A Eucaristia, um mistério de fé e de amor

*Homilia proferida a 14 de abril de 1960, Quinta-Feira Santa

«Antes da festa da Páscoa, Jesus, sabendo bem que tinha chegado a sua hora da passagem deste mundo para o Pai, Ele, que amara os seus que estavam no mundo, levou o seu amor por eles até ao extremo.» Este versículo de São João anuncia ao leitor do seu Evangelho que nesse dia vai ter lugar um acontecimento importante. É um preâmbulo terno e afetuoso, paralelo ao que São Lucas recolhe no seu relato: «Tenho ardentemente desejado comer esta Páscoa convosco, antes de padecer», diz o Senhor. Comecemos por pedir desde já ao Espírito Santo que nos prepare para compreendermos todas as expressões e todos os gestos de Jesus, porque queremos viver vida sobrenatural, porque o Senhor nos mostrou a sua vontade de Se nos oferecer como alimento da alma, e porque reconhecemos que só Ele tem «palavras de vida eterna».

A fé leva-nos a confessar com Simão Pedro: «Nós cremos e sabemos que Tu é que és o Santo de Deus.» E é essa fé, unida à devoção, que, nesses momentos sublimes, nos leva a imitar a audácia de João: aproximamo-nos de Jesus e reclinamos a cabeça no peito do Mestre, que, como acabámos de ouvir, por amar ardentemente os seus, vai amá-los até ao extremo.

Todos os modos de dizer são pobres quando se pretende explicar, mesmo de longe, o mistério de Quinta-Feira Santa. No entanto, não é difícil imaginar, em parte, os sentimentos do coração de Jesus naquela tarde, a última que passava com os seus antes do sacrifício do Calvário.

Pensai na experiência, tão humana, de duas pessoas que se amam e têm de despedir-se: gostariam de continuar juntas, mas o dever – seja ele qual for – obriga-as a separarem-se; não podem continuar ao pé uma da outra, como era sua vontade. Nestas ocasiões, o amor humano, que, por maior que seja, é sempre limitado, recorre aos símbolos: aqueles que se despedem trocam lembranças, talvez uma fotografia, com uma dedicatória tão inflamada que por pouco não pega fogo ao papel. Mas não conseguem ir além disso, porque o poder das criaturas não chega tão longe como o seu querer. 

Ora, o que nós não conseguimos, consegue-o o Senhor. Jesus Cristo, perfeito Deus e perfeito Homem, não deixa um símbolo, mas a realidade: fica Ele próprio. Irá para o Pai, mas permanecerá com os homens. Não Se limitará a legar-nos um dom que nos permita evocar a sua memória, uma imagem que tende a apagar-se com o tempo, como a fotografia que não tarda a esvair-se e a ficar amarelada, até perder o sentido para quem não interveio naquele
momento amoroso. Sob as espécies do pão e do vinho está Ele, realmente presente, com o seu Corpo, o seu Sangue, a sua Alma e a sua Divindade.

A alegria da Quinta-Feira Santa

Que bem se percebe o incessante clamor dos cristãos de todos os tempos diante da Hóstia Santa! «Canta, ó língua, o mistério do corpo glorioso e do sangue precioso que o Rei dos povos, filho do ventre fecundo, derramou para resgate do mundo.» É preciso adorar devotamente este Deus escondido7; Ele é Jesus Cristo, o mesmo que nasceu da Virgem Maria, o mesmo que padeceu e foi imolado na cruz, o mesmo, enfim, de cujo peito trespassado jorraram água e sangue.

Este é o sagrado banquete em que se recebe o próprio Cristo e se renova a sua Paixão; com Ele, a alma priva com o seu Deus e possui um penhor da futura glória. A liturgia da Igreja resumiu em breves estrofes os capítulos culminantes da história da ardente caridade que o Senhor tem por nós.

O Deus da nossa fé não é um ser distante, que contempla o destino dos homens – as suas fadigas, as suas lutas, as suas angústias – com indiferença. É um Pai que ama os seus filhos até ao extremo de lhes enviar o Verbo, segunda Pessoa da Santíssima Trindade, para, com a sua Encarnação, morrer por nós e nos redimir; o mesmo Pai amoroso que agora nos atrai suavemente a Si, mediante a ação do Espírito Santo que habita em nossos corações.

É esse o motor da alegria da Quinta-Feira Santa: compreendermos que o Criador transborda de afeto pelas suas criaturas. Como se não bastassem todas as outras provas da sua misericórdia, Nosso Senhor Jesus Cristo institui a Eucaristia para que possamos tê-lo sempre perto de nós e porque – tanto quanto nos é possível entender –, movido pelo seu Amor, aquele que de nada precisa não quis prescindir de nós. A Trindade apaixonou-Se pelo homem, elevado à ordem da graça e feito à sua imagem e semelhança, redimiu-o
do pecado – do pecado de Adão, que se propagou a toda a sua descendência,
e dos pecados pessoais de cada um – e deseja vivamente morar na nossa alma, como diz o Evangelho: «Se alguém Me tem amor, há de guardar a minha palavra; e o meu Pai o amará, e Nós viremos a ele e nele faremos morada.»

A Eucaristia e o mistério da Santíssima Trindade

Esta corrente trinitária de amor pelos homens perpetua-se de maneira sublime na Eucaristia. Todos aprendemos, há muitos anos, no catecismo que a Sagrada Eucaristia pode ser considerada como sacrifício e como sacramento; e que o sacramento se nos apresenta como comunhão e como um tesouro no sacrário, sobre o altar. A Igreja dedica outra festa – o Corpus Christi – ao mistério eucarístico da presença do corpo de Cristo em todos os tabernáculos do mundo. Hoje, Quinta-Feira Santa, vamos deter-nos na Sagrada Eucaristia como sacrifício e alimento, na Santa Missa e na Sagrada Comunhão.

Falei de corrente trinitária de amor pelos homens; e é na Santa Missa que melhor nos apercebemos dela. É toda a Trindade que opera no santo sacrifício do altar; é por isso que gosto tanto de repetir aquelas palavras finais da coleta, da secreta* e da oração depois da comunhão: «Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho [estamos a dirigir-nos ao Pai], que convosco vive e reina na unidade do Espírito Santo por todos os séculos dos séculos. Ámen.»

Na Missa, a oração ao Pai é constante. O sacerdote é um representante do Sacerdote eterno, Jesus Cristo, que é ao mesmo tempo a vítima; e a ação do Espírito Santo não é menos inefável nem menos certa: «É pela virtude do Espírito Santo que se opera a conversão do pão no corpo de Cristo», escreve São João Damasceno. 

Esta ação do Espírito Santo exprime-se claramente quando o sacerdote invoca a bênção divina sobre as oferendas: «Vinde, ó Santificador, omnipotente e eterno, e abençoai este sacrifício preparado para glorificar o vosso santo nome», o holocausto que dará ao santíssimo nome de Deus a glória que lhe é devida. A santificação que imploramos é atribuída ao Paráclito, que o Pai e o Filho nos enviam; também reconhecemos a presença ativa do Espírito Santo no sacrifício quando dizemos, pouco antes da comunhão: «Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus vivo, que, por vontade do Pai e com o poder do Espírito Santo, destes a vida ao mundo pela vossa morte...»

* A «oração secreta» era aquilo que se designa atualmente por «oração
sobre as oblatas».

Toda a Trindade está presente no sacrifício do altar: por vontade do Pai, com o poder do Espírito Santo, o Filho oferece-Se em oblação redentora. Aprendamos a privar com a Santíssima Trindade, Deus Uno e Trino, três Pessoas divinas na unidade da sua substância, do seu amor e da sua ação eficaz e santificadora. Logo a seguir ao lavabo, o sacerdote invoca: «Recebei, ó Trindade Santíssima, esta oblação, que Vos oferecemos em memória da Paixão, Ressurreição e Ascensão de Nosso Senhor Jesus Cristo.» E, no final da Santa Missa, há outra oração de inflamada reverência ao Deus Uno e Trino: «Placeat tibi, Sancta Trinitas, obsequium servitutis meæ...», «seja-Vos agradável, ó Trindade Santa, a oferta da minha servidão, a fim de que este sacrifício que, embora indigno aos olhos de Vossa Majestade, Vos ofereci, seja aceite por Vós e, por vossa misericórdia, seja propiciatório para mim e para todos
aqueles por quem o ofereci».

A Missa não é – insisto – uma ação humana, mas uma ação divina, trinitária. O sacerdote que celebra serve o desígnio do Senhor, emprestando-Lhe o seu corpo e a sua voz; não age, porém, em nome próprio, mas in persona et in nomine Christi, na pessoa de Cristo e em nome de Cristo.

O amor da Santíssima Trindade pelos homens faz que da presença de Cristo na Eucaristia nasçam todas as graças para a Igreja e para a humanidade. Este é o sacrifício que Malaquias profetizou: «Do nascente ao poente, o meu nome é grande entre as nações, e em todos os lugares é oferecido ao meu nome um sacrifício de incenso e uma oferenda pura.» É o sacrifício de Cristo, oferecido
ao Pai com a cooperação do Espírito Santo; uma oblação de valor infinito, que eterniza em nós a redenção, que os sacrifícios da antiga Lei não conseguiam operar.

A Santa Missa na vida do cristão

Deste modo, a Santa Missa situa-nos diante dos mistérios primordiais da fé, porque se trata da própria doação da Santíssima Trindade à Igreja; compreende-se por isso que a Missa seja o centro e a raiz da vida espiritual do cristão. É o fim de todos os sacramentos; na Missa, a vida da graça, que foi depositada em nós pelo batismo e que cresce fortalecida pela confirmação, encaminha-se para a sua plenitude. Escreve São Cirilo de Jerusalém: «Quando participamos na Eucaristia, experimentamos a espiritualização deificante do Espírito Santo, que não só nos configura com Cristo, como sucede no batismo, mas nos cristifica integralmente, associando-nos à plenitude de Cristo Jesus.»

A efusão do Espírito Santo, cristificando-nos, leva-nos a reconhecermo-nos como filhos de Deus. O Paráclito, que é caridade, ensina-nos a fundir toda a nossa vida com essa virtude; e assim, «consummati in unum», unidos a Cristo, podemos ser entre os homens o que Santo Agostinho afirma da Eucaristia: «sinal de unidade e vínculo de amor».

Não dou novidade nenhuma quando afirmo que alguns cristãos têm uma visão muito pobre da Santa Missa e que, para outros, ela é um mero rito exterior, quando não um convencionalismo social. É que os nossos corações, mesquinhos, são capazes de viver rotineiramente a maior doação de Deus aos homens. Na Missa, nesta Missa que agora celebramos, intervém de modo especial, repito, a Santíssima Trindade; a correspondência a tanto amor exige de nós total entrega de corpo e alma, pois ouvimos Deus, falamos com Ele,
vemo-lo e saboreamo-lo; e, se as palavras não forem suficientes,
poderemos cantar, instigando a nossa língua – Pange, lingua! – a proclamar,
na presença de toda a humanidade, as grandezas do Senhor.

Viver a Santa Missa é permanecer em oração contínua, é convencermo-nos de que se trata de um encontro pessoal de cada um de nós com Deus, em que adoramos, louvamos, pedimos, damos graças, reparamos pelos nossos pecados, nos purificamos e nos sentimos, em Cristo, uma só coisa com todos os cristãos.

Talvez tenhamos ocasionalmente perguntado a nós próprios como corresponder a tanto amor de Deus, e até desejaríamos que nos pusessem com toda a clareza diante dos nossos olhos um programa de vida cristã. A solução é fácil e está ao alcance de todos os fiéis: participar amorosamente na Santa Missa, aprender a estar intimamente com Deus na Missa, porque este sacrifício encerra tudo aquilo que o Senhor quer de nós.

Permiti que vos recorde o que tereis observado tantas vezes: o desenrolar das cerimónias litúrgicas. É muito possível que, seguindo-as passo a passo, o Senhor nos faça descobrir em que pontos devemos melhorar, que vícios temos de extirpar e como há de ser o nosso convívio fraterno com todos os homens.

O sacerdote dirige-se para o altar de Deus, do Deus que alegra a nossa juventude. A Santa Missa inicia-se com um cântico de alegria, porque Deus está aqui; alegria que se exprime, juntamente com o reconhecimento e o amor, no beijo à mesa do altar, símbolo de Cristo e memória dos santos; um espaço pequeno e santificado, porque nesta ara se confeciona o sacramento de eficácia infinita. 

O «Confiteor» põe-nos diante da nossa indignidade; não se trata de uma recordação abstrata da culpa, mas da presença concreta dos nossos pecados e das nossas faltas. Por isso, repetimos: «Kyrie eleison, Christe eleison», Senhor, tende piedade de nós, Cristo, tende piedade de nós. Se o perdão de que necessitamos tivesse relação com os nossos méritos, neste momento nasceria
na nossa alma uma tristeza amarga; mas, por bondade divina, o perdão vem-nos da misericórdia de Deus, a quem já louvamos entoando o Glória, «porque só Vós sois o Santo, só Vós o Senhor, só Vós o Altíssimo Jesus Cristo, com o Espírito Santo, na glória de Deus Pai».

Depois, ouvimos a palavra da Escritura, a epístola e o Evangelho, luzes do Paráclito, que fala com voz humana para que a nossa inteligência saiba e contemple, para que a vontade se robusteça e a ação se cumpra. Porque somos um só povo que confessa uma só fé, um Credo; um povo «congregado na unidade do Pai, do Filho, e do Espírito Santo».

Segue-se o ofertório: o pão e o vinho dos homens. Não é muito, mas vai acompanhado de oração: «De coração humilhado e contrito sejamos recebidos por Vós, Senhor. Assim o nosso sacrifício seja agradável a vossos olhos». Irrompe de novo a recordação da nossa miséria e o desejo de que tudo aquilo que se destina ao Senhor esteja limpo e purificado: «Lavai-me, Senhor, da minha iniquidade e purificai-me do meu pecado.»

Há instantes, antes do lavabo, invocámos o Espírito Santo, pedindo-Lhe que abençoasse o sacrifício oferecido ao seu santo nome. Terminada a purificação, dirigimo-nos à Trindade – «Suscipe, Sancta Trinitas» –, pedindo-Lhe que acolha o que apresentamos em memória da vida, da Paixão, da Ressurreição e da Ascensão de Cristo, em honra de Maria, sempre Virgem, em honra de todos os santos.

«Orate, fratres», reza o sacerdote, para que a oblação redunde em benefício de todos, porque este sacrifício é meu e vosso, de toda a Santa Igreja. Orai, irmãos, mesmo que sejam poucos os que se encontram reunidos, mesmo que só esteja materialmente presente um cristão, ou até só o celebrante, porque qualquer Missa é holocausto universal, resgate de todas as tribos, línguas, povos e nações!

Pela comunhão dos santos, todos os cristãos recebem as graças de cada Missa, quer se celebre diante de milhares de pessoas, quer tenha como único assistente o menino, possivelmente distraído, que ajuda o sacerdote. Em qualquer caso, a Terra e o Céu unem-se para entoar com os anjos do Senhor: «Sanctus, Sanctus, Sanctus...».

Eu aplaudo e louvo com os anjos; não me custa, porque me sei rodeado por eles quando celebro a Santa Missa: estão a adorar a Trindade. E também sei que, de algum modo, a Santíssima Virgem intervém neste ato, dada a íntima união que mantém com a Trindade Beatíssima, e porque é Mãe de Cristo, da sua carne e do seu sangue, Mãe de Jesus Cristo, perfeito Deus e perfeito Homem. Concebido nas entranhas de Maria Santíssima sem intervenção de
varão, mas unicamente pelo poder do Espírito Santo, Jesus tem o mesmo sangue que sua Mãe; e é esse sangue que se oferece no sacrifício redentor, no Calvário e na Santa Missa.

Entramos assim no cânone, com a confiança filial que nos leva a chamar clementíssimo a Deus nosso Pai. Pedimos-Lhe pela Igreja e por todos os que dela fazem parte, pelo Papa, pela nossa família, pelos nossos amigos e colegas. E o católico, que tem um coração universal, pede pelo mundo inteiro, porque nada pode ficar excluído do seu zelo entusiasta. Para que a petição seja acolhida, tornamos presente a nossa memória e a nossa comunicação com a gloriosa sempre Virgem Maria e com um punhado de homens que foram os primeiros a seguir Cristo e por Ele morreram.

«Quam oblationem...»: aproxima-se o momento da consagração. Agora, na Missa, a atuação é novamente de Cristo, através do sacerdote: «Isto é o meu Corpo», «Este é o cálice do meu Sangue». Jesus está connosco! Com a transubstanciação, renova-se a infinita loucura divina, ditada pelo Amor. Quando esse momento se repetir hoje, que cada um de nós saiba dizer ao Senhor, sem ruído de palavras, que nada poderá afastar-nos d’Ele, que a sua disponibilidade de Se deixar ficar – indefeso – nas frágeis aparências do pão e do vinho fez de nós seus escravos voluntários: «Præsta meæ menti de te vivere, et te illi semper dulce sapere», que a minha alma sempre de Ti viva, que sempre lhe seja doce o teu sabor.

Mais petições, porque nós, homens, estamos quase sempre inclinados a pedir: pelos nossos irmãos defuntos e por nós próprios. Aqui, também cabem todas as nossas infidelidades e misérias; a carga é muita, mas Ele quer levá-la por nós e connosco. O cânone vai terminar com outra invocação à Santíssima Trindade: «Per ipsum, et cum ipso, et in ipso...», por Cristo, com Cristo e em Cristo, nosso Amor, a Ti, Deus Pai Todo-Poderoso, na unidade do Espírito Santo, toda a honra e toda a glória pelos séculos dos séculos.

Jesus é o caminho, o mediador: nele, tudo; fora dele, nada. Em Cristo e ensinados por Ele, atrevemo-nos a chamar Pai ao Todo-Poderoso: aquele que fez o Céu e a Terra é um Pai afetuoso, que espera de cada um de nós que regresse continuamente a Ele, como novo e constante filho pródigo. 

«Ecce Agnus Dei...», «Domine, non sum dignus...». Vamos receber o Senhor. Quando, na Terra, se recebem pessoas muito importantes, há luzes, música, trajes de gala. Como havemos de nos preparar para albergar Cristo na nossa alma? Alguma vez pensámos como nos comportaríamos se só se pudesse comungar uma vez na vida?

Quando eu era criança, a prática da comunhão frequente ainda não estava generalizada. Recordo como as pessoas se preparavam para comungar, o esmero com que arranjavam a alma e o corpo: o melhor fato, o cabelo bem penteado, o corpo fisicamente limpo, talvez mesmo um pouco de perfume... Eram delicadezas próprias de apaixonados, de almas finas e rijas, que sabem pagar o Amor com amor.

Com Cristo na alma, termina a Santa Missa; e a bênção do Pai, do Filho e do Espírito Santo acompanha-nos durante toda a jornada, na nossa missão simples e normal de santificar todas as atividades humanas nobres.

Assistindo à Santa Missa, aprendereis a relacionar-vos com cada uma das Pessoas divinas: com o Pai, que gera o Filho; com o Filho, que é gerado pelo Pai; e com o Espírito Santo, que procede dos dois. Relacionando-nos com qualquer das três Pessoas, relacionamo-nos com um único Deus; e, dando-nos intimamente com as três, com a Trindade, damo-nos também com um só Deus, único e verdadeiro. Amai a Missa, meus filhos, amai a Missa! E comungai com fome, mesmo que estejais gelados, mesmo que não haja correspondência por parte da emotividade: comungai com fé, com esperança e com caridade inflamada.

Viver na intimidade com Jesus Cristo

Quem não ama a Santa Missa, quem não se esforça por vivê-la com serenidade e sossego, com devoção, com afeto, não ama Cristo. O amor transforma os apaixonados em pessoas de sensibilidade fina e delicada, levando-os a descobrir pormenores por vezes mínimos, mas que são sempre expressão de um coração apaixonado. É assim que devemos assistir à Santa Missa. Por isso, sempre me pareceu que quem prefere ouvir uma Missa rápida e atabalhoada demonstra com essa atitude, já de si pouco elegante, que não chegou a perceber o significado do sacrifício do altar.

O amor a Cristo, que Se oferece por nós, leva-nos, acabada a Missa, a saber encontrar uns minutos para uma ação de graças pessoal, íntima, que prolongue no silêncio do coração essa outra ação de graças que é a Eucaristia. Como havemos de nos dirigir a Ele, de Lhe falar, de nos comportar?

A vida cristã não é feita de normas rígidas, porque o Espírito Santo não dirige as almas em massa, mas infundindo em cada uma propósitos, inspirações e afetos que a ajudarão a compreender e cumprir a vontade do Pai. Penso, no entanto, que em muitas ocasiões o nervo do nosso diálogo com Cristo, da ação de graças depois da Santa Missa, poderá ser a consideração de que o Senhor é, para nós, Rei, Médico, Mestre e Amigo.

É Rei e deseja reinar no nosso coração de filhos de Deus. Não imaginemos, porém, reinados humanos, porque Cristo não domina nem procura impor-Se, dado que «não veio para ser servido, mas para servir». O seu reino é a paz, a alegria, a justiça. Cristo, nosso Rei, não espera de nós raciocínios vãos, mas factos, porque «nem todo o que Me diz: “Senhor, Senhor” entrará no Reino do Céu, mas sim aquele que faz a vontade de meu Pai que está no céu».

É Médico e cura o nosso egoísmo, se deixarmos que a sua graça penetre até ao fundo da nossa alma. Jesus advertiu-nos de que a pior doença é a hipocrisia, o orgulho que nos leva a dissimular os nossos pecados. Com o Médico, é imprescindível ter uma sinceridade absoluta, contar toda a verdade e dizer: «Domine, si vis, potes me mundare», Senhor, se quiseres – e Tu queres sempre –, podes purificar-me. Tu conheces as minhas fraquezas, tenho estes sintomas e estas debilidades. E mostramos-Lhe as chagas, com toda a simplicidade, e o pus, se houver. Senhor, Tu, que curaste tantas almas, faz que, tendo-Te no meu peito ou contemplando-Te no sacrário, eu Te reconheça como Médico divino.

É Mestre de uma ciência que só Ele possui, a ciência do amor a Deus sem limites e, em Deus, a todos os homens. Na escola de Cristo, aprendemos que a nossa existência não nos pertence. Ele entregou a sua vida por todos os homens e nós, que O seguimos, temos de compreender que também não podemos apropriar-nos da nossa vida de maneira egoísta, sem partilhar as dores dos outros. A nossa vida é de Deus, e havemos de gastá-la ao seu serviço, preocupando-nos generosamente com as almas e demonstrando, com a palavra e com o exemplo, a profundidade das exigências cristãs.

Jesus espera que alimentemos o desejo de adquirir essa ciência, e repete-nos: «Se alguém tem sede, venha a Mim.» E nós respondemos: ensina-nos a esquecermo-nos de nós, para pensarmos em Ti e em todas as almas. Deste modo, o Senhor far-nos-á progredir com a sua graça, como quando aprendemos a escrever (recordais os gatafunhos da infância, guiados pela mão do professor?), e começaremos a saborear a dita de expressar a nossa fé, que é, já de si, outra dádiva de Deus, com os traços inequívocos de um comportamento cristão no qual todos possam descobrir as maravilhas divinas.

É Amigo, o Amigo: «Vos autem dixi amicos», diz-nos. Chama-nos amigos e foi Ele que deu o primeiro passo, pois amou-nos primeiro. Contudo, não impõe o seu afeto: oferece-o. E prova-o com o sinal mais evidente da amizade: «Ninguém tem mais amor do que quem dá a vida pelos seus amigos.» Jesus era amigo de Lázaro e chorou por ele quando o viu morto; e ressuscitou-o. Por
isso, se nos vir frios, desalentados, talvez com a rigidez de uma vida interior que se está a extinguir, o seu pranto será vida para nós: «Eu te ordeno, meu amigo, levanta-te e anda», deixa essa vida mesquinha, que não é vida.

Está a terminar esta meditação de Quinta-Feira Santa. Se o Senhor nos ajudou – e Ele está sempre disposto, basta que Lhe abramos o coração –, sentiremos a urgência de corresponder àquilo que é mais importante: amar. E saberemos difundir essa caridade entre os outros homens, com uma vida de serviço. «Dei-vos exemplo», insiste Jesus, falando aos seus discípulos na noite da Ceia, depois de lhes lavar os pés. Afastemos do coração o orgulho, a ambição, o desejo de nos evidenciarmos; e a paz e a alegria reinarão à nossa volta e dentro de nós, enraizadas no sacrifício pessoal.

Finalmente, um pensamento filial e amoroso para Maria, Mãe de Deus e nossa Mãe. Perdoai se volto a contar-vos uma recordação da minha infância, desta vez relativa a uma imagem que se difundiu muito na minha terra quando São Pio X promoveu a prática da comunhão frequente: Maria adorando a Hóstia Santa. Hoje, como então e como sempre, Nossa Senhora ensina-nos a conviver intimamente com Jesus, a reconhecê-lo e a encontrá-lo nas diversas circunstâncias do dia, de modo especial nesse instante supremo – o tempo une-se à eternidade – do Santo Sacrifício da Missa: com gesto de sacerdote eterno, Jesus atrai a Si todas as coisas, para as colocar, divino afflante Spiritu, com o sopro do Espírito Santo, na presença de Deus Pai.

Referências da Sagrada Escritura
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