Na oficina de José

* Homilia proferida a 19 de março de 1963, solenidade de São José, Esposo da Virgem Santa Maria

A Igreja no seu todo reconhece em São José o seu protetor e padroeiro, e tem falado dele ao longo dos séculos, sublinhando diversos aspetos da sua vida, sempre fiel à missão que Deus lhe confiou. Por isso, gosto de o invocar, desde há muitos anos, com o afetuoso título de «nosso Pai e Senhor».

São José é realmente um pai e senhor que protege e acompanha no seu caminhar terreno aqueles que o veneram, como protegeu e acompanhou Jesus enquanto ia crescendo e Se ia tornando um homem. E, quando se ganha intimidade com o Santo Patriarca, descobre-se que ele é também mestre da vida interior, porque nos ensina a conhecermos Jesus, a convivermos com Ele, a sabermo-nos parte da família de Deus. São José dá-nos estas lições sendo, como foi, um homem comum, um pai de família, um trabalhador que ganhava a vida com o esforço das suas mãos. E este facto também tem para nós um significado que é motivo de reflexão e de alegria.

Hoje, ao celebrar a sua festa, desejo evocar a sua figura, recordando o que sobre ele nos diz o Evangelho, para poder assim descobrir melhor aquilo que Deus nos transmite através da vida simples do esposo de Santa Maria.

A figura de São José no Evangelho

Tanto São Mateus como São Lucas nos dizem que São José era descendente de uma estirpe ilustre, a estirpe de David e Salomão, reis de Israel. Historicamente, os pormenores dessa ascendência são algo confusos: não sabemos qual das duas genealogias enunciadas pelos evangelistas corresponde a Maria – Mãe de Jesus segundo a carne – e qual corresponde a São José, que era seu pai segundo a lei judaica. Nem sabemos se a cidade natal de José era Belém, onde foi recensear-se, ou Nazaré, onde vivia e trabalhava.

Sabemos, no entanto, que não era uma pessoa rica: era um trabalhador, como milhões de homens de todo o mundo, e exercia o fatigante e humilde ofício que Deus tinha escolhido para Si ao tomar a nossa carne e decidir viver trinta anos como um de nós. 

A Sagrada Escritura diz que José era artesão, e vários Padres acrescentam que foi carpinteiro. São Justino, ao falar da vida de trabalho de Jesus, afirma que fazia arados e jugos; talvez com base nestas palavras, Santo Isidoro de Sevilha concluiu que José era ferreiro. Seja como for, era um operário que trabalhava ao serviço dos seus concidadãos, que tinha uma ocupação manual, fruto de anos de esforço e de suor.

As narrações evangélicas revelam a grande personalidade humana de São José: em nenhum momento nos aparece como um homem acanhado ou assustado perante a vida; pelo contrário, sabe enfrentar os problemas, ultrapassar as situações difíceis, assumir com responsabilidade e iniciativa as tarefas que lhe são encomendadas.

Não estou de acordo com a forma clássica de representar São José como um homem de idade avançada, apesar da intenção positiva de salientar a virgindade perpétua de Maria. Por mim, imagino-o jovem, forte, talvez com mais alguns anos que Nossa Senhora, mas na pujança da idade e das forças humanas.

Para viver a virtude da castidade, não é preciso esperar pela velhice ou pela falta de vigor. A pureza nasce do amor, e a robustez e alegria da juventude não são obstáculos ao amor limpo. Jovens eram o coração e o corpo de São José quando contraiu matrimónio com Maria, quando conheceu o mistério da sua maternidade divina, quando viveu junto dela respeitando a integridade que Deus queria legar ao mundo como mais um sinal da sua vinda ao meio das criaturas. Quem não for capaz de compreender um amor assim conhece muito mal o verdadeiro amor e desconhece por completo o sentido cristão da castidade.

Como dizíamos, José era um artesão da Galileia, um homem como tantos outros. E que pode esperar da vida um habitante de uma aldeia perdida como Nazaré? Apenas trabalho, todos os dias, sempre com o mesmo esforço; e, no fim da jornada, uma casa pobre e pequena, para recuperar forças e recomeçar a faina no dia seguinte.

Mas o nome de José significa, em hebraico, «Deus acrescentará»: Deus acrescenta dimensões insuspeitadas à vida santa daqueles que cumprem a sua vontade; acrescenta o importante, o que dá valor a tudo, o divino. À vida humilde e santa de São José, Deus acrescentou – se me é permitido falar assim – a vida da Virgem Maria e a de Jesus Nosso Senhor. Deus nunca permite que Lhe ganhem em generosidade. José podia fazer suas aquelas palavras de Santa Maria, sua esposa: «quia fecit mihi magna qui potens est», o Todo-Poderoso fez em mim maravilhas, «quia respexit humilitatem», porque pôs os olhos na humildade da sua serva.

José era efetivamente um homem comum, em quem Deus confiou para fazer coisas grandes. Soube viver todos e cada um dos acontecimentos que compuseram a sua vida exatamente como o Senhor queria; por isso, a Sagrada Escritura louva José afirmando que era justo, um termo que, em hebraico, significa piedoso, servidor irrepreensível de Deus, cumpridor da vontade divina; outras vezes significa bom e caritativo com o próximo. Numa palavra, o justo é o que ama a Deus e demonstra esse amor cumprindo os seus mandamentos e orientando toda a sua vida para o serviço dos homens seus irmãos.

A fé, o amor e a esperança de José

A justiça não consiste na mera submissão a uma regra; a retidão deve nascer de dentro, deve ser profunda, vital, porque o justo vive da fé6. Viver da fé: estas palavras, que foram depois tema de frequente meditação para o apóstolo Paulo, veem-se realizadas de forma superabundante em São José. O seu cumprimento da vontade de Deus não é rotineiro nem formalista, é espontâneo e profundo. Para ele, a lei que todos os judeus praticantes viviam não era um simples código nem uma fria compilação de preceitos, era uma expressão da vontade de Deus vivo. Foi por isso que soube reconhecer a voz do Senhor quando esta se lhe manifestou, inesperada e surpreendente.

É que a história do Santo Patriarca foi uma vida simples, mas não foi uma vida fácil. Depois de passar momentos de angústia, fica a saber que o Filho de Maria foi concebido por obra do Espírito Santo; e esse Menino, Filho de Deus e descendente de David segundo a carne, nascerá numa gruta. Os anjos celebram o seu nascimento e personalidades de terras longínquas vêm adorá-lo; mas o rei da Judeia deseja a sua morte e é necessário fugir. O Filho de Deus é,
aparentemente, uma criança indefesa, que viverá no Egito.

Ao narrar estas cenas no seu Evangelho, São Mateus ressalta constantemente a fidelidade de José, que cumpre os mandatos de Deus sem vacilar, ainda que, por vezes, o sentido desses mandatos possa parecer-lhe obscuro ou se lhe oculte a relação dos mesmos com o resto dos planos divinos.

Os Padres da Igreja e os autores espirituais fazem ressaltar múltiplas vezes a firmeza da fé de São José. Referindo-se às palavras do anjo, que lhe ordena que fuja de Herodes e se refugie no Egito, comenta o Crisóstomo: «Ao ouvir isto, São José não se escandalizou nem disse: “Isto é um enigma; ainda há pouco me davas a conhecer que Ele salvaria o seu povo e agora não é sequer capaz de Se salvar a Si próprio e temos de fugir, de empreender uma viagem e fazer uma grande deslocação; isto é contrário à tua promessa”. José não discorre deste modo, porque é um varão fiel. Também não pergunta pelo tempo de regresso, apesar de o anjo o não ter determinado, posto que lhe tinha dito: “Fica lá – no Egito – até que eu te diga”. Nem por isso levanta dificuldades, mas obedece e crê, e suporta alegremente todas as provas»

A fé de José não vacila, a sua obediência é sempre rigorosa e rápida. Para compreendermos melhor esta lição do Santo Patriarca, consideremos que a sua fé é ativa e a sua docilidade não é a obediência de quem se deixa arrastar pelos acontecimentos. Porque não há coisa que mais se oponha ao conformismo ou à falta de atividade e de energia interiores do que a fé cristã.
José abandonou-se sem reservas nas mãos de Deus, mas nunca fugiu a refletir sobre os acontecimentos, o que lhe permitiu alcançar do Senhor a inteligência das obras de Deus, que é a verdadeira sabedoria. Deste modo, aprendeu a pouco e pouco que os desígnios sobrenaturais têm uma coerência divina, que às vezes está em contradição com os planos humanos.

Nas diversas circunstâncias da sua vida, o patriarca não renuncia a pensar, nem se alheia da sua responsabilidade. Pelo contrário: põe toda a sua experiência humana ao serviço da fé. Quando regressa do Egito, «tendo ouvido dizer que Arquelau reinava na Judeia, em lugar de Herodes, seu pai, teve medo de ir para lá»: aprendeu a operar dentro do plano divino e, como confirmação de
que Deus queria efetivamente o que ele pressentia, recebe a indicação de se retirar para a Galileia.

A fé de São José foi assim: plena, confiada, íntegra, expressa numa entrega eficaz à vontade de Deus, numa obediência inteligente. E, com a fé, a caridade, o amor. A sua fé funde-se com o Amor: com o amor a Deus, que estava a cumprir as promessas feitas a Abraão, a Jacob, a Moisés; com o seu afeto de esposo por Maria e com o seu afeto de pai por Jesus. Fé e amor na esperança da grande missão a que Deus, servindo-Se também dele – um carpinteiro da
Galileia –, estava a dar início no mundo: a redenção dos homens.

Fé, amor, esperança: estes são os eixos da vida de São José, e de toda a vida cristã. A entrega de São José aparece-nos tecida pelo entrecruzar de um amor fiel, de uma fé amorosa e de uma esperança confiada. A sua festa é, por isso, uma boa altura para renovarmos a nossa entrega à vocação de cristãos que o Senhor concedeu a cada um de nós.

Quando se deseja sinceramente viver de fé, de amor e de esperança, a renovação da entrega não consiste em retomar uma coisa que tinha entrado em desuso. Quando há fé, amor e esperança, renovar-se é – apesar dos erros pessoais, das quedas, das debilidades – manter-se nas mãos de Deus, confirmando um caminho de fidelidade. Renovar a entrega é, repito, renovar a fidelidade àquilo que o Senhor quer de nós: um amor com obras.

O amor tem, naturalmente, manifestações próprias. Às vezes, fala-se do amor como se fosse uma procura de satisfação pessoal ou um mero recurso para completar egoisticamente a própria personalidade. E não é assim; o amor verdadeiro consiste em sair de si mesmo, em entregar-se. O amor é fonte de alegria, mas é uma alegria que tem as raízes em forma de cruz. Enquanto estivermos neste mundo e não tivermos chegado à plenitude da vida futura,
não pode haver amor verdadeiro sem a experiência do sacrifício, da dor. Uma dor que se saboreia, que pode ser amada, que é uma fonte de satisfação profunda, mas que é uma dor real, porque implica vencer o nosso egoísmo e tomar o Amor como regra de todas e cada uma das nossas ações.

As obras do amor são sempre grandes, ainda que se trate de coisas aparentemente pequenas. Deus aproximou-Se dos homens, pobres criaturas, e disse-nos que nos ama: «deliciæ meæ esse cum filiis hominum», as minhas delícias são estar com os filhos dos homens. O Senhor revela-nos que tudo tem importância: tanto as ações que, com olhos humanos, consideramos extraordinárias, como as outras que, pelo contrário, classificamos como ações de pouca categoria. Nada se perde. Nenhum homem é desprezado por Deus.
Todos, seguindo cada um a sua vocação – na sua família, na sua profissão ou no seu ofício, no cumprimento das suas obrigações de estado, dos seus deveres de cidadão, no exercício dos seus direitos –, somos chamados a participar no Reino do Céu.

É isto o que nos ensina a vida simples, normal e vulgar de José, feita de anos de trabalho sempre igual, de dias humanamente monótonos, que se sucedem uns aos outros. Tenho pensado nisto muitas vezes ao meditar sobre a figura de São José, e esta é uma das razões que me faz sentir por ele uma devoção especial.

Quando, no seu discurso de encerramento da primeira sessão do Concílio Vaticano II, no passado dia 8 de dezembro, o Santo Padre João XXIII anunciou que o nome de São José passaria a ser mencionado no cânone da Missa, uma altíssima personalidade eclesiástica telefonou-me imediatamente para me dizer: «Rallegramenti! Parabéns! Ao ouvir a notícia pensei logo em si, na alegria que teria tido.» E assim era; porque o valor divino da vida de São José, o valor de uma vida simples de trabalho perante Deus, em total cumprimento da vontade divina, fora proclamado na assembleia conciliar, que representa toda a Igreja, reunida no Espírito Santo.

Santificar o trabalho, santificar-se no trabalho, santificar com o trabalho

Ao descrever o espírito da associação a que dediquei a minha vida, o Opus Dei, tenho dito que se apoia, como em seu gonzo, no trabalho quotidiano, na profissão que cada um exerce no meio do mundo. A vocação divina dá-nos uma missão, convida-nos a participar na incumbência única da Igreja, para sermos testemunhas de Cristo ante os nossos iguais, os homens, e levarmos todas as coisas a Deus.

A vocação acende uma luz que nos permite reconhecer o sentido da nossa existência; consiste em nos convencermos, com o resplendor da fé, da razão de ser da nossa realidade terrena. A nossa vida – a presente, a passada e a que há de vir – adquire novo relevo, uma profundidade de que não suspeitávamos. Todos os factos e acontecimentos passam a ocupar o seu verdadeiro lugar; entendemos aonde o Senhor nos quer levar e sentimo-nos como que dominados por esse encargo que nos está confiado.

Deus tira-nos das trevas da nossa ignorância, do nosso caminhar incerto por entre as incidências da história, e chama-nos com voz forte, como fez um dia com Pedro e André: «Venite post me, et faciam vos fieri piscatores hominum», vinde comigo e Eu farei de vós pescadores de homens, qualquer que seja o lugar que ocupemos no mundo.

Quem vive de fé pode ter dificuldades e lutas, dores e até amarguras, mas nunca desânimo ou angústia, porque sabe que a sua vida serve para alguma coisa, sabe para que veio a este mundo. «Ego sum lux mundi», proclamou Cristo; «qui sequitur me non ambulat in tenebris, sed habebit lumen vitæ», Eu sou a luz do mundo; quem Me segue não andará nas trevas, mas terá a luz da vida. 

Para merecer essa luz de Deus, é preciso amar, ter a humildade de reconhecer a necessidade de sermos salvos e dizer com Pedro: «A quem iremos nós, Senhor? Tu tens palavras de vida eterna! Por isso, nós cremos e sabemos que Tu é que és o Santo de Deus.» Se realmente procedermos assim, se abrirmos o nosso coração ao chamamento de Deus, poderemos repetir com verdade que não caminhamos nas trevas, pois a luz de Deus brilha por cima das nossas
misérias e dos nossos defeitos pessoais como o Sol brilha sobre a tempestade.

A fé e a vocação de cristãos não afetam apenas uma parte da nossa existência, mas toda ela: as relações com Deus são necessariamente relações de entrega e assumem um sentido de totalidade. A atitude de um homem de fé é olhar para a vida, em todas as suas dimensões, de uma nova perspetiva: a perspetiva que Deus nos dá.

Todos vós, que hoje celebrais comigo esta festa de São José, sois homens dedicados ao trabalho em diversas profissões humanas, constituís diversas famílias, pertenceis a diferentes nações, raças e línguas. Tirastes cursos, académicos ou profissionais, exerceis a vossa profissão há vários anos, estabelecestes relações profissionais e pessoais com os vossos colegas, participastes na solução dos problemas coletivos das vossas empresas e da vossa sociedade.

Pois bem: recordo-vos uma vez mais que nada disso é alheio aos planos divinos. A vossa vocação humana é uma parte, e uma parte importante, da vossa vocação divina. É por esta razão que tendes de vos santificar, contribuindo simultaneamente para a santificação dos outros, vossos iguais, precisamente santificando o vosso trabalho e o vosso ambiente: essa profissão ou esse ofício que preenche os vossos dias, que confere uma fisionomia peculiar à vossa personalidade humana, que é a vossa maneira de estar no mundo; o vosso lar e a vossa família; e a nação onde nascestes e que amais.

O trabalho acompanha necessariamente a vida do homem neste mundo. Com ele, surgem o esforço, a fadiga, o cansaço, manifestações de dor e de luta que fazem parte da nossa existência humana atual e que são sinais da realidade do pecado e da necessidade da redenção. Mas o trabalho, em si mesmo, não é uma condenação, uma maldição ou um castigo: quem assim fala não leu bem a Sagrada Escritura.

É altura de nós, cristãos, dizermos bem alto que o trabalho é um dom de Deus, e que não faz sentido nenhum dividir os homens em categorias segundo os tipos de trabalho, considerando umas tarefas mais nobres que outras. O trabalho, todo o trabalho, é um testemunho da dignidade do homem, do seu domínio sobre a criação; é um meio de desenvolvimento da personalidade;
é um vínculo de união com os outros seres, uma fonte de recursos para sustentar a família; é um meio de contribuir para o melhoramento da sociedade em que se vive e para o progresso de toda a humanidade.

Para um cristão, essas perspetivas alargam-se e ampliam-se, porque o trabalho é uma participação na obra criadora de Deus, que, ao criar o homem, o abençoou dizendo-lhe: «Crescei e multiplicai-vos, enchei e dominai a terra. Dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus e sobre todos os animais que se movem na terra»; e também porque, tendo sido assumido por Cristo, o trabalho se nos apresenta como uma realidade redimida e redentora:
não é só o âmbito em que o homem vive, é meio e caminho de santidade, realidade santificável e santificadora.

Convém não esquecer, portanto, que esta dignidade do trabalho tem como fundamento o Amor. O grande privilégio do homem é poder amar, transcendendo assim o efémero e o transitório. O homem pode amar as outras criaturas, dizer um tu e um eu cheios de sentido; e pode amar a Deus, que nos abre as portas do Céu, que faz de nós membros da sua família, que nos autoriza a conversar com Ele também de tu a Tu, cara a cara.

Por isso, o homem não deve limitar-se a fazer coisas, a construir objetos. O trabalho nasce do amor, exprime o amor, ordena-se ao amor. Não reconhecemos Deus apenas no espetáculo da natureza, mas também na experiência do nosso próprio trabalho, do nosso esforço. Assim, o trabalho é oração e ação de graças, porque nos sabemos colocados por Deus na Terra, amados por Ele, herdeiros das suas promessas. É justo, pois, que São Paulo nos diga: «Quer comais, quer bebais, quer façais outra coisa qualquer, fazei tudo
para glória de Deus.»

O trabalho profissional também é apostolado, oportunidade de entrega aos outros homens, para lhes revelar Cristo e os levar a Deus Pai, consequência da caridade que o Espírito Santo derrama nas almas. Entre as indicações que São Paulo dá aos cristãos de Éfeso sobre a forma como deve manifestar-se a mudança que neles se operou com a conversão, o chamamento ao cristianismo, encontramos esta: «Aquele que roubava deixe de roubar; antes se esforce por trabalhar com as suas próprias mãos, fazendo o bem, para que tenha que partilhar com quem passa necessidade». Os homens têm necessidade do pão da terra para se sustentarem, mas também do pão do Céu, que os ilumine e lhes dê calor ao coração; podeis e deveis concretizar esse preceito apostólico com o vosso trabalho, com as iniciativas que promoverdes a partir dessa ocupação, nas vossas conversas, no convívio com os outros.

Se trabalharmos com este espírito, a nossa vida será, com as limitações próprias da condição terrena, uma antecipação da glória do Céu, dessa comunidade com Deus e com os santos onde apenas reinarão o amor, a entrega, a fidelidade, a amizade, a alegria. No vosso trabalho profissional vulgar e quotidiano, encontrareis a matéria – real, consistente, valiosa – para realizar toda a vida cristã, para atualizar a graça que nos vem de Cristo.

Nessa ocupação profissional, feita na presença de Deus, estarão em jogo a fé, a esperança e a caridade. As ocorrências do vosso trabalho, bem como as relações e os problemas que ele acarreta, alimentarão a vossa oração; o esforço por cumprirdes os deveres habituais será uma oportunidade para viverdes essa cruz que é essencial ao cristão. A experiência da vossa debilidade e os fracassos que acompanham sempre os esforços humanos tornar-vos-ão mais realistas, mais humildes, mais compreensivos com os outros. Os êxitos e as alegrias convidar-vos-ão a dar graças e a pensar que não viveis para vós mesmos, mas para o serviço aos outros e a Deus.

Para servir, servir

Para viver assim, para santificar a profissão, é necessário, primeiro que tudo, trabalhar bem, com seriedade humana e sobrenatural. Quero recordar agora, por contraste, o que conta um dos antigos relatos dos evangelhos apócrifos: «O pai de Jesus, que era carpinteiro, fazia arados e jugos. Certa vez, uma pessoa de boa posição encomendou-lhe uma cama. Ora, um dos varões ficou mais curto que o outro e José não sabia o que havia de fazer. Então, o Menino Jesus disse ao pai: “Põe os dois paus no chão e acerta-os numa extremidade”. José assim fez. Jesus colocou-Se do outro lado, pegou no varal mais curto e esticou-o até ficar do tamanho do outro. José, seu pai, cheio de admiração perante aquele prodígio, cumulou o Menino de abraços e beijos dizendo: “Feliz de mim, porque Deus me deu este Menino.”»

José não daria graças a Deus por um motivo destes; o seu trabalho não podia ser assim. São José não é o homem das soluções fáceis e milagreiras, mas o homem da perseverança, do esforço e, quando é necessário, do engenho. O cristão sabe que Deus faz milagres; que os fez há séculos, que voltou a fazê-los e que continua a fazê-los ainda hoje, porque «non est abbreviata manus Domini», o poder de Deus não diminuiu.

Mas os milagres são uma manifestação da omnipotência salvadora de Deus, não são um expediente para sanar as consequências da inépcia ou para facilitar o vossa comodismo. O milagre que o Senhor vos pede é a perseverança na nossa vocação cristã e divina, a santificação do trabalho de cada dia: o milagre de converter a prosa do dia a dia em decassílabos, verso heroico, pelo amor com que realizais o vosso trabalho habitual. É aí que Deus vos espera, de maneira que sejais almas com sentido de responsabilidade, com zelo apostólico, com competência profissional.

Por isso, posso dar-vos um lema para o vosso trabalho: para servir, servir. Porque, para fazer uma coisa, é necessário, em primeiro lugar, saber fazê-la. Não acredito na retidão da intenção de uma pessoa que não se esforça por adquirir a competência necessária para realizar adequadamente as tarefas de que foi encarregada. Não basta querer fazer o bem; é preciso saber fazê-lo. E, se
queremos realmente, esse desejo traduzir-se-á no empenho em utilizar os meios adequados para acabar bem as coisas, com perfeição humana.

Mas esse servir humano, essa capacidade a que poderíamos chamar técnica, esse saber fazer o próprio ofício, deve incluir uma característica que foi fundamental no trabalho de São José e que devia ser fundamental para todo o cristão: o espírito de serviço, o desejo de trabalhar para contribuir para o bem dos outros homens. O trabalho de São José não foi uma atividade que visasse a autoafirmação, ainda que a dedicação de uma vida laboriosa tenha forjado nele uma personalidade madura, bem delineada. O patriarca trabalhava com a consciência de cumprir a vontade de Deus, pensando no bem dos seus, Jesus e Maria, e no bem de todos os habitantes da pequena Nazaré.

José seria um dos poucos, se não mesmo o único artesão de Nazaré; carpinteiro, possivelmente, mas, como é costume nas pequenas povoações, também capaz de fazer outras coisas: reparar um moinho que se tinha avariado, arranjar as fendas de um teto antes do inverno. José tiraria certamente muitos conterrâneos seus de apuros com um trabalho bem feito. O seu trabalho profissional era uma ocupação orientada para o serviço, para tornar agradável a vida das outras famílias da aldeia, e acompanhada de um sorriso, de uma palavra simpática, de um comentário feito como que de passagem, mas que devolve a fé e a alegria a quem está prestes a perdê-las.

Às vezes, quando se tratava de pessoas mais pobres do que ele, José aceitaria como pagamento uma coisa de pouco valor, que proporcionasse à outra pessoa a satisfação de pensar que o trabalho estava pago. Em situação normal, cobraria o que fosse razoável, nem mais nem menos; saberia exigir o que em justiça lhe era devido, já que a fidelidade a Deus não pode implicar a renúncia a direitos que, na realidade, são deveres. São José tinha de exigir o que era justo, porque tinha de, com a recompensa pelo seu trabalho, sustentar a família que Deus lhe havia confiado.

A exigência dos nossos direitos não deve ser fruto de um egoísmo individualista. Não ama a justiça quem não deseja que ela se cumpra em relação aos outros; e também não é lícito fechar-se numa religiosidade cómoda, esquecendo as necessidades dos o que é humanamente nobre. Parafraseando um conhecido texto do apóstolo São João, pode-se dizer que quem afirma que é justo com Deus, mas não é justo com os outros homens, está a mentir e a verdade não habita nele.

Como todos os cristãos que viveram esse momento, foi com emoção e alegria que recebi a decisão de celebrar a festa litúrgica de São José Operário. Esta festa, que é uma canonização do valor divino do trabalho, mostra que, na sua vida coletiva e pública, a Igreja propaga as verdades centrais do Evangelho que Deus quer que sejam especialmente meditadas na nossa época.

Já falámos muito deste tema noutras ocasiões, mas permiti-me insistir na naturalidade e na simplicidade da vida de São José, um homem que não se distinguia dos seus concidadãos nem levantava barreiras desnecessárias.

Por isso, ainda que possa ser conveniente fazê-lo em determinados momentos ou em algumas situações, de uma maneira geral não gosto de falar de operários católicos, de engenheiros católicos, de médicos católicos, etc., como se se tratasse de uma espécie dentro de um género, como se os católicos formassem um grupo separado dos outros, dando a sensação de que existe um fosso entre os cristãos e o resto da humanidade. Respeito a opinião contrária, mas parece-me que é muito mais adequado falar de operários que são católicos ou de católicos que são operários; de engenheiros que são católicos ou de católicos que são engenheiros. Porque o homem que tem fé e exerce uma profissão, seja intelectual, técnica ou manual está e sente-se unido aos outros, igual aos outros, com os mesmos direitos e obrigações, com o mesmo desejo de melhorar, com o mesmo empenho em enfrentar e encontrar soluções para os problemas comuns.

Assumindo tudo isto, o católico saberá fazer do seu quotidiano um testemunho de fé, de esperança e de caridade; testemunho simples e normal, sem necessidade de manifestações aparatosas, salientando – com a coerência da sua vida – a constante presença da Igreja no mundo, visto que todos os católicos são, eles mesmos, Igreja, pois são membros de pleno direito do único povo de Deus.

A relação de José com Jesus

Há bastante tempo que gosto de recitar uma comovedora invocação a São José, que a própria Igreja nos propõe como oração preparatória da Missa: «São José, varão feliz, que tivestes a dita de ver e ouvir o próprio Deus a quem muitos reis quiseram ver e não viram, ouvir e não ouviram; e não só ver e ouvir, mas também trazê-lo nos braços, beijá-lo, vesti-lo e guardá-lo! Rogai por nós.» Esta oração servir-nos-á para entrar no último tema que vou tocar hoje: a íntima relação de José com Jesus.

Para São José, a vida de Jesus foi uma contínua descoberta da própria vocação. Recordámos atrás os primeiros anos, cheios de circunstâncias aparentemente contrastantes: glorificação e fuga, majestade dos Magos e pobreza da gruta, canto dos anjos e silêncio dos homens. Quando chega o momento de apresentar o Menino no Templo, José, que leva uma oferenda modesta, um par de rolas, ouve Simeão e Ana proclamarem que Jesus é o Messias. «Seu pai e sua
mãe estavam admirados com o que se dizia dele», relata São Lucas. Mais tarde, o Menino fica no Templo sem que Maria e José saibam, e, quando voltam a encontrá-lo depois de O procurarem durante três dias, o mesmo evangelista narra que «ficaram assombrados».

José surpreende-se, José admira-se. Deus vai-lhe revelando os seus desígnios e ele esforça-se por compreendê-los. Como qualquer alma que queira seguir Jesus de perto, descobre rapidamente que não é possível andar com passo ronceiro, que não se pode viver da rotina. Porque Deus não Se conforma com a estabilidade de um nível alcançado, com o descanso no que já se tem. Deus exige continuamente mais, e os seus caminhos não são os nossos caminhos
humanos. São José aprendeu com Jesus, como nenhum outro homem antes ou depois dele, a estar atento para reconhecer as maravilhas de Deus, a ter a alma e o coração abertos.

Mas, se José aprendeu com Jesus a viver de um modo divino, atrever-me-ia a dizer que, em termos humanos, ensinou muitas coisas ao Filho de Deus. O título de pai adotivo com que às vezes se designa José não me agrada totalmente, porque pode levar a pensar que as relações entre José e Jesus eram frias e exteriores. É certo que a fé nos diz que ele não era pai segundo a carne, mas essa não é a única paternidade.

Diz Santo Agostinho num dos seus sermões: «O nome de pai não só é devido a José, como lhe é devido mais que a qualquer outro. Como era pai? Era pai tanto mais profundamente quanto mais casta foi a sua paternidade. Alguns pensavam que ele era pai de Nosso Senhor Jesus Cristo da mesma forma que são pais aqueles que geram segundo a carne e não recebem os filhos apenas como
fruto do seu afeto espiritual. É por isso que São Lucas diz que se supunha que era pai de Jesus. Porque diz apenas que se supunha? Porque o pensamento e o juízo humanos referem-se àquilo que costuma acontecer entre os homens. E o Senhor não nasceu do gérmen de José. Contudo, da Virgem Maria nasceu à piedade e caridade de José um filho, que era Filho de Deus.»

José amou Jesus como um pai ama o seu filho, dando-Lhe sempre o melhor que tinha. Cuidando daquele Menino como lhe tinha sido ordenado, José fez de Jesus um artesão: transmitiu-Lhe o seu ofício; por isso, os habitantes de Nazaré chamavam a Jesus, indistintamente, faber e faber filius, carpinteiro e filho do carpinteiro. Jesus trabalhou na oficina de José e junto de José. Como seria José, como teria a graça operado nele, para ser capaz de realizar a missão de educar o Filho de Deus a nível humano?

Porque Jesus devia ser parecido com José no modo de trabalhar, nos traços de carácter, na maneira de falar. No realismo de Jesus, no seu espírito de observação, no seu modo de se sentar à mesa e de partir o pão, no seu gosto por expor a doutrina de forma concreta, dando exemplos do dia a dia, reflete-se o que foram a sua infância e a sua juventude, e, portanto, a sua relação com José.

Não é possível ignorar a sublimidade deste mistério. Esse Jesus, que é homem, que fala com a pronúncia de uma região específica de Israel, que Se parece com um artesão chamado José, é o Filho de Deus. E quem pode ensinar o que quer que seja a Deus? Mas também é realmente homem e vive normalmente: primeiro como criança, depois como rapaz que ajuda José na sua oficina,
finalmente como homem maduro, na plenitude da idade: «Jesus crescia em sabedoria, em estatura e em graça, diante de Deus e dos homens.»

José foi, no aspeto humano, mestre de Jesus; conviveu com Ele diariamente, com afeto delicado, cuidou d’Ele com abnegação alegre; não será isto uma boa razão para termos este varão justo, este Santo Patriarca, no qual culmina a fé da antiga Aliança, por mestre de vida interior? A vida interior não é senão o trato assíduo e íntimo com Cristo, para nos identificarmos com Ele. E José saberá dizer-nos muitas coisas sobre Jesus. Por isso, não deixeis nunca de lhe ter devoção, «ite ad Joseph», como diz a tradição cristã com uma frase do Antigo Testamento.

Mestre da vida interior, trabalhador dedicado ao seu ofício, servo fiel de Deus em relação contínua com Jesus: assim é José. «Ite ad Joseph.» Com São José, o cristão aprende o que é ser de Deus e estar plenamente entre os homens, santificando o mundo. Convivei com José e encontrareis Jesus. Convivei com José e encontrareis Maria, que sempre encheu de paz a aprazível oficina de Nazaré.

Referências da Sagrada Escritura
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