Cristo Rei
*Homilia proferida a 22 de novembro de 1970, solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo
Acaba o ano litúrgico e, no santo sacrifício do altar, renovamos ao Pai o oferecimento da Vítima, Cristo, Rei de santidade e de graça, Rei de justiça, de amor e de paz, como leremos daqui a pouco no prefácio. Todos sentis uma alegria imensa na alma ao considerar a santa humanidade de Nosso Senhor: um Rei com um coração de carne como o nosso, que é o autor do Universo e de cada uma das criaturas e que não Se impõe dominando, mas mendigando um pouco de amor, mostrando-nos, em silêncio, as suas mãos chagadas.
Porque será, então, que tantos O ignoram? Porque se ouve ainda esse protesto cruel: «Nolumus hunc regnare super nos», não queremos que Ele seja nosso rei? Neste mundo, há milhões de homens que se opõem dessa maneira a Jesus Cristo, ou melhor, a uma sombra de Jesus Cristo, porque a Ele não O conhecem, nem viram a beleza do seu rosto, nem sabem da maravilha da sua doutrina.
Diante deste triste espetáculo, sinto-me movido a desagravar o Senhor. Ao ouvir o clamor que não cessa e que, mais que de brados, é feito de obras pouco nobres, sinto a necessidade de gritar bem alto: «Oportet illum regnare»!, convém que Ele reine.
Oposição a Cristo
Há muitos que não suportam que Cristo reine, e opõem-se a Ele de mil maneiras: na conceção geral do mundo e da convivência humana, nos costumes, na ciência e na arte. Até na própria vida da Igreja! Escreve Santo Agostinho: «Não falo dos malvados que blasfemam de Cristo; com efeito, são raros os que d’Ele blasfemam com a língua, mas muitos os que o fazem com o seu comportamento.»
Alguns até se sentem incomodados com a expressão «Cristo Rei», por uma superficial questão de palavras, como se o reinado de Cristo pudesse confundir-se com fórmulas políticas, ou porque a confissão da realeza do Senhor os obrigaria a reconhecerem uma lei – e não toleram a lei, nem sequer a do grato preceito da caridade, porque não querem aproximar-se do amor de Deus; são os que apenas ambicionam servir o seu próprio egoísmo.
O Senhor levou-me a repetir, desde há muito tempo, um grito silencioso: Serviam!, servirei. Que Ele aumente em nós essa ânsia de entrega, de fidelidade ao seu chamamento divino – com naturalidade, sem aparato, sem estridência – no meio da rua. Dêmos-Lhe graças do fundo do coração. Dirijamos-Lhe uma oração de súbditos que são filhos, e a língua e o paladar encher-se-nos-ão de leite e mel, saber-nos-á a favo de mel tratar do Reino de Deus, que é um reino de liberdade, da liberdade que Ele conquistou para nós.
Cristo, Senhor do mundo
Gostaria de considerar convosco que esse Cristo, que – terna criança – vimos nascer em Belém, é o Senhor do mundo, já que por Ele foram criados todos os seres no Céu e na Terra; e Ele reconciliou todas as coisas com o Pai, restabelecendo a paz entre o Céu e a Terra por meio do sangue que derramou na cruz. Hoje, Cristo reina, sentado à direita do Pai; os dois anjos de vestes brancas declararam aos discípulos que, atónitos, contemplavam as nuvens depois da Ascensão do Senhor: «Homens da Galileia, porque estais assim a olhar para o céu? Esse Jesus que vos foi arrebatado para o Céu virá da mesma maneira, como agora O vistes partir para o Céu.»
É por Ele que «reinam os reis», com a diferença de que os reis, as autoridades humanas, passam e o Reino de Cristo permanecerá por toda a eternidade8, pois o seu reino é um reino eterno e o seu domínio «vai de geração em geração».
O Reino de Cristo não é um modo de dizer, nem uma imagem de retórica. Cristo vive, também como homem, com aquele mesmo corpo que assumiu na Encarnação, que ressuscitou depois da cruz e que subsiste, glorificado, na Pessoa do Verbo, juntamente com a sua alma humana. Cristo, Deus e Homem verdadeiro, vive e reina, e é o Senhor do mundo; é só por Ele que tudo o que vive se mantém na vida.
Mas então porque não aparece em toda a sua glória? Porque o seu reino «não é deste mundo», ainda que esteja no mundo. Replicou Jesus a Pilatos: «Eu sou Rei! Para isto nasci, para isto vim ao mundo: para dar testemunho da verdade. Todo aquele que vive da verdade escuta a minha voz.». Aqueles que esperavam do Messias um poder temporal visível enganaram-se, porque «o Reino de Deus não é uma questão de comer e beber, mas de justiça, paz e alegria no Espírito Santo».
Verdade e justiça, paz e júbilo no Espírito Santo: é isso o Reino de Cristo. A ação divina que salva os homens culminará com o fim da história, quando o Senhor, que está sentado no mais alto do Paraíso, vier julgar definitivamente os homens.
Quando inicia a sua pregação na Terra, Cristo não apresenta um programa político, mas diz: «Convertei-vos, porque está próximo o Reino do Céu»; mais adiante, encarrega os seus discípulos de anunciarem esta boa nova e ensina-os a pedir, na oração, o advento do Reino. O Reino do Céu e a sua justiça, uma vida santa: eis aquilo que temos de procurar em primeiro lugar, a única
coisa verdadeiramente necessária.
A salvação pregada por Nosso Senhor Jesus Cristo é um convite dirigido a todos: «O Reino do Céu é comparável a um rei que preparou um banquete nupcial para o seu filho e mandou os servos chamar os convidados para as bodas». Por isso, o Senhor revela que «o Reino de Deus está entre vós».
Ninguém está excluído da salvação, se aderir livremente às exigências amorosas de Cristo: nascer de novo, fazer-se criança, em simplicidade de espírito; afastar o coração de tudo aquilo que afasta de Deus. Jesus não Se contenta com palavras, quer factos; quer um esforço, denodado, porque só os que lutam serão merecedores da herança eterna.
A perfeição do Reino – o juízo definitivo de salvação ou de condenação – não ocorrerá neste mundo. Aqui, o Reino é como uma semente, como o crescimento do grão de mostarda; o seu fim será como a rede que apanha toda a espécie de peixes, de onde – depois de trazida para a areia – serão extraídos para destinos diferentes os que praticaram a justiça e os que fizeram a iniquidade. Mas, enquanto aqui vivermos, o Reino assemelha-se à levedura que
uma mulher tomou e misturou com três medidas de farinha, até que toda a massa ficou fermentada.
Quem compreende o Reino que Cristo propõe reconhece que vale a pena apostar tudo para o conseguir: ele é a pérola que o mercador adquire à custa de vender tudo o que possui, é o tesouro encontrado no campo. O Reino do Céu é uma conquista difícil e ninguém tem a certeza de o alcançar, embora o clamor humilde do homem arrependido consiga que as suas portas se abram de par em par. Um dos ladrões que foram crucificados com Jesus suplica-Lhe: «“Jesus, lembra-te de mim, quando estiveres no teu reino.” Ele respondeu-
-lhe: “Em verdade te digo: hoje estarás comigo no Paraíso.”»
O reino da alma
Como és grande, Senhor nosso Deus! És Tu que dás sentido sobrenatural e eficácia divina à nossa vida. É por tua causa que, por amor ao teu Filho, podemos repetir com todas as forças do nosso ser, com a alma e com o corpo: Oportet illum regnare!, enquanto ressoa o eco da nossa debilidade, porque sabes que somos criaturas – e que criaturas! – feitas de barro não apenas nos pés, também no coração e na cabeça. Ao divino*, vibraremos exclusivamente por Ti.
Cristo deve reinar, em primeiro lugar, na nossa alma. Mas que Lhe responderíamos se Ele nos perguntasse: como Me deixas reinar em ti? Eu responder-Lhe-ia que, para Ele reinar em mim, preciso da sua graça abundante, pois só assim o mais impercetível pulsar do meu coração, a menor respiração, o olhar menos intenso, a palavra mais corrente, a sensação mais elementar se traduzirão num hossana ao meu Cristo Rei.
Se pretendemos que Cristo reine, temos de ser coerentes, começando por Lhe entregar o nosso coração. Se não o fizéssemos, falar do Reino de Cristo seria palavreado sem substância cristã, expressão exterior de uma fé inexistente, utilização fraudulenta do nome de Deus para compromissos humanos.
Se a condição para que Jesus reinasse na minha alma, na tua alma, fosse contar previamente em nós com um lugar perfeito, teríamos razões para desesperar. Mas «não temas, filha de Sião, olha o teu Rei que chega sentado na cria de uma jumenta». Vedes? Jesus contenta-Se com um pobre animal por trono. No vosso
caso, não sei, mas a mim não me humilha reconhecer-me como um jumento aos olhos do Senhor: sou como um burriquinho diante de Ti, mas estarei sempre a teu lado e Tu me conduziste pela mão, Tu me levas pela arreata.
Pensai nas características de um jumento, agora que já há tão poucos. Não falo de um burro velho e obstinado, rancoroso, que se vinga com um coice traiçoeiro, mas de um jumentito jovem, de orelhas tesas como antenas, austero na comida, duro no trabalho, de trote decidido e alegre. Há centenas de animais mais belos, mais hábeis e mais cruéis. Mas Cristo preferiu este para Se apresentar como rei diante do povo que O aclamava, porque Jesus não sabe o
que fazer com a astúcia calculista, a crueldade dos corações frios, a beleza vistosa, mas oca. Nosso Senhor ama a alegria de um coração moço, o passo simples, a voz sem falsete, os olhos limpos, o ouvido atento às suas palavras de afeto. E é assim que reina na alma.
*«A lo divino», no original, é uma expressão tipicamente castelhana utilizada
especialmente na poesia do chamado Século de Ouro espanhol para dar um
significado religioso e de amor sobrenatural a versos originalmente profanos.
Reinar servindo
Se deixarmos que Cristo reine na nossa alma, não seremos dominadores, mas servidores de todos os homens. Serviço. Como gosto desta palavra! Servir o meu Rei e, por Ele, todos os que foram redimidos com o seu sangue. Se nós, cristãos, soubéssemos servir! Vamos confiar ao Senhor a nossa decisão de aprender a servir, porque só assim poderemos conhecer e amar Cristo, mas também dá-lo a conhecer e conseguir que outros O amem.
Como O mostraremos às almas? Com o exemplo: sendo suas testemunhas com a nossa voluntária servidão a Jesus Cristo em todas as nossas atividades, porque Ele é o Senhor de todas as realidades da nossa vida, a única e a última razão da nossa existência. Depois de termos dado esse testemunho do exemplo, seremos capazes de instruir com a palavra, com a doutrina. Foi assim que Cristo procedeu: «cœpit facere et docere», primeiro ensinou com obras, e só depois o fez com a sua pregação divina.
Para servir os outros por Cristo, temos de ser muito humanos. Se a nossa vida for desumana, Deus nada edificará nela, porque, habitualmente, não constrói sobre a desordem, sobre o egoísmo, sobre a prepotência. Temos de ser compreensivos com todos, temos de conviver com todos, temos de desculpar a todos, temos de perdoar a todos. Não diremos que o injusto é justo, que a ofensa a Deus não é uma ofensa a Deus, que o mau é bom. Todavia, perante o mal, não responderemos com outro mal, mas com a doutrina clara e com boas
ações; afogando o mal em abundância de bem. Deste modo, Cristo reinará na nossa alma e na alma dos que nos rodeiam.
Há quem tente construir a paz no mundo sem ter amor de Deus no coração, sem servir todas as criaturas por amor a Deus. Nessas condições, não é possível realizar uma missão de paz. A paz de Cristo é a paz do Reino de Cristo; e o Reino de Nosso Senhor há de estar alicerçado no desejo de santidade, na disposição humilde para receber a graça, numa esforçada ação de justiça, num divino excesso de amor.
Cristo no cume das atividades humanas
Isto é realizável, não é um sonho inútil. Se nós, homens, tomássemos a decisão de albergar o amor de Deus no nosso coração! Cristo Nosso Senhor foi crucificado e, do alto da cruz, redimiu o mundo, restabelecendo a paz entre Deus e os homens. Jesus recorda- nos a todos: «Et ego, si exaltatus fuero a terra, omnia traham ad meipsum», se Me puserdes no cume de todas as atividades da Terra, cumprindo o dever de cada momento, sendo minhas testemunhas naquilo que parece grande e naquilo que parece pequeno, «omnia traham ad meipsum», tudo atrairei a Mim: o meu reino entre vós será uma realidade!
Cristo Nosso Senhor continua empenhado nesta sementeira de salvação dos homens e de toda a criação, deste nosso mundo, que é bom, porque saiu bom das mãos de Deus. Foi a ofensa de Adão, o pecado do orgulho humano, que quebrou a harmonia divina da criação.
Quando, porém, chegou a plenitude dos tempos, Deus Pai enviou o seu Filho Unigénito, que encarnou em Maria sempre virgem por obra do Espírito Santo, para restabelecer a paz; para que, redimido o homem do pecado, «adoptionem filiorum reciperemus», fôssemos constituídos filhos de Deus, capazes de participar na intimidade divina, e fosse concedido a este homem novo, a esta nova estirpe dos filhos de Deus, libertar todo o Universo da desordem, restaurando todas as coisas em Cristo, que as reconciliou com Deus.
A isto fomos chamados, nós, cristãos; esta é a nossa tarefa apostólica e a ânsia que nos deve queimar a alma: conseguir que o Reino de Cristo seja uma realidade, que não haja mais ódios nem mais crueldades, que difundamos pelo mundo o bálsamo forte e pacífico do amor. Peçamos hoje ao nosso Rei que nos faça colaborar humilde e fervorosamente no divino propósito de unir o que está partido, de salvar o que está perdido, de ordenar o que o homem desordenou, de levar ao seu fim aquilo que se desencaminha, de reconstruir a concórdia de toda a criação.
Abraçar a fé cristã é comprometer-se a prosseguir a missão de Jesus entre as criaturas. Temos de ser, cada um de nós, alter Christus, ipse Christus, outro Cristo, o próprio Cristo. Só assim poderemos levar a cabo esse empreendimento grande, imenso, interminável: santificar, a partir de dentro, todas as estruturas temporais, levando-lhes o fermento da redenção.
Eu nunca falo de política. Não concebo a missão dos cristãos neste mundo como uma corrente político-religiosa – seria uma loucura –, nem mesmo com o bom propósito de infundir o espírito de Cristo em todas as atividades dos homens. O que é preciso meter em Deus é o coração de cada um, seja quem for. Procuremos falar a cada cristão, de forma que, onde quer que esteja – em circunstâncias que não dependem apenas da sua posição na Igreja ou na vida civil, mas do resultado das situações históricas, sempre mutáveis –, saiba dar
testemunho, com o exemplo e com a palavra, da fé que professa.
O cristão vive no mundo com pleno direito, por ser homem. Se aceitar que Cristo habite e reine no seu coração, a eficácia salvífica do Senhor estará fortemente presente em todo o seu trabalho humano. É indiferente que essa ocupação seja, como se costuma dizer, elevada ou modesta, porque uma elevação humana pode ser uma vileza aos olhos de Deus, e aquilo a que chamamos modesto poderá ser uma elevação cristã de santidade e de serviço.
A liberdade pessoal
Quando trabalha, cumprindo a sua obrigação, o cristão não deve contornar nem iludir as exigências próprias da natureza. Se a expressão «abençoar as atividades humanas» significasse anular ou escamotear a dinâmica própria destas atividades, negar-me-ia a usar essas palavras. Pessoalmente, nunca me convenci de que as atividades correntes dos homens precisassem de ostentar, como letreiro postiço, um qualificativo confessional, porque me parece – embora respeite a opinião contrária – que se corre o risco de usar o santo nome da nossa fé em vão, e também porque, em certas ocasiões, a etiqueta «católico» foi usada para justificar atitudes e comportamentos humanamente desonrosos.
Se o mundo e tudo o que nele há – menos o pecado – é bom, porque é obra de Deus Nosso Senhor, o cristão, lutando continuamente por evitar as ofensas a Deus, que é uma luta positiva de amor, há de dedicar-se a tudo aquilo que é terreno lado a lado com os outros cidadãos, e tem a obrigação de defender todos os bens derivados da dignidade da pessoa.
E há um bem que deverá sempre promover de modo especial: a liberdade pessoal. Só quem defende a liberdade individual dos outros, com a correspondente responsabilidade pessoal, poderá defender com honradez humana e cristã a sua. Repito e repetirei sem cessar que o Senhor nos presenteou com uma grande dádiva sobrenatural, a graça divina, e outra dádiva maravilhosa, esta humana, a liberdade pessoal, que exige de nós – a fim de não se corromper, transformando-se em libertinagem – integridade e empenho eficaz em proceder dentro da lei divina, porque «onde está o Espírito do
Senhor, aí está a liberdade».
O Reino de Cristo é um reino de liberdade, onde não há outros servos além daqueles que livremente se deixaram prender por amor a Deus. Bendita escravidão de amor, que nos torna livres! Sem liberdade, não podemos corresponder à graça; sem liberdade, não podemos entregar-nos livremente ao Senhor pela razão mais sobrenatural: porque nos dá na gana.
Alguns de vós que me escutais conheceis-me há muitos anos; e podeis testemunhar que toda a minha vida preguei a liberdade pessoal, com pessoal responsabilidade. Procurei-a e continuo a procurá-la por toda a Terra, como Diógenes procurava um homem; e amo-a cada dia mais, amo-a sobre todas as coisas terrenas: é um tesouro que nunca apreciaremos suficientemente.
Quando falo de liberdade pessoal, não pretendo referir-me a outros problemas, talvez muito legítimos, que não competem ao meu ofício de sacerdote. Sei que não me compete tratar de matérias seculares e transitórias, que pertencem à esfera temporal e civil, matérias que o Senhor deixou à livre e serena controvérsia dos homens. Sei também que os lábios do sacerdote, evitando a todo o transe parcialidades humanas, hão de abrir-se apenas para conduzir as almas a Deus, à sua doutrina espiritual salvadora, aos sacramentos que Jesus Cristo instituiu, à vida interior que nos aproxima do Senhor, porque nos sabemos seus filhos e, portanto, irmãos de todos os homens sem exceção.
Celebramos hoje a festa de Cristo Rei. E não me afasto do meu ofício de sacerdote quando digo que quem entende o Reino de Cristo como um programa político não compreendeu devidamente a finalidade sobrenatural da fé e está a um passo de sobrecarregar as consciências com pesos que não são os de Jesus, porque o seu jugo é suave e o seu fardo é leve. Amemos seriamente todos os homens, amemos Cristo acima de tudo; e não teremos outro remédio senão amar a legítima liberdade dos outros, numa pacífica e justa convivência.
Serenos, filhos de Deus
Talvez me digais: Mas são poucos os que querem ouvir isto e menos ainda os que querem pô-lo em prática. Bem sei que a liberdade é uma planta forte e sã, que se dá mal entre pedras e espinhos, ou nos caminhos calcados pelas gentes. Isto já nos tinha sido anunciado, mesmo antes de Cristo vir à Terra.
Recordai o salmo segundo: «Porque se amotinam as nações e os povos fazem planos insensatos? Revoltam-se os reis da Terra e os príncipes conspiram juntos contra o Senhor e contra o seu ungido.» Vedes? Não há nada de novo. Os homens opunham-se a Cristo antes de Ele nascer; opuseram-se a Ele enquanto percorria pacificamente os caminhos da Palestina; perseguiram-no, depois e agora, atacando os membros do seu Corpo Místico e real. Porquê tanto ódio,
porquê este encarniçamento contra a cândida simplicidade, porquê este universal esmagamento da liberdade de cada consciência?
«Quebremos as algemas e atiremos para longe de nós o seu jugo»: quebram o jugo suave, lançam fora a sua carga, maravilhosa carga de santidade e de justiça, de graça, de amor e de paz; enfurecem-se perante o amor, riem-se da bondade inerme de um Deus que renuncia ao uso das suas legiões de anjos para Se defender. Se o Senhor fizesse concessões, se sacrificasse uns quantos
inocentes para satisfazer uma maioria de culpados, ainda poderiam tentar algum entendimento com Ele. Mas a lógica de Deus não é essa. O nosso Pai é verdadeiramente pai, e está disposto a perdoar a milhares de fautores do mal, contanto que haja ao menos dez justos. Os que se movem pelo ódio não podem entender esta misericórdia, e afincam-se na sua aparente impunidade terrena, alimentando-se da injustiça.
«Aquele que habita nos Céus sorri; o Senhor escarnece deles. Depois, atemoriza-os com a sua ira e com a sua cólera confunde-os.» Que legítima é a ira de Deus, que justo é o seu furor, e que grande é também a sua clemência!
«“Fui Eu que consagrei o meu rei sobre o meu monte santo de Sião!” Vou anunciar o decreto do Senhor. Ele disse-Me: “Tu és meu filho, Eu hoje Te gerei”» A misericórdia de Deus Pai deu-nos o seu Filho como rei. Quando ameaça, enternece-Se; anuncia a sua ira e entrega-nos o seu amor. «Tu és meu filho», diz a Cristo e diz-nos a ti e a mim, se tomarmos a decisão de ser alter Christus,
ipse Christus.
As palavras não conseguem seguir o coração, que se emociona diante da bondade de Deus: «Tu és meu filho.» Não um estranho, não um servo tratado com benevolência, não um amigo, que já seria muito. Filho! Dá-nos via livre para que vivamos com Ele uma piedade de filhos e, atrever-me-ia a afirmar, também a desvergonha de filhos de um Pai que é incapaz de lhes negar o que
quer que seja.
Há muita gente empenhada em portar-se injustamente? Sim, mas o Senhor insiste: «Pede-Me e Eu te darei povos como herança e os confins da Terra por domínio. Hás de governá-los com cetro de ferro e destruí-los como um vaso de barro.» São promessas fortes e são de Deus; não podemos dissimulá-las. Não é em vão que Cristo é o Redentor do mundo, e que reina, soberano, à direita do Pai. É o terrível anúncio do que espera cada um de nós quando a vida passar – porque passa –, e todos quando a história acabar, se o coração se endurecer no mal e na desesperança.
Mas Deus, que pode vencer, prefere sempre convencer: «E agora, prestai atenção, ó reis! Deixai-vos instruir, juízes da Terra! Servi o Senhor com temor, prestai-Lhe homenagem com tremor, para que não Se irrite e não pereçais no caminho, pois a sua ira irrompe num instante.» Cristo é o Senhor, o Rei. «E nós estamos aqui para vos anunciar a boa nova de que a promessa feita a nossos pais, Deus a cumpriu em nosso benefício, para nós, seus filhos, ressuscitando
Jesus, como está escrito no salmo segundo: “Tu és meu filho, Eu hoje Te gerei”. […] Ficai sabendo, irmãos, que por seu intermédio é que vos é anunciada a remissão dos pecados. A justificação completa que não pudestes obter pela Lei de Moisés, obtê-la-á por meio dele todo aquele que crê. Tende, pois, cautela, para que vos não aconteça o que se diz nos profetas: “Olhai, vós, os desdenhosos, admirai-vos e desaparecei! Porque Eu vou fazer uma obra em vossos dias, obra em que não acreditaríeis se alguém vo-la contasse.”»
É a obra da salvação, o reinado de Cristo nas almas, a manifestação da misericórdia de Deus. «Felizes os que nele confiam!» Nós, cristãos, temos direito a enaltecer a realeza de Cristo, porque, ainda que a injustiça abunde, ainda que muitos não desejem este reinado de amor, a obra da salvação eterna vai sendo tecida nesta mesma história humana que é o cenário do mal.
Os anjos de Deus
«Ego cogito cogitationes pacis, et non afflictionis», Eu tenho pensamentos de paz e não de tristeza, diz o Senhor. Sejamos homens de paz, homens de justiça, fazedores do bem, e o Senhor não será para nós Juiz, mas amigo, irmão, Amor.
Que, neste caminhar – alegre! – pela Terra, os anjos de Deus nos acompanhem. Escreve São Gregório Magno: «Antes do nascimento do nosso Redentor, tínhamos perdido a amizade dos anjos; a culpa original e os nossos pecados quotidianos tinham-nos afastado da sua pureza luminosa. [...] Mas, desde o momento em que reconhecemos o nosso Rei, os anjos reconheceram-nos como
concidadãos. E, como o Rei dos Céus quis assumir a nossa carne terrena, os anjos já não se afastam da nossa miséria, pois não se atrevem a considerar inferior à sua esta natureza que adoram, vendo-a exaltada acima deles na pessoa do Rei do Céu; e já não têm inconveniente em considerar o homem como um companheiro.»
Maria, a Mãe santa do nosso Rei, a rainha do nosso coração, cuida de nós como só ela sabe fazer. Mãe compassiva, trono da graça, pedimos-te que saibamos compor na nossa vida e na vida dos que nos rodeiam, verso a verso, o poema simples da caridade, «quasi fluvium pacis», como um rio de paz. Porque tu és mar de inesgotável misericórdia: «Todos os rios correm para o mar, e o
mar não se enche.»
Documento impresso de https://escriva.org/pt-pt/es-cristo-que-pasa/cristo-rei/ (19/05/2026)