Lista de pontos
Passou pela Terra fazendo o bem
Vedes como é necessário conhecer Jesus, observar amorosamente a sua vida? Fui muitas vezes à Escritura procurar a definição, a biografia de Jesus. Encontrei-a lendo aquela que o Espírito Santo faz em duas palavras: «Pertransiit benefaciendo.» Todos os dias de Jesus Cristo na Terra, desde o nascimento até à morte, foram assim: «pertransiit benefaciendo», preenchidos fazendo o bem. E, noutra passagem, a Escritura diz: «Bene omnia fecit», fez tudo bem, terminou bem todas as coisas, não fez senão o bem.
E tu e eu? Vejamos se temos alguma coisa que emendar. Eu, sim, encontro em mim muito que corrigir. E, porque me sinto incapaz de, só por mim, fazer o bem, e porque o próprio Jesus nos disse que sem Ele nada podemos, vamos, tu e eu, ter com o Senhor, implorar a sua assistência por meio de sua Mãe neste colóquio íntimo, próprio das almas que amam a Deus. Não acrescento mais nada, porque cada um de vós tem de prosseguir esta conversa segundo as suas necessidades específicas; por dentro e sem ruído de palavras, neste preciso momento em que vos dou estes conselhos, aplico esta doutrina à minha própria miséria.
Cumpriu a vontade de Deus, seu Pai
Não me afasto da mais rigorosa verdade se vos disser que Jesus continua a procurar pousada no nosso coração. Temos de Lhe pedir perdão pela nossa cegueira pessoal, pela nossa ingratidão, e a graça de nunca mais Lhe fecharmos a porta da nossa alma.
O Senhor não nos esconde que a obediência rendida à vontade de Deus exige renúncia e entrega, porque o amor não reclama direitos: quer servir. Ele foi o primeiro a percorrer este caminho. Jesus, como obedeceste Tu? «Usque ad mortem, mortem autem crucis», até à morte, e morte de cruz. Temos de sair de nós próprios, de permitir que a nossa vida se complique, de perder a vida por amor a Deus e às almas. «Tu querias viver e que nada te acontecesse; mas Deus quis outra coisa. São duas vontades: a tua vontade deve ser corrigida para se identificar com a vontade de Deus, e não a de Deus torcida para se acomodar à tua.»
Com alegria, tenho visto muitas almas entregarem a vida – como Tu, Senhor, usque ad mortem – cumprindo o que a vontade de Deus lhes pedia, dedicando o seu esforço e o seu trabalho profissional ao serviço da Igreja, pelo bem de todos os homens.
Aprendamos a obedecer, aprendamos a servir; não há maior nobreza que querer entregar-se voluntariamente a ser útil aos outros. Quando sentimos o orgulho a ferver dentro de nós, a soberba a fazer-nos pensar que somos super-homens, é altura de dizer não, de dizer que o nosso único triunfo há de ser o da humildade. Assim, identificar-nos-emos com Cristo na cruz, e não o faremos incomodados, ou inquietos, ou de mau humor, mas alegres, porque essa alegria no esquecimento de si mesmo é a melhor prova de amor.
Recordar a um cristão que o sentido da sua vida é obedecer à vontade de Deus não é separá-lo dos outros homens. Pelo contrário, em muitos casos, o mandamento recebido do Senhor é que nos amemos uns aos outros como Ele nos amou, vivendo junto dos outros e tal como os outros, entregando-nos ao serviço do Senhor no mundo, para dar a conhecer melhor a todas as almas o amor de Deus; para lhes dizer que se abriram os caminhos divinos da Terra.
O Senhor não Se limitou a dizer que nos amava; demonstrou-o com obras. Não nos esqueçamos de que Jesus encarnou para nos ensinar a viver a vida dos filhos de Deus. Recordai o preâmbulo dos Atos dos Apóstolos, pela mão do evangelista São Lucas: «Primum quidem sermonem feci de omnibus, o Theophile, quæ cœpit Jesus facere et docere», falei das coisas mais notáveis que Jesus fez e ensinou. Ele veio ensinar, mas fazendo; veio ensinar, mas sendo modelo, sendo Mestre e exemplo com o seu comportamento.
Aqui, diante de Jesus Menino, podemos prosseguir o nosso exame pessoal: estamos decididos a procurar que a nossa vida sirva de modelo e de ensinamento aos homens nossos irmãos, nossos iguais? Estamos decididos a ser outros Cristos? Não basta dizer de boca. Tu – pergunto-o a cada um de vós e pergunto-o a mim mesmo –, tu, que, por seres cristão, estás chamado a ser outro Cristo, mereces que se repita de ti que vieste facere et docere, fazer tudo como um filho de Deus, atento à vontade de seu Pai, para, deste modo, poderes levar todas as almas a participar das coisas boas, nobres, divinas e humanas da redenção? Estás a viver a vida de Cristo no teu dia a dia no meio do mundo?
Fazer as obras de Deus não é um bonito jogo de palavras; é um convite a gastar-se por amor. Temos de morrer para nós próprios a fim de renascermos para uma vida nova. Porque foi assim que Jesus obedeceu, até à morte de cruz, «mortem autem crucis. Propter quod et Deus exaltavit illum», e por isso Deus O exaltou. Se obedecermos à vontade de Deus, a cruz será também ressurreição, exaltação. A vida de Cristo cumprir-se-á em nós, passo a passo; poder-se-á dizer que vivemos procurando ser bons filhos de Deus, que passámos fazendo o bem, apesar da nossa fraqueza e dos nossos erros pessoais, por mais numerosos que sejam.
E, quando vier a morte, que virá inexoravelmente, esperá-la-emos com júbilo, como vi que souberam esperá-la tantas pessoas santas no meio da sua existência comum. Com alegria, porque, se imitámos Cristo a fazer o bem – a obedecer e a carregar a cruz, apesar das nossas misérias –, ressuscitaremos como Cristo: «surrexit Dominus vere!», que ressuscitou realmente.
Jesus, que Se fez menino – meditai nisto –, venceu a morte. Com o aniquilamento, com a simplicidade, com a obediência, com a divinização do vulgar dia a dia das criaturas, o Filho de Deus foi vencedor. Este foi o triunfo de Cristo. Deste modo, elevou-nos ao seu nível, ao nível dos filhos de Deus, descendo ao nosso terreno, o terreno dos filhos dos homens.
*Homilia proferida a 4 de abril de 1971, Domingo de Ramos
Como todas as festas cristãs, esta que hoje celebramos é especialmente uma festa de paz. Os ramos, com o seu simbolismo ancestral, evocam aquela cena do Génesis: Noé «aguardou mais sete dias; depois soltou novamente a pomba, que voltou para junto dele à tarde, trazendo no bico uma folha verde de oliveira. Noé soube então que as águas sobre a terra tinham baixado». Hoje, recordamos que a aliança entre Deus e o seu povo foi confirmada e estabelecida em Cristo, porque «Ele é a nossa paz». Nessa maravilhosa unidade e recapitulação do velho no novo que caracteriza a liturgia da nossa Santa Igreja Católica, lemos estas palavras de profunda alegria: «As crianças de Jerusalém foram ao encontro do Senhor com ramos de oliveira, clamando com alegria: “Hossana nas alturas”.»
A aclamação a Cristo entrelaça-se na nossa alma com aquela que saudou o seu nascimento em Belém; conta São Lucas: «Enquanto caminhava, estendiam as capas no caminho. Estando já próximo da descida do monte das Oliveiras, o grupo dos discípulos começou a louvar alegremente a Deus em alta voz por todos os milagres que tinham visto. E diziam: “Bendito seja o Rei que vem
em nome do Senhor! Paz no céu e glória nas alturas!”»
Paz na terra
«Pax in cœlo», paz no Céu. Mas olhemos também para o mundo: porque é que não há paz na Terra? Não, não há paz; há somente aparência de paz, equilíbrio de medo, compromissos precários. Também não há paz na Igreja, sulcada por tensões que retalham a branca túnica da Esposa de Cristo. Nem há paz em muitos corações, que tentam em vão compensar a intranquilidade da alma com uma agitação contínua, com a pequena satisfação de bens que não saciam, porque deixam sempre um travo amargo de tristeza.
Escreve Santo Agostinho: «As folhas de palma são símbolo de homenagem, porque significam vitória. O Senhor estava prestes a vencer, morrendo na cruz; no sinal da cruz, triunfaria sobre o diabo, príncipe da morte.» Cristo é a nossa paz porque venceu; e venceu porque lutou, no duro combate contra a maldade acumulada do coração humano. Cristo, que é a nossa paz, também é o caminho. Se queremos a paz, temos de seguir os seus passos. A paz é uma consequência da guerra, da luta, dessa luta ascética, íntima, que cada cristão deve manter contra tudo aquilo que, na sua vida, não é de Deus: contra a soberba, a sensualidade, o egoísmo, a superficialidade, a estreiteza do coração. É inútil clamar por sossego exterior se falta tranquilidade nas consciências, no fundo da alma, porque é do coração que «procedem as más intenções, os assassínios, os adultérios, as prostituições, os roubos, os falsos testemunhos e as blasfémias».
Documento impresso de https://escriva.org/pt-pt/book-subject/es-cristo-que-pasa/32516/ (18/05/2026)