar e honrar o Verbo, a quem conhecemos como salvador e rei, e, por Ele, o Pai; não em dias escolhidos, como fazem alguns, mas constantemente, ao longo de toda
a vida, e de todos os modos possíveis.»

No meio das ocupações de cada dia, quando vence a tendência para o egoísmo, quando sente a alegria da amizade com os outros homens, em todos esses instantes deve o cristão reencontrar Deus. Por Cristo e no Espírito Santo, o cristão tem acesso à intimidade de Deus Pai, e percorre o seu caminho buscando esse reino, que não é deste mundo, mas que neste mundo se inicia e prepara. 

É preciso privar com Cristo na Palavra e no Pão, na Eucaristia e na oração. Tratá-lo como se trata um amigo, um ser real e vivo, que é isso que Cristo é, porque ressuscitou. Diz a Epístola aos Hebreus que, permanecendo eternamente, Cristo «possui um sacerdócio que não acaba. Sendo assim, pode salvar de um modo
definitivo os que por meio d’Ele se aproximam de Deus, pois está vivo para sempre, a fim de interceder por eles».

Cristo, Cristo ressuscitado, é o companheiro, o Amigo. Um companheiro que só Se deixa ver entre sombras, mas cuja realidade enche toda a nossa vida e nos faz desejar a sua companhia definitiva. «O Espírito e a Esposa dizem: “Vem!” Diga também o que escuta: “Vem!” O que tem sede que se aproxime; e o que deseja beba gratuitamente da água da vida. […] O que é testemunha destas
coisas diz: “Sim, virei brevemente”. Ámen! Vem, Senhor Jesus!»

*Homilia proferida a 25 de maio de 1969, solenidade de Pentecostes

Com a narrativa dos acontecimentos do dia de Pentecostes, em que o Espírito Santo desceu em forma de línguas de fogo sobre os discípulos de Nosso Senhor, os Atos dos Apóstolos permitem-nos assistir à grande manifestação do poder de Deus com que a Igreja iniciou a sua caminhada entre as nações. Nesse momento, a vitória que – com a sua obediência, a sua imolação na cruz e a sua Ressurreição – Cristo obtivera sobre a morte e o pecado revelou-se em todo o seu esplendor divino.

Os discípulos, que já tinham sido testemunhas da glória do Ressuscitado,
experimentaram em si a força do Espírito Santo: a sua inteligência e o seu coração abriram-se a uma nova luz. Tinham seguido Cristo e acolhido a sua doutrina, mas nem sempre conseguiam penetrar no sentido profundo desta; era necessário que sobre eles descesse o Espírito de verdade, que os fizesse compreender todas as coisas. Sabiam que só em Jesus podiam encontrar palavras de vida eterna, e estavam dispostos a segui-lo e a dar a vida por Ele; mas eram fracos e, quando chegou a hora da provação, fugiram, deixando-O só.
No dia de Pentecostes, tudo isso passou: o Espírito Santo, que é espírito de fortaleza, tornou-os firmes, seguros, audazes; e a palavra dos apóstolos ressoou, forte e vibrante, pelas ruas e praças de Jerusalém.

Os homens e as mulheres que naqueles dias enchem a cidade, provenientes das mais diversas regiões, escutam-nos com assombro: «Partos, medos, elamitas, habitantes da Mesopotâmia, da Judeia e da Capadócia, do Ponto e da Ásia, da Frígia e da Panfília, do Egito e das regiões da Líbia cirenaica, colonos de Roma, judeus e prosélitos, cretenses e árabes ouvimo-los anunciar, nas nossas línguas,
as maravilhas de Deus!» Os prodígios que se realizam diante dos seus olhos levam-nos a prestar atenção à pregação apostólica. O mesmo Espírito Santo que operava nos discípulos do Senhor também lhes tocou o coração, conduzindo-os à fé.

Conta-nos São Lucas que, depois de São Pedro ter proclamado a Ressurreição de Cristo, muitos daqueles que O rodeavam se aproximaram, perguntando: «Que havemos de fazer, irmãos?». E o apóstolo respondeu-lhes: «Convertei-vos e peça cada um o batismo em nome de Jesus Cristo, para a remissão dos seus pecados; recebereis, então, o dom do Espírito Santo.» E o texto sagrado conclui
dizendo que, nesse dia, cerca de três mil pessoas aderiram à Igreja. 

A vinda solene do Espírito Santo no dia de Pentecostes não foi um acontecimento isolado. Quase não há página dos Atos dos Apóstolos em que se não fale d’Ele e da ação por meio da qual guia, dirige e anima a vida e as obras da primitiva comunidade cristã. É Ele quem inspira a pregação de São Pedro, quem confirma os discípulos na fé, quem sela com a sua presença o chamamento dirigido aos gentios, quem envia Saulo e Barnabé para terras distantes, a fim de abrirem novos caminhos à doutrina de Jesus; numa
palavra, a sua presença e a sua atuação são dominantes.