O coração de Cristo, paz dos cristãos

*Homilia proferida a 17 de junho de 1966, solenidade do Sagrado Coração de Jesus

Deus Pai dignou-Se conceder-nos, no coração de seu Filho, «infinitos dilectionis thesauros», tesouros infinitos de amor, de misericórdia, de ternura. Se queremos ter a prova de que Deus nos ama – de que não só escuta as nossas orações, mas Se nos antecipa –, basta-nos seguir o raciocínio de São Paulo: aquele «que nem sequer poupou o seu próprio Filho, mas O entregou por todos nós, como não havia de nos oferecer tudo juntamente com Ele?»

A graça renova o homem por dentro e converte-o, de pecador e rebelde, em servo bom e fiel3. E a fonte de todas as graças é o amor que Deus tem por nós e nos revelou não só com palavras, mas também com atos. O amor divino fez que a segunda Pessoa da Santíssima Trindade, o Verbo, o Filho de Deus Pai, tomasse a nossa carne, isto é, a nossa condição humana, menos o pecado. E o

Verbo, a Palavra de Deus, é Verbum spirans amorem, Palavra da qual procede o Amor.

O amor revela-se-nos na Encarnação, nessa caminhada redentora de Jesus Cristo pela Terra, até ao sacrifício supremo da cruz. E, já na cruz, exprime-se com novo sinal: «Um dos soldados traspassou-Lhe o peito com uma lança e logo brotou sangue e água.» Água e sangue de Jesus que nos falam de uma entrega realizada até ao extremo, até ao «consummatum est», tudo está
consumado, por amor. Na festa de hoje, ao considerarmos uma vez mais os mistérios centrais da nossa fé, maravilhamo-nos com o facto de as realidades mais profundas – o amor de Deus Pai, que entrega o seu Filho, o amor do Filho, que O leva a caminhar sereno até ao Gólgota – se traduzirem em gestos muito próximos dos homens. Deus não Se dirige a nós numa atitude de poder e de domínio; aproxima-Se «tomando a condição de servo, tornando-Se
semelhante aos homens». Jesus nunca Se mostra distante e altivo, ainda que, durante os seus anos de pregação, O vejamos por vezes desgostoso, porque a maldade humana Lhe dói; mas, se repararmos melhor, percebemos que o desgosto ou a cólera provêm do amor, são um novo convite a abandonarmos a infidelidade e o pecado. «Porventura Me hei de comprazer com a morte do pecador – oráculo do Senhor Deus – e não com o facto de ele se converter
e viver?»: estas palavras explicam toda a vida de Cristo e permitem-nos compreender porque foi que Se apresentou diante de nós com um coração de carne, com um coração como o nosso, prova irrefutável de amor e testemunho constante do inefável mistério da caridade divina.

Conhecer o coração de Cristo Jesus

Não posso deixar de vos confiar algo que é para mim um motivo de pena e um estímulo à ação: pensar nos homens que ainda não conhecem Cristo, que não pressentem ainda a profunda felicidade que nos espera nos Céus, e andam pelo mundo como cegos, atrás de uma alegria cujo verdadeiro nome ignoram, ou perdendo-se por sendas que os afastam da felicidade autêntica. Que bem se percebe o que terá sentido o apóstolo Paulo quando estava na cidade de Tróade e, entre sonhos, teve uma visão: «Um macedónio estava de pé diante dele e fazia-lhe este pedido: “Passa à Macedónia e vem ajudar-nos!”. Logo que Paulo teve esta visão, procurámos [Paulo e Timóteo] partir para a Macedónia, persuadidos de que Deus nos chamava, para aí anunciar a boa nova.»

Não sentis, vós também, que Deus nos chama, que nos impele – através de tudo o que se passa à nossa volta – a proclamar a boa nova da vinda de Jesus? Às vezes, contudo, nós, cristãos, empequenecemos a nossa vocação, caímos na superficialidade, perdemos tempo com disputas e querelas. Ou, pior ainda, não falta quem se escandalize falsamente com o modo como os outros vivem certos
aspetos da fé ou determinadas devoções, e se entretenha a destruir e criticar, em vez de se esforçar por vivê-los como considera adequado. É claro que pode haver, e há de facto, deficiências na vida dos cristãos. Mas o importante não somos nós e as nossas misérias; o importante é Ele, Jesus. É de Cristo que devemos falar, e não de nós.

As reflexões que acabo de fazer são suscitadas por alguns comentários sobre uma alegada crise na devoção ao Sagrado Coração de Jesus. Tal crise não existe. A verdadeira devoção foi e continua a ser uma atitude viva, cheia de sentido humano e de sentido sobrenatural. Os seus frutos têm sido e continuam a ser frutos saborosos de conversão, de entrega, de cumprimento da vontade de Deus, de penetração amorosa nos mistérios da redenção.

Outra coisa bem diferente são as manifestações de um sentimentalismo
ineficaz, vazio de doutrina e eivado de pietismo. Eu também não gosto de imagens delambidas, de certas figurações do Sagrado Coração que não podem inspirar devoção nenhuma a pessoas com senso comum e com sentido sobrenatural cristão. Mas não é uma demonstração de boa lógica transformar certos abusos de ordem prática, que acabam por desaparecer por si, num problema doutrinal e teológico.

Se crise existe, é no coração dos homens, que – por miopia, por egoísmo, por estreiteza de vistas – não são capazes de vislumbrar o insondável amor de Cristo Senhor nosso. Desde que foi instituída a festa de hoje, a liturgia da Santa Igreja tem sabido oferecer alimento à verdadeira piedade, recolhendo como leitura para a Missa um texto de São Paulo em que nos é proposto todo um programa de vida contemplativa – conhecimento e amor, oração e vida –, que começa com esta devoção ao coração de Jesus. É o próprio Deus que nos convida, pela boca do apóstolo, a seguir esse caminho: «Que Cristo, pela fé, habite nos vossos corações; que estejais enraizados e alicerçados no amor, para terdes a capacidade de apreender, com todos os santos, qual a largura, o comprimento, a altura e a profundidade… a capacidade de conhecer o amor de Cristo, que ultrapassa todo o conhecimento, para que sejais repletos, até receberdes toda a plenitude de Deus.»

A plenitude de Deus revela-se-nos e dá-se-nos em Cristo, no amor de Cristo, no coração de Cristo; porque este é o coração daquele em quem «habita realmente toda a plenitude da divindade». Por isso, quando se perde de vista este superior desígnio de Deus – a corrente de amor instaurada no mundo pela Encarnação, pela redenção e pelo Pentecostes –, não se tem capacidade para compreender as delicadezas do coração do Senhor.

A verdadeira devoção ao coração de Cristo

Consideremos toda a riqueza que se encerra nestas palavras: Sagrado Coração de Jesus. Quando falamos de um coração humano, não nos referimos apenas aos sentimentos; aludimos à pessoa toda que quer, que ama, que se relaciona com os outros; e, na maneira de os homens se exprimirem, que a Sagrada Escritura utiliza para nos dar a entender as coisas divinas, o coração é considerado o resumo e a fonte, a expressão e o fundo íntimo dos pensamentos, das palavras, das ações. Um homem vale o que vale o seu coração, diríamos em linguagem corrente.

Ao coração pertence a alegria: «O meu coração alegra-se com a tua salvação»; o arrependimento: «O meu coração tornou-se como cera e derreteu-se dentro do peito»; o louvor a Deus: «O meu coração vibra com belas palavras»; a decisão de ouvir o Senhor: «O meu coração está firme»; a vigília amorosa:
«Eu dormia, mas de coração desperto». E ainda a dúvida e o temor: «Não se perturbe o vosso coração. Credes em Deus; crede também em Mim».

O coração não se limita a sentir; também sabe e entende. A lei de Deus é recebida no coração e nele permanece escrita18; e a Escritura acrescenta: «A boca fala da abundância do coração». O Senhor lançou em cara a uns escribas: «Porque alimentais esses maus pensamentos nos vossos corações?»; e, para resumir todos os pecados que um homem pode cometer, esclareceu: «Do coração procedem as más intenções, os assassínios, os adultérios, as prostituições, os roubos, os falsos testemunhos e as blasfémias».

Quando a Sagrada Escritura fala do coração, não se refere a um sentimento passageiro, que emociona ou faz nascer as lágrimas. Fala-se do coração para referir a pessoa, que, como disse o próprio Jesus, se orienta, toda ela – alma e corpo –, para aquilo que considera o seu bem, uma vez que «onde estiver o teu tesouro, aí estará também o teu coração».

Por isso, quando falamos do coração de Jesus, estamos a salientar a certeza do amor de Deus e a verdade da sua entrega a nós. Recomendar a devoção a esse Sagrado Coração é o mesmo que dizer que devemos orientar-nos integralmente, com tudo o que somos – a nossa alma, os nossos sentimentos e pensamentos, as nossas palavras e ações, os nossos trabalhos e as nossas alegrias –, para Jesus todo.

É nisto que se concretiza a verdadeira devoção ao coração de Jesus: em conhecer Deus e nos conhecermos a nós próprios, e em olhar para Jesus – que nos anima, nos ensina, nos guia – e recorrer a Ele. A única superficialidade que pode haver nesta devoção é a de um homem que, não sendo integralmente humano, não consegue perceber a realidade de Deus encarnado.

Jesus na cruz, com o coração trespassado de amor pelos homens, é uma resposta eloquente – sobram as palavras – à pergunta sobre o valor das coisas e das pessoas. Os homens, a sua vida e a sua felicidade, têm tanto valor que o Filho de Deus Se entrega para os redimir, para os purificar, para os elevar. Perguntava uma alma contemplativa: «Quem não amará o seu coração tão ferido? Quem não pagará amor com amor? Quem não abraçará um coração tão puro? Nós, que somos de carne, pagaremos amor com amor, abraçaremos o nosso ferido, atravessado de mãos e pés, de lado e coração, pelos ímpios. Peçamos-Lhe que Se digne prender o nosso coração com o vínculo do seu amor e feri-lo com uma lança, pois é ainda duro e impenitente.»

São pensamentos, afetos e palavras que as almas enamoradas desde sempre dedicaram a Jesus. Mas, para entender essa linguagem, para saber o que é realmente o coração humano, o coração de Cristo e o amor de Deus, é preciso fé e é preciso humildade. Foi com fé e humildade que Santo Agostinho nos deixou umas palavras universalmente famosas: «Criaste-nos, Senhor, para Ti, e o
nosso coração está inquieto enquanto em não descansa em Ti.»

Quando esquece a humildade, o homem pretende apropriar-se de Deus, mas não daquela maneira divina que o próprio Cristo tornou possível ao dizer: «Tomai e comei, isto é o meu Corpo»; antes, tentando reduzir a grandeza divina aos limites humanos. A razão, essa razão fria e cega, que não é a inteligência que procede da fé, nem a reta inteligência da criatura capaz de saborear e
amar as coisas, transforma-se na sem-razão de quem tudo submete às suas pobres experiências habituais, que amesquinham a verdade sobre-humana e cobrem o coração do homem com uma crosta insensível às inspirações do Espírito Santo. A nossa pobre inteligência estaria perdida se não fosse o poder misericordioso de Deus, que rasga as fronteiras da nossa miséria: «Dar-vos-ei um coração novo e introduzirei em vós um espírito novo: arrancarei do vosso
peito o coração de pedra e vos darei um coração de carne.» E a alma recupera a luz e enche-se de alegria, por força das promessas da Sagrada Escritura.

«Eu conheço bem os desígnios que tenho acerca de vós, desígnios de prosperidade e não de calamidade», declarou Deus pela boca do profeta Jeremias. A liturgia aplica estas palavras a Jesus, porque nele se torna evidente com toda a clareza que é assim que Deus nos ama: não vem condenar-nos, não vem lançar-nos à cara a nossa indigência ou a nossa mesquinhez; vem salvar-nos, perdoar-nos, desculpar-nos, trazer-nos a paz e a alegria. Se reconhecermos
esta maravilhosa relação do Senhor com os seus filhos, o nosso coração mudará necessariamente e veremos abrir-se diante dos nossos olhos um horizonte absolutamente novo, cheio de relevo, de profundidade e de luz.

Levar o amor de Cristo aos outros

Mas reparai que Deus não nos declara: em vez do coração, dar-vos-ei uma vontade de espíritos puros. Não; Ele dá-nos um coração, e um coração de carne, como o de Cristo. Não tenho um coração para amar Deus e outro para amar as pessoas da Terra; é com o coração com que amei os meus pais e amo os meus amigos, é com esse mesmo coração que amo a Cristo, o Pai, o Espírito Santo e Santa Maria. Não me cansarei de vos repetir: temos de ser muito humanos, senão também não podemos ser divinos.

O amor humano, o amor deste mundo, quando é verdadeiro, ajuda-nos a saborear o amor divino. Desta maneira, entrevemos o amor com que havemos de gozar de Deus e o que teremos entre nós no Céu, quando o Senhor for «tudo em todos». Este começar a entender o que é o amor divino levar-nos-á a ser habitualmente mais compassivos, mais generosos, mais entregues.

Havemos de dar o que recebemos, de ensinar o que aprendemos; de levar os outros a participarem – sem presunção, com simplicidade – desse conhecimento do amor de Cristo. Ao fazer, cada um de vós, o seu trabalho, no exercício da sua profissão na sociedade, podeis e deveis transformar essa ocupação num serviço. O trabalho bem feito, que progride e faz progredir, que tem em conta os desenvolvimentos da cultura e da técnica, realiza uma função
importante, útil a toda a humanidade, quando o seu motor não é o egoísmo, mas a generosidade, não é o proveito próprio, mas o bem de todos; quando está cheio do sentido cristão da vida.

No contexto desse trabalho e da rede de relações humanas que ele promove, haveis de mostrar a caridade de Cristo e os seus resultados concretos de amizade, de compreensão, de afeto humano e de paz. Assim como Cristo andou por todos os caminhos da Palestina fazendo o bem, assim também vós tendes de fazer uma grande sementeira de paz nos caminhos humanos da família, da
sociedade civil, das relações profissionais, da cultura e do descanso. Esta será a prova mais acabada de que o Reino de Deus chegou ao vosso coração: «Nós sabemos que passámos da morte para a vida, porque amamos os irmãos», escreve o apóstolo São João.

Mas ninguém vive esse amor se não se formar na escola do coração de Jesus. Só olhando e contemplando o coração de Cristo conseguiremos que o nosso se liberte do ódio e da indiferença; só assim saberemos reagir cristãmente diante dos sofrimentos alheios, diante da dor.

Recordai a cena da entrada de Cristo na cidade de Naim, que São Lucas nos conta: ao ver a angústia daquelas pessoas, com quem Se cruzou por acaso, Jesus podia ter passado ao largo, ou ter esperado que O chamassem e Lhe pedissem alguma coisa; mas nem Se vai embora nem fica na expectativa. Toma a iniciativa, comovido pela aflição de uma viúva que perdera a única coisa
que lhe restava, o filho.

Explica o evangelista que Jesus Se compadeceu; talvez a sua comoção tivesse manifestações exteriores, como aquando da morte de Lázaro. Jesus não era, não é, insensível à dor que nasce do amor, nem sente prazer em separar os filhos dos pais; Ele venceu a morte para dar a vida, para que aqueles que se amam possam estar juntos, embora exija, antes e ao mesmo tempo, a preeminência do Amor divino que deve conformar uma existência autenticamente cristã.

Cristo sabe que está rodeado por uma grande multidão, a quem o milagre encherá de pasmo e que apregoará o sucedido por toda a região. Mas o gesto do Senhor não é artificial, não visa dar nas vistas; Jesus ficou realmente afetado pelo sofrimento daquela mulher e não pode deixar de a consolar. Por isso, aproxima-Se e diz-lhe: «Não chores»; que é como se lhe dissesse: Não quero ver-te nesse pranto, porque Eu vim trazer alegria e paz a este mundo. E, a seguir, faz o milagre, manifestação do poder de Cristo Deus. Mas primeiro a sua alma comoveu-se, em manifestação evidente da ternura do coração de Cristo Homem.

Se não aprendermos com Jesus, nunca saberemos amar. Se pensássemos, como alguns, que manter o coração limpo, digno de Deus, significa não o misturar, não o contaminar com afetos humanos, o resultado lógico seria tornarmo-nos insensíveis à dor dos outros; apenas seríamos capazes de uma caridade oficial, seca e sem alma, que não é a verdadeira caridade de Cristo, pois esta é ternura e amor humano. Não pretendo com isto justificar falsas teorias, que mais não são do que lamentáveis desculpas para desviar os corações, afastando-os de Deus e levando-os a más ocasiões e à perdição.

Na festa de hoje, havemos de pedir ao Senhor que nos dê um coração bom, capaz de se compadecer das dores dos outros homens, capaz de compreender que o verdadeiro bálsamo para os tormentos que acompanham e, não poucas vezes, angustiam as almas neste mundo é o amor, a caridade; os outros consolos só servem para nos distrair por momentos, deixando atrás de si amargura e desespero.

Se queremos ajudar os outros, temos de os amar, insisto, com um amor que seja compreensão e entrega, afeto e humildade voluntária. Assim, compreenderemos porque foi que o Senhor decidiu resumir toda a Lei no duplo mandamento, que é, na realidade, um único mandamento: o amor a Deus e o amor ao próximo de todo o coração.

Talvez estejais a pensar que, por vezes, nós, cristãos – não os outros: tu e eu –, nos esquecemos das concretizações mais elementares deste dever. Talvez estejais a pensar em tantas injustiças que não se remedeiam, em abusos que não se corrigem, em situações de discriminação que se transmitem de geração em geração sem ninguém as solucionar de vez.

Não posso – nem me compete – propor-vos formas concretas de resolver esses problemas. Mas, como sacerdote de Cristo, é meu dever recordar-vos o que diz a Sagrada Escritura. Meditai na cena do Juízo Final, descrita pelo próprio Jesus: «Afastai-vos de Mim, malditos, para o fogo eterno, que está preparado para o diabo e para os seus anjos! Porque tive fome e não Me destes de comer, tive sede e não Me destes de beber, era peregrino e não Me recolhestes, estava nu e não Me vestistes, doente e na prisão e não fostes visitar-Me.»

Um homem ou uma sociedade que não reage perante as tribulações ou as injustiças, e se não esforça por aliviá-las, não é um homem ou uma sociedade à medida do amor do coração de Cristo. Os cristãos – mantendo sempre a mais ampla liberdade no estudo e na aplicação das diversas soluções, e, portanto, com lógico pluralismo – terão de convergir no mesmo anseio de servir a humanidade; senão, o seu cristianismo não será a palavra e a vida de
Jesus: será um disfarce, um embuste perante Deus e os homens.

A paz de Cristo

Tenho ainda outra consideração a propor-vos: havemos de lutar sem descanso por fazer o bem, precisamente porque sabemos que nós, homens, temos dificuldade em levar a sério a decisão de exercitar a justiça, e falta ainda muito para que a convivência neste mundo seja inspirada pelo amor e não pelo ódio ou a indiferença. Por outro lado, mesmo que consigamos atingir um estado razoável de distribuição dos bens e uma organização harmoniosa da sociedade, continuaremos a confrontar-nos com a dor da doença, da incompreensão e da solidão, a dor da morte das pessoas que amamos e da experiência das nossas limitações.

O cristão só pode dar uma resposta autêntica a estas mágoas, uma resposta que é definitiva: Cristo na cruz, Deus que sofre e que morre, Deus que nos entrega o seu coração, aberto por uma lança por amor a todos. Nosso Senhor abomina as injustiças e condena quem as comete; mas, como respeita a liberdade de cada pessoa, permite que elas existam. Deus Nosso Senhor não provoca a dor das criaturas, mas tolera-a como parte que é – depois do pecado
original – da condição humana. No entanto, o seu coração cheio de Amor pelos homens levou-O a tomar sobre os seus ombros, juntamente com a cruz, todas essas torturas: o nosso sofrimento, a nossa tristeza, a nossa angústia, a nossa fome e sede de justiça.

Os ensinamentos cristãos sobre a dor não são um programa de consolações fáceis. São, antes de mais, uma doutrina de aceitação do sofrimento, como facto inseparável de qualquer vida humana. Não posso esconder-vos – com alegria, porque sempre preguei e procurei viver que onde está a cruz está Cristo, o Amor – que a dor esteve muitas vezes presente na minha vida; e que mais de
uma vez tive vontade de chorar. Noutras ocasiões, senti crescer a mágoa pela injustiça e pelo mal; e conheci o sabor da impotência ao ver que nada podia fazer, que, apesar dos meus desejos e dos meus esforços, não conseguia melhorar essas situações iníquas.

Quando vos falo de dor, não vos falo apenas de teorias. Nem me limito a recolher a experiência de outros quando vos confirmo que, se alguma vez sentis vacilar a alma perante a realidade do sofrimento, a solução é olhar para Cristo. A cena do Calvário proclama a todos que, se vivermos unidos à cruz, as aflições podem ser santificadas.

As nossas tribulações, vividas cristãmente, transformam-se em reparação, em desagravo, em participação no destino e na vida de Jesus, que experimentou voluntariamente, por amor aos homens, toda a espécie de dores, todo o género de tormentos: nasceu, viveu e morreu pobre; foi atacado, insultado, difamado, caluniado e condenado injustamente; conheceu a traição e o abandono dos discípulos; experimentou a solidão e as amarguras do suplício e da morte. E Cristo continua a sofrer nos seus membros, em toda a humanidade que povoa este mundo, da qual é Cabeça, Primogénito e Redentor.

A dor faz parte dos planos de Deus. A realidade é esta, embora nos custe entendê-la; enquanto homem, Jesus também teve dificuldade em aceitá-la: «Pai, se quiseres, afasta de Mim este cálice; contudo, não se faça a minha vontade, mas a tua.» Nesta tensão entre sofrimento e aceitação da vontade do Pai, Jesus avança para a morte com serenidade, perdoando àqueles que O crucificaram.

Mas esta aceitação sobrenatural da dor constitui, por outro lado, a maior conquista: morrendo na cruz, Jesus venceu a morte. Deus tira, da morte, a vida. A atitude de um filho de Deus não é a de quem se resigna à sua trágica desventura, é a satisfação de quem saboreia antecipadamente a vitória. Em nome desse amor vitorioso de Cristo, nós, cristãos, devemos lançar-nos por todos os caminhos da Terra, para sermos semeadores de paz e de alegria com a nossa palavra e com as nossas obras. Temos de lutar – numa luta de paz – contra o mal, contra a injustiça, contra o pecado, proclamando assim que a atual condição humana não é a definitiva; que o amor de Deus, expresso no coração de Cristo, alcançará o glorioso triunfo espiritual dos homens.

Evocámos há pouco o episódio de Naim. Poderíamos citar outros, porque os Evangelhos estão cheios de cenas semelhantes, relatos que comoveram e hão de continuar a comover o coração dos homens, porque não são apenas um gesto sincero de um homem que se compadece dos seus semelhantes, são essencialmente a revelação da imensa caridade do Senhor. O coração de Jesus é o coração de Deus Encarnado, do Emanuel, Deus connosco.

«Do coração aberto corra o manancial dos mistérios pascais da nossa redenção»: é esse coração aberto de par em par que nos transmite a vida. Como não recordar aqui, mesmo que de passagem, os sacramentos, através dos quais Deus opera em nós e nos faz participantes da força redentora de Cristo? Como não recordar com particular gratidão o Santíssimo Sacramento da Eucaristia, o santo sacrifício do Calvário e a sua constante renovação incruenta na nossa Missa? É Jesus que Se nos entrega como alimento; e,
porque Jesus vem até nós, tudo muda e há no nosso ser forças – a ajuda do Espírito Santo – que enchem a alma, que conformam as nossas ações, o nosso modo de pensar e de sentir. O coração de Cristo é paz para o cristão.

O fundamento da entrega que o Senhor nos pede não são só os nossos desejos e as nossas forças, tantas vezes limitados e impotentes; são sobretudo as graças que o Amor do coração de Deus feito homem conquistou para nós. Por isso, podemos e devemos perseverar na nossa vida interior de filhos do Pai que está nos Céus, sem dar acolhimento ao desânimo nem ao desalento. Gosto de fazer considerar que o cristão, na sua existência vulgar e quotidiana,
nos mais simples pormenores, nas circunstâncias normais do seu dia a dia, exercita a fé, a esperança e a caridade, porque é nisso que reside a essência do comportamento de uma alma que conta com o auxílio divino e que encontra a alegria, a força e a serenidade na prática dessas virtudes teologais.

São estes os frutos da paz de Cristo, da paz que nos vem do seu Sacratíssimo Coração. Porque – digamo-lo uma vez mais – o amor de Jesus aos homens é um aspeto insondável do mistério divino, do amor do Filho ao Pai e ao Espírito Santo. O Espírito Santo, laço de amor entre o Pai e o Filho, encontra no Verbo um coração humano.

Não é possível falar destas realidades centrais da nossa fé sem tomar consciência das limitações da nossa inteligência e da grandeza da Revelação. Mas, embora não sejamos capazes de abarcar estas verdades, e embora a nossa razão se encha de pasmo ao contemplá-las, cremos nelas com humildade e firmeza, pois sabemos, apoiados no testemunho de Cristo, que são assim: que, no seio da Trindade, o Amor se derrama sobre todos os homens por intermédio do amor do coração de Jesus.

Viver no coração de Jesus, estar estreitamente unido a ele, é, portanto, ser morada de Deus. «Quem Me tiver amor será amado por meu Pai», anunciou o Senhor, e Cristo e o Pai, no Espírito Santo, vêm à alma e fazem nela a sua morada.

Quando compreendemos – mesmo que seja só um pouco – estas verdades fundamentais, mudamos a nossa maneira de ser. Temos fome de Deus e fazemos nossas as palavras do salmo: Ó meu Deus, eu Te busco solícito, a minha alma tem sede de Ti, a minha carne deseja-Te como terra árida, sem água. E Jesus, que fomentou a nossa ânsia, vem ao nosso encontro e diz-nos: «Se alguém tem sede, venha a Mim», oferecendo-nos o seu coração, para nele encontrarmos descanso e fortaleza. Se aceitarmos o seu chamamento,
comprovaremos que as suas palavras são verdadeiras, e veremos aumentar a nossa fome e a nossa sede, a ponto de desejarmos que Deus estabeleça o lugar do seu repouso no nosso coração e não afaste de nós o seu calor e a sua luz.

«Ignem veni mittere in terram, et quid volo nisi ut accendatur?», Eu vim lançar fogo sobre a terra, e como gostaria que ele já se tivesse ateado. Aproximámo-nos um pouco do fogo do Amor de Deus; deixemos que a nossa existência seja movida por esse impulso, sintamos o entusiasmo de levar o fogo divino de um extremo ao outro do mundo, de o dar a conhecer àqueles que nos rodeiam,
para que também eles conheçam a paz de Cristo e, com ela, encontrem a felicidade. Um cristão que viva unido ao coração de Jesus não pode ter outro objetivo que não seja a paz na sociedade, a paz na Igreja, a paz na própria alma, a paz de Deus, que se consumará quando vier a nós o seu reino.

Maria, Regina pacis, Rainha da Paz, porque tiveste fé e acreditaste que o anúncio do anjo se cumpriria, ajuda-nos a crescer na fé, a ser firmes na esperança, a aprofundar o Amor. Porque é isso que quer hoje de nós o teu Filho, ao mostrar-nos o seu Sacratíssimo Coração.

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