Por Maria a Jesus

*Homilia proferida a 4 de maio de 1957

Um olhar pelo mundo, um olhar sobre o povo de Deus, neste mês de maio que agora começa, permite-nos contemplar o espetáculo da devoção mariana, que se expressa em muitos costumes, antigos ou novos, mas sempre vividos com um mesmo espírito de amor.

É uma alegria verificar que a devoção a Nossa Senhora continua viva, despertando nas almas cristãs o impulso sobrenatural que as leva a comportarem-se como «domestici Dei», como membros da família de Deus.

Nestes dias, vendo tantos cristãos expressarem o seu afeto à Virgem Santa Maria dos mais diversos modos, também vós certamente vos sentis mais dentro da Igreja, mais irmãos de todos esses vossos irmãos. É uma espécie de reunião de família, como quando os filhos adultos que a vida separou voltam a encontrar-se em redor da mãe por ocasião de uma festa. Ainda que tenham ocasionalmente discutido uns com os outros e se tenham tratado mal, naquele dia não: naquele dia sentem-se unidos, reconhecendo-se todos no afeto comum.

Maria edifica continuamente a Igreja, reúne-a, mantém-na coesa. É difícil ter autêntica devoção a Nossa Senhora sem nos sentirmos mais ligados aos outros membros do corpo místico e mais unidos à sua cabeça visível, o Papa; por isso, gosto de repetir: «Omnes cum Petro ad Iesum per Mariam!», todos com Pedro a Jesus por Maria! Reconhecendo-nos como parte da Igreja e convidados a sentirmo-nos irmãos na fé, descobrimos mais profundamente a fraternidade que nos une a toda a humanidade, porque a Igreja foi enviada por Cristo a todos os homens e a todos os povos.

Já todos experienciámos o que acabo de dizer, pois não nos têm faltado ocasiões de comprovar os efeitos sobrenaturais de uma sincera devoção à Virgem Maria. Cada um de vós poderia contar muitas coisas a esse propósito; e eu também. Vem-me agora à memória uma romaria que fiz em 1935 a uma ermida de Nossa Senhora em terra castelhana: Sonsoles.

Não foi uma romaria no sentido habitual, ruidosa e multitudinária: fomos apenas três pessoas. Respeito e estimo essas manifestações públicas de piedade, mas, pessoalmente, prefiro tentar oferecer a Maria o mesmo afeto e o mesmo entusiasmo por meio de visitas pessoais, ou em pequenos grupos, com sabor de intimidade.

Naquela romaria a Sonsoles, fiquei a conhecer a origem desta invocação da Virgem Maria – um pormenor sem grande importância, mas que é uma expressão filial das gentes daquela terra. A imagem de Nossa Senhora que se venera no local esteve escondida durante algum tempo, na época das lutas entre cristãos e muçulmanos em Espanha; alguns anos depois, foi encontrada por uns pastores, que, segundo conta a tradição, exclamaram, ao vê-la: «Que lindos olhos! São sóis*!»

*Em castelhano, «son soles».

Mãe de Cristo, Mãe dos cristãos

Desde esse ano de 1935, em numerosas e habituais visitas a santuários de Nossa Senhora, tive ocasião de refletir e meditar sobre o afeto de tantos cristãos à Mãe de Jesus; e sempre me pareceu que se tratava de uma correspondência de amor, de uma prova de gratidão filial. Porque Maria está muito unida a essa expressão máxima do amor de Deus que é a Encarnação do Verbo, que Se fez homem como nós e carregou com as nossas misérias e os nossos pecados. Maria, fiel à missão divina para a qual foi criada, entregou--se e entrega-se continuamente ao serviço dos homens, todos eles chamados a serem irmãos de seu Filho, Jesus. E a Mãe de Deus é agora, também e realmente, a Mãe dos homens.

Assim é, porque o Senhor assim quis. E o Espírito Santo dispôs que ficasse escrito, para ser transmitido a todas as gerações: «Junto à cruz de Jesus estavam, de pé, sua Mãe e a irmã da sua Mãe, Maria, a mulher de Clopas, e Maria Madalena. Então, Jesus, ao ver ali ao pé a sua Mãe e o discípulo que Ele amava, disse à Mãe: “Mulher, eis o teu filho!” Depois, disse ao discípulo: “Eis a tua Mãe!” E, desde aquela hora, o discípulo acolheu-a como sua.»

João, o discípulo amado de Jesus, recebe Maria e introdu-la em sua casa, na sua vida. Os autores espirituais viram nestas palavras do Santo Evangelho um convite dirigido a todos os cristãos para acolherem Maria na sua vida. Em certo sentido, este esclarecimento é quase supérfluo. Maria quer indubitavelmente que a invoquemos, que nos aproximemos dela com confiança, que apelemos
à sua maternidade, pedindo-lhe que mostre que é nossa Mãe. Uma mãe que não se faz rogar, e que até se adianta às nossas súplicas, pois conhece as necessidades e acorre prontamente em nossa ajuda, demonstrando com obras que se lembra constantemente dos seus filhos. Cada um de nós, evocando a sua própria vida e vendo nela tantas expressões da misericórdia de Deus, pode descobrir mil motivos para se sentir, de modo muito especial, filho de Maria.

Os textos da Sagrada Escritura que nos falam de Nossa Senhora mostram-nos precisamente que a Mãe de Jesus acompanha o seu Filho passo a passo, associando-se à sua missão redentora, alegrando-se e sofrendo com Ele, amando aqueles que Jesus ama, tratando com maternal solicitude todos os que estão a seu lado. 

Pensemos, por exemplo, no relato das bodas de Caná. Entre os muitos convidados para aquela ruidosa boda rural, com a presença de gente de várias aldeias, Maria dá pela falta de vinho. Repara nisso imediatamente, e só ela se apercebe do facto. Que familiares são as cenas da vida de Cristo! É que a grandeza de Deus convive com as coisas normais e vulgares. De facto, é próprio de uma mulher, de uma dona de casa atenta, notar um descuido, reparar nos pequenos pormenores que tornam agradável a existência humana; assim fez Maria.

Reparai também que o episódio de Caná é narrado por João, o único evangelista que recolhe este gesto de solicitude maternal. São João quer recordar que Maria esteve presente no começo da vida pública do Senhor, o que mostra que soube compreender a importância dessa presença de Nossa Senhora. Jesus sabia a quem confiava sua Mãe: a um discípulo que a tinha amado, que tinha aprendido a querer-lhe tanto como à sua própria mãe e era capaz de a entender.

Pensemos agora nos dias que se seguiram à Ascensão, na espera do Pentecostes. Os discípulos, cheios de fé pelo triunfo de Cristo ressuscitado e anelando o Espírito Santo prometido, querem sentir-se unidos, e encontramo-los «cum Maria, matre Iesu», com Maria, Mãe de Jesus. A oração dos discípulos acompanha a oração de Maria: era a oração de uma família unida.

Este dado foi-nos transmitido por São Lucas, o evangelista que narrou mais extensamente a infância de Jesus. É como se quisesse dar-nos a entender que, assim como teve um papel de primeiro plano na Encarnação do Verbo, Maria também esteve presente nas origens da Igreja, que é o corpo de Cristo.

Desde o primeiro momento da vida da Igreja, todos os cristãos que procuraram o amor de Deus – esse amor que se nos revela e se faz carne em Jesus Cristo – depararam com Nossa Senhora e experimentaram de maneiras muito diversas os seus desvelos maternais. A Virgem Santíssima pode chamar-se com verdade Mãe de todos os cristãos, como dizia Santo Agostinho com palavras claras: «Cooperou com a sua caridade para que os fiéis, membros
daquela cabeça de que é efetivamente Mãe segundo o corpo, nascessem
na Igreja.»

Não é de estranhar, pois, que um dos testemunhos mais antigos da devoção a Maria seja precisamente uma oração cheia de confiança, uma antífona composta há vários séculos, que hoje continuamos a repetir: «À vossa proteção nos acolhemos, Santa Mãe de Deus; não desprezeis as súplicas que em nossas necessidades vos dirigimos, mas livrai-nos sempre de todos os perigos, ó Virgem gloriosa e bendita.»

Intimidade com Maria

O desejo de privar com a Mãe de Deus, que também é nossa Mãe, a vontade de conviver com Ela como se convive com uma pessoa viva, surge em nós de maneira espontânea e natural. Porque a morte não triunfou sobre ela: Maria está em corpo e alma junto de Deus Pai, junto de seu Filho, junto do Espírito Santo.

Para compreendermos o papel que Maria desempenha na vida cristã, para nos sentirmos atraídos por ela, para procurarmos com afeto filial a sua companhia afável, não são precisas grandes especulações, embora o mistério da maternidade divina tenha uma riqueza de conteúdo sobre a qual nunca refletiremos o suficiente.

A fé católica soube reconhecer em Maria um sinal privilegiado do amor de Deus. Deus chama-nos, já agora, seus amigos; a sua graça opera em nós, regenera-nos do pecado, dá-nos as forças que, no meio das fraquezas próprias de quem é pó e miséria, nos tornam capazes de refletir de algum modo o rosto de Cristo. Não somos apenas náufragos que Deus prometeu salvar; essa salvação já opera em nós. A nossa relação com Deus não é a de um cego que anseia pela luz, mas geme entre as angústias da obscuridade; é a de um filho que se sabe amado por seu Pai.

É dessa cordialidade, dessa confiança, dessa segurança que Maria nos fala; e é por isso que o seu nome chega ao nosso coração de modo tão direto. A relação de cada um de nós com a nossa própria mãe poderá servir-nos de modelo e norma para o nosso trato com a Senhora do Doce Nome, Maria. Havemos de amar a Deus com o mesmo coração com que amamos os nossos pais, os nossos
irmãos, os outros membros da nossa família, os nossos amigos e amigas, porque não temos outro. E é com esse mesmo coração que havemos de nos relacionar com Maria.

Como se comporta habitualmente um filho ou uma filha com a sua mãe? De mil maneiras, mas sempre com afeto e confiança; com um afeto que assumirá, em cada caso, formas específicas, nascidas da própria vida, que nunca são contactos frios, mas costumes íntimos de família, pormenores diários que o filho tem necessidade de ter com a mãe e de que a mãe sente falta se o filho se esquece: um beijo ou uma carícia ao sair ou ao voltar a casa, um pequeno
presente, umas palavras expressivas.

Na relação com a nossa Mãe do Céu, também há certas normas de piedade filial que exprimem o nosso comportamento habitual com ela. Assim, muitos cristãos tornam seu o antigo costume do escapulário; outros habituam-se a cumprimentar (nem é preciso fazê-lo com palavras, basta o pensamento) as imagens de Maria que há em todos os lares cristãos ou que adornam as ruas de tantas cidades; ou dão vida a essa oração maravilhosa que é o terço, em que a alma não se cansa de dizer sempre as mesmas coisas, como não se cansam os
apaixonados, e em que se aprende a reviver os momentos centrais da vida do Senhor; ou dedicam um dia da semana – precisamente este em que estamos reunidos: o sábado – à Senhora, oferecendo-lhe uma pequena lembrança e meditando especialmente na sua maternidade.

Há muitas outras devoções marianas, que não é necessário recordar agora; o cristão não tem de as integrar todas na sua vida – crescer em vida sobrenatural não é ir amontoando devoções –, mas também devo afirmar que quem não vive alguma delas, quem não exprime de algum modo o seu amor a Maria não possui a plenitude da fé cristã.

Considerar que as devoções à Virgem Santíssima estão ultrapassadas é ter perdido o profundo sentido cristão que elas encerram, é ter esquecido a fonte de onde nascem: a fé na vontade salvífica de Deus Pai; o amor a Deus Filho, que Se fez homem e nasceu de uma mulher; a confiança em Deus Espírito Santo, que nos santifica com a sua graça. Maria foi-nos dada por Deus e não temos o direito de a rejeitar; pelo contrário, havemos de recorrer a ela com amor e com alegria de filhos.

Tornarmo-nos crianças no amor de Deus

Consideremos atentamente este ponto, porque pode ajudar-nos a compreender coisas muito importantes; com efeito, o mistério de Maria faz-nos ver que, para nos aproximarmos de Deus, temos de nos tornar pequenos. «Em verdade vos digo: se não voltardes a ser como as criancinhas, não podereis entrar no Reino do Céu», exclamou o Senhor, dirigindo-Se aos seus discípulos.

Tornarmo-nos crianças: renunciar à soberba e à autossuficiência; reconhecer que, sozinhos, nada podemos, porque temos necessidade da graça e do poder de Deus nosso Pai para aprender a caminhar e para perseverar no caminho. Para sermos pequenos, temos de nos abandonar como as crianças se abandonam, de crer como as crianças creem, de pedir como as crianças pedem.

E aprendemos tudo isto na intimidade de Maria. A devoção a Nossa Senhora não é uma devoção branda nem pouco rija; é consolo e júbilo, que enche a alma precisamente porque pressupõe um exercício profundo e íntegro da fé, que nos faz sair de nós e depositar a nossa esperança no Senhor. Canta um salmo: «O Senhor é meu pastor: nada me falta. Em verdes prados me faz descansar e conduz-me às águas refrescantes. Reconforta a minha alma e guia-me por caminhos retos, por amor do seu nome. Ainda que atravesse vales
tenebrosos, de nenhum mal terei medo porque Tu estás comigo.»

Porque Maria é Mãe, ter-lhe devoção ensina-nos a ser filhos: a amar deveras, sem medida; a ser simples, sem as complicações que nascem do egoísmo de pensar só em nós; a estar alegres, sabendo que nada pode destruir a nossa esperança. O princípio do caminho que leva à loucura do amor de Deus é um confiado amor a Maria Santíssima, escrevi há muitos anos, no prólogo de uns comentários ao Santo Rosário; e, desde então, confirmei múltiplas vezes a verdade destas palavras. Não vou agora fazer muitos raciocínios a glosar esta ideia; convido-vos a que façais essa experiência, conversando amorosamente com Maria, abrindo-lhe o vosso coração, confiando-lhe as vossas alegrias e as vossas penas, pedindo-lhe que vos ajude a conhecer e a seguir Jesus.

Se procurardes Maria, encontrareis Jesus. E aprendereis a entender um pouco o que há nesse coração de Deus, que Se aniquila, que renuncia a expressar o seu poder e a sua majestade, para Se apresentar sob a forma de escravo. Falando humanamente, poderíamos dizer que Deus Se excede, pois não Se limita ao que seria essencial e imprescindível para nos salvar, mas vai mais além. A única norma ou medida que nos permite compreender de algum modo essa maneira divina de agir é ver que não tem medida, que nasce da loucura de amor que O levou a tomar a nossa carne e a carregar com o peso dos nossos pecados.

Como é possível tomarmos consciência disto, percebermos que Deus nos ama e não ficarmos, também nós, loucos de amor? Temos de permitir que estas verdades da nossa fé vão penetrando na nossa alma, até transformarem por completo a nossa vida. Deus ama-nos! O Omnipotente, o Todo-Poderoso, o que fez os Céus e a Terra!

Deus interessa-Se pelas mais pequenas coisas das suas criaturas – as vossas e as minhas – e chama-nos, um a um, pelo nosso nome próprio. Esta certeza que a fé nos proporciona leva-nos a olhar o que nos cerca a uma luz nova, de maneira que, permanecendo tudo igual, percebemos que tudo é diferente, porque tudo é expressão do amor de Deus.

Deste modo, a nossa vida transforma-se numa oração contínua, num bom humor e numa paz que não acabam, num ato de ação de graças desfiado ao longo das horas. «A minha alma glorifica o Senhor e o meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador. Porque pôs os olhos na humildade da sua serva. De hoje em diante, me chamarão bem-aventurada todas as gerações. O Todo-Poderoso fez em mim maravilhas. Santo é o seu nome», cantou a Virgem
Maria. A nossa oração pode acompanhar e imitar a sua: tal como ela, sentiremos o desejo de cantar, de proclamar as maravilhas de Deus, para que a humanidade e todos os seres participem da nossa felicidade.

Maria faz-nos sentir irmãos uns dos outros

Não é possível tratar filialmente a Virgem Maria e pensar apenas em si próprio e nos próprios problemas. Não é possível privar com Maria e ter problemas pessoais e egoístas. Maria leva a Jesus, e Jesus é «primogenitus in multis fratribus», primogénito de muitos irmãos. Por isso, conhecer Jesus é compreender que a nossa vida não pode ter outro sentido senão entregarmo-nos ao serviço dos demais. Um cristão não se pode ficar pelos seus problemas pessoais, pois tem de viver voltado para a Igreja universal, pensando na salvação de todas as almas.

Deste modo, nem aquelas facetas que poderiam ser consideradas mais íntimas e privadas – como a preocupação com o próprio progresso interior – são, na realidade, pessoais, visto que a santificação e o apostolado formam uma unidade. Por isso, havemos de nos esforçar na nossa vida interior e no desenvolvimento das virtudes cristãs pensando no bem de toda a Igreja, dado que não poderíamos fazer o bem e dar a conhecer Cristo sem um esforço
sincero para praticar os ensinamentos do Evangelho.

Impregnadas deste espírito, as nossas orações, ainda que comecem por temas e propósitos aparentemente pessoais, acabam sempre por desembocar no serviço aos outros. E, se caminharmos pela mão da Virgem Santíssima, ela far-nos-á sentir irmãos de todos os homens, porque todos somos filhos desse Deus de quem ela é Filha, Esposa e Mãe.

Os problemas dos outros devem ser problemas nossos. A fraternidade cristã deve estar bem enraizada na nossa alma, de modo que nenhuma pessoa nos seja indiferente. Maria, Mãe de Jesus, que O criou, O educou e O acompanhou durante a sua vida terrena, e está junto dele nos Céus, ajudar-nos-á a reconhecer Jesus que passa ao nosso lado e Se nos torna presente nas necessidades dos homens nossos irmãos.

Naquela romaria de que vos falava ao princípio, no caminho até à ermida de Sonsoles, passámos junto a uns campos de trigo. A messe brilhava ao sol, ondulada pelo vento, e veio-me à memória um texto do Evangelho, umas palavras que o Senhor dirigiu aos seus discípulos: «Não dizeis vós: “Mais quatro meses e vem a ceifa”? Pois Eu digo-vos: levantai os olhos e vede os campos que estão doirados para a ceifa.» Pensei uma vez mais que o Senhor quer meter no nosso coração a mesma ânsia, o mesmo fogo que dominava o seu; e, saindo da estrada, apanhei umas espigas, para me servirem de lembrança.

Temos de abrir os olhos, temos de saber olhar em volta e reconhecer os chamamentos que Deus nos dirige através das pessoas que nos rodeiam. Não podemos viver de costas para a multidão, encerrados no nosso pequeno mundo. Jesus não viveu assim. Pelo contrário, os Evangelhos falam-nos muitas vezes da sua misericórdia, da sua capacidade de participar na dor e nas necessidades dos outros: compadece-Se da viúva de Naim, chora pela morte de
Lázaro, preocupa-Se com as multidões que O seguem e não têm que comer; compadece-Se também, e sobretudo, dos pecadores, dos que caminham pelo mundo sem conhecerem a luz e a verdade: «Ao desembarcar, Jesus viu uma grande multidão e teve compaixão deles, porque eram como ovelhas sem pastor. Começou, então, a ensinar-lhes muitas coisas.»

Quando somos verdadeiramente filhos de Maria, compreendemos esta atitude do Senhor, o nosso coração expande-se e temos entranhas de misericórdia; então, os sofrimentos, as misérias, os erros, a solidão, a angústia e a dor dos outros homens, nossos irmãos, também nos doem, e sentimo-nos urgidos a ajudá-los nas suas necessidades e a falar-lhes de Deus, para aprenderem a tratá-lo como filhos e poderem conhecer as delicadezas maternais de Maria.

Ser apóstolo de apóstolos

Encher o mundo de luz, ser sal e luz20: foi assim que o Senhor definiu a missão dos seus discípulos. Levar a boa nova do amor de Deus até aos confins do mundo: é a isso que todos os cristãos devem dedicar, de um modo ou de outro, a sua vida.

Direi mais. Temos de fomentar o sonho de não o fazer sozinhos, de incentivar outros a contribuírem para essa missão divina de levar a alegria e a paz ao coração dos homens. Escreve São Gregório Magno: «À medida que ides progredindo, levai os outros convosco; desejai ter companheiros no caminho para o Senhor.»

Mas tende presente que, «cum dormirent homines», enquanto os homens dormiam, veio o semeador do joio, diz o Senhor numa parábola. Nós, homens, estamos sujeitos a deixar-nos levar pelo sono do egoísmo e da superficialidade, dispersando o coração em mil experiências passageiras, evitando aprofundar o sentido das realidades terrenas. Triste coisa é esse sono, que sufoca a dignidade
do homem e o torna escravo da tristeza!

Há uma situação que nos deve doer sobremaneira: a daqueles cristãos que podiam dar mais e não o fazem; que podiam entregar-se totalmente, vivendo todas as consequências da sua vocação de filhos de Deus, mas se recusam a ser generosos. E deve doer-nos, porque a graça da fé não nos foi dada para ficar escondida, mas para brilhar diante dos homens; e porque está em jogo a felicidade temporal e eterna dos que assim procedem. A vida cristã é uma
maravilha divina, com promessas de imediata satisfação e serenidade, mas na condição de sabermos apreciar o dom de Deus, sendo generosos sem medida.

Temos, pois, de acordar aqueles que tiverem caído nesse mau sono, recordando-lhes que a vida não é uma brincadeira, mas um tesouro divino, que é preciso fazer frutificar; e temos, por outro lado, de ensinar o caminho aos que têm boa vontade e bons desejos, mas não sabem como pô-los em prática. Cristo urge-nos. Cada um de vós há de ser não só apóstolo, mas apóstolo de apóstolos, arrastando outros, incentivando-os a que também eles deem a conhecer Jesus Cristo.

Talvez algum de vós esteja a perguntar a si próprio como poderá transmitir este conhecimento às pessoas. E eu respondo-vos: com naturalidade, com simplicidade, vivendo como viveis, no meio do mundo, dedicados ao vosso trabalho profissional e ao cuidado da vossa família, participando nos ideais nobres dos homens, respeitando a legítima liberdade de cada um.

Há quase trinta anos, Deus pôs no meu coração o forte desejo de transmitir a pessoas de qualquer estado, condição ou ofício a seguinte doutrina: a vida quotidiana pode ser santa e cheia de Deus; o Senhor chama-nos a santificar as atividades do dia a dia, porque também nelas pode haver perfeição cristã. Consideremo-lo uma vez mais, contemplando a vida de Maria.

Não esqueçamos que a quase totalidade do tempo que Nossa Senhora passou na Terra decorreu de forma muito semelhante ao de milhões de mulheres que se dedicam a cuidar da sua família, a educar os filhos, a tratar da casa. Maria santifica as mais pequenas coisas, aquilo que muitos consideram, erroneamente, desprovido de valor: o trabalho de cada dia, os pormenores de atenção às pessoas queridas, as conversas e as visitas por razões de parentesco ou de amizade. Bendita normalidade, que pode estar cheia de tanto amor de Deus!

Na verdade, é isso que explica a vida de Maria: o amor. Um amor levado até ao extremo, até ao esquecimento completo de si mesma, satisfeita por estar onde Deus a quer, cumprindo a vontade divina com esmero. É isso que faz que o mais pequeno dos seus gestos nunca seja banal, mas cheio de conteúdo. Maria, nossa Mãe, é para nós exemplo e caminho. Havemos de procurar ser como ela nas circunstâncias concretas em que Deus quis que vivêssemos.

Procedendo assim, daremos testemunho de uma vida simples e normal, com as limitações e os defeitos próprios da nossa condição humana, mas coerente. E, vendo-nos iguais a eles em tudo, os outros serão levados a perguntar-nos: como se explica essa vossa alegria? De onde tirais força para vencer o egoísmo e o comodismo? Quem vos ensinou a viver a compreensão, a convivência limpa e a entrega, o serviço aos outros?

Terá chegado o momento de lhes revelardes o divino segredo da existência cristã, falando-lhes de Deus, de Cristo, do Espírito Santo, de Maria; o momento de procurardes transmitir-lhes, através das vossas pobres palavras, a loucura do amor de Deus que a graça derramou no nosso coração.

São João conserva no seu Evangelho uma frase maravilhosa de Nossa Senhora, num dos episódios que já considerámos: o das bodas de Caná. Narra-nos o evangelista que, dirigindo-se aos servos, Maria lhes disse: «Fazei o que Ele vos disser.» É disso que se trata: de levar as almas a colocarem-se diante de Jesus e a perguntarem-Lhe: «Domine, quid me vis facere?», Senhor, que queres que eu faça?

O apostolado cristão – e refiro-me agora, em concreto, ao apostolado de um cristão vulgar, do homem ou da mulher que vive como outro qualquer entre os seus iguais – é uma grande catequese, na qual, através de uma amizade leal e autêntica, se desperta nos outros a fome de Deus, ajudando-os a descobrir novos horizontes – com naturalidade, com simplicidade, como já disse, com o exemplo de uma fé bem vivida, com uma palavra afável, mas cheia da força da verdade divina.

Sede audazes. Contais com a ajuda de Maria, Regina apostolorum. E Nossa Senhora, sem deixar de ser Mãe, sabe confrontar os filhos com as suas responsabilidades específicas. A quem dela se aproxima e contempla a sua vida, Maria faz sempre o imenso favor de o conduzir à cruz, de o colocar diante do exemplo do Filho de Deus; e, nesse confronto em que se decide a vida cristã, intercede para que o nosso comportamento culmine numa reconciliação do irmão mais novo – tu e eu – com o Filho primogénito do Pai.

Muitas conversões e muitas decisões de entrega ao serviço de Deus foram precedidas de um encontro com Maria. Nossa Senhora fomentou os desejos de procura, ativou maternalmente as inquietações da alma, fez aspirar a uma mudança, a uma vida nova. E assim, o «fazei o que Ele vos disser» resultou numa realidade de entrega amorosa, numa vocação cristã que, desde então, ilumina toda a nossa vida.

Este tempo de conversa diante do Senhor, durante o qual meditámos sobre a devoção e o afeto à sua e nossa Mãe, poderá, pois, servir para reavivar a nossa fé. Está a começar o mês de maio. O Senhor quer que não desaproveitemos esta ocasião de crescer no seu amor através da intimidade com sua Mãe. Que todos os dias saibamos ter com ela pormenores filiais – pequenas coisas, atenções delicadas –, que se irão tornando realidades grandes de santidade
pessoal e de apostolado, isto é, de empenho constante em contribuir para a salvação que Cristo veio trazer ao mundo.

Sancta Maria, spes nostra, ancilla Domini, sedes sapientiæ, ora pro nobis! Santa Maria, esperança nossa, escrava do Senhor, sede de Sabedoria, rogai por nós!

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