Cristo presente nos cristãos

* Homilia proferida a 26 de março de 1967, Domingo de Páscoa da Ressurreição do Senhor

Cristo vive. Esta é a grande verdade que enche de conteúdo a nossa fé. Jesus, que morreu na cruz, ressuscitou, triunfando da morte, do poder das trevas, da dor e da angústia. «Não temais»: foi com esta invocação que um anjo saudou as mulheres que iam ao sepulcro. «Não vos assusteis! Buscais a Jesus de Nazaré, o crucificado? Ressuscitou; não está aqui1.» «Hæc est dies quam fecit Dominus, exultemus et lætemur in ea», este é o dia que o Senhor fez, alegremo-nos.

O tempo pascal é tempo de alegria, de uma alegria que não se limita a esta época do ano litúrgico, mas mora permanentemente no coração dos cristãos. Porque Cristo vive. Cristo não é uma figura que passou, que existiu em certo tempo e Se foi embora, deixando-nos uma recordação e um exemplo maravilhosos.

Não. Cristo vive. Jesus é o Emanuel: Deus connosco. A sua Ressurreição revela-nos que Deus não abandona os seus: «Pode uma mulher esquecer-se do seu bebé, não ter carinho pelo fruto das suas entranhas? Ainda que ela se esquecesse dele, Eu nunca te esqueceria», havia-nos prometido. E cumpriu a promessa. Deus continua a ter as suas delícias entre os filhos dos homens.

Cristo vive na sua Igreja. «Digo-vos a verdade: é melhor para vós que Eu vá, pois, se Eu não for, o Paráclito não virá a vós; mas, se Eu for, Eu vo-lo enviarei.» Era este o desígnio de Deus: morrendo na cruz, Jesus dar-nos-ia o Espírito de verdade e de vida. Cristo permanece na sua Igreja: nos sacramentos, na liturgia, na pregação, em toda a sua atividade.

Cristo continua presente entre nós de modo especial nessa entrega diária que é a Sagrada Eucaristia. Por isso, a Missa é o centro e a raiz da vida cristã. O Cristo total, cabeça e corpo, está presente em todas as missas: «Per ipsum, et cum ipso, et in ipso.» Porque Cristo é o caminho, o mediador: nele, encontramos tudo; fora dele, a nossa vida torna-se vazia. Em Jesus Cristo, e instruídos por Ele, «audemus dicere: Pater noster», atrevemo-nos a dizer: Pai nosso; atrevemo-nos a chamar Pai ao Senhor dos Céus e da Terra.

A presença de Jesus vivo na Sagrada Hóstia é a garantia, a raiz e a consumação da sua presença no mundo.

Cristo vive no cristão. A fé diz-nos que o homem em estado de graça está endeusado. Não somos anjos, mas homens e mulheres, seres de carne e osso, com coração e com paixões, com tristezas e com alegrias. Mas a divinização opera em todo o homem como que uma antecipação da ressurreição gloriosa. «Cristo ressuscitou dos mortos, como primícias dos que morreram. Porque, assim como por um homem veio a morte, também por um homem vem a ressurreição dos mortos. E, como todos morrem em Adão, assim em Cristo todos voltarão a receber a vida.»

A vida de Cristo é vida nossa, segundo o que Ele prometeu aos seus apóstolos na Última Ceia: «Se alguém Me tem amor, há de guardar a minha palavra; e o meu Pai o amará, e Nós viremos a ele e nele faremos morada.» Por isso, o cristão deve viver segundo a vida de Cristo, tornando seus os sentimentos de Cristo, de modo
que possa exclamar com São Paulo: «Non vivo ego, vivit vero in me Christus», não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim.

Jesus Cristo, fundamento da vida cristã

Quis recordar, embora brevemente, alguns aspetos do viver atual de Cristo – «Iesus Christus heri et hodie; ipse et in sæcula» –, porque é aí que reside o fundamento de toda a vida cristã. Se olharmos em volta e considerarmos o decurso da história da humanidade, observaremos progressos, avanços: a ciência deu ao homem uma consciência maior do seu poder; a técnica domina a natureza melhor do que em épocas passadas, e permite à humanidade sonhar com um nível mais elevado de cultura, de vida material, de unidade.

Talvez alguns se sintam motivados a matizar este quadro, recordando que os homens padecem atualmente injustiças e guerras maiores ainda do que as passadas. Não lhes falta razão. Mas, independentemente dessas considerações, eu prefiro recordar que, no domínio religioso, o homem continua a ser homem e Deus continua a ser Deus. Neste campo, já atingimos o cume do progresso:
é Cristo, alfa e ómega, princípio e fim.

No terreno espiritual, não há novas épocas em perspetiva. Já está tudo dado em Cristo, que morreu e ressuscitou, e vive e permanece para sempre. Mas temos de nos unir a Ele pela fé, deixando que a sua vida se manifeste em nós, de maneira que se possa dizer que cada cristão é não já alter Christus, mas ipse Christus, o próprio Cristo!

«Instaurare omnia in Christo», dar forma a tudo segundo o espírito de Jesus, é o lema que São Paulo dá aos cristãos de Éfeso. Colocar Cristo no âmago de todas as coisas: «Si exaltatus fuero a terra, omnia traham ad meipsum», Eu, quando for erguido da terra, atrairei tudo a Mim. Com a sua Encarnação, com a sua vida de trabalho em Nazaré, com a sua pregação e os seus milagres por terras da Judeia e da Galileia, com a sua morte na cruz, com a sua Ressurreição, Cristo é o centro da criação, o Primogénito e Senhor de toda a criatura.

A nossa missão de cristãos é proclamar essa realeza de Cristo; anunciá-la com a nossa palavra e as nossas obras. O Senhor quer os seus em todas as encruzilhadas da Terra: chama alguns ao deserto, para viverem distanciados das preocupações da sociedade humana, a fim de recordarem aos outros homens, com o seu testemunho, que Deus existe; confia a outros o ministério sacerdotal; mas quer a grande maioria no meio do mundo, nas ocupações terrenas. Estes
cristãos devem, pois, levar Cristo a todos os ambientes onde se desenvolve o trabalho humano: às fábricas, aos laboratórios, aos campos, às oficinas dos artesãos, às ruas das grandes cidades e às veredas de montanha.

A este propósito, gosto de recordar a cena da conversa de Cristo com os discípulos de Emaús. Jesus caminha ao lado daqueles dois homens, que perderam quase por completo a esperança, de modo que a existência começa a parecer-lhes desprovida de sentido; compreende a sua dor, penetra no seu coração, comunica-lhes algo da vida que nele habita.

Quando, ao chegar à aldeia, Jesus faz menção de seguir caminho, os dois discípulos retêm-no e quase O obrigam a ficar com eles; depois, reconhecem-no ao partir o pão: o Senhor esteve connosco, exclamam. «Disseram, então, um ao outro: “Não nos ardia o coração, quando Ele nos falava pelo caminho e nos explicava as Escrituras?”» Cada cristão deve tornar Cristo presente entre os
homens, vivendo de tal maneira que aqueles com quem contacta sintam o «bonus odor Christi», o bom aroma de Cristo; comportando-se de forma que, através das ações do discípulo, se possa descobrir o rosto do Mestre.

O cristão sabe que está incorporado em Cristo pelo batismo; habilitado a lutar por Cristo pela confirmação; chamado a operar no mundo pela participação na função real, profética e sacerdotal de Cristo; feito uma só coisa com Cristo pela Eucaristia, sacramento da unidade e do amor. Por isso, tal como Cristo, há de viver voltado para os outros homens, olhando com amor para todos e cada um dos que o rodeiam, e para toda a humanidade.

A fé leva-nos a reconhecer Cristo como Deus, a vê-lo como nosso salvador, a identificarmo-nos com Ele, agindo como Ele agiu. Depois de arrancar o apóstolo Tomé às suas dúvidas, mostrando-lhe as suas chagas, o Ressuscitado exclama: «Felizes os que creem sem terem visto.» Comenta São Gregório Magno: «Aqui, fala-se de nós de modo particular, porque possuímos espiritualmente Aquele a quem não vimos corporalmente. Fala-se de nós, mas com a condição de que as nossas ações sejam conformes com a nossa fé. Só crê verdadeiramente aquele que põe em prática aquilo em que crê. Por isso, a propósito daqueles que, da fé, apenas possuem as palavras, diz São Paulo que professam conhecer Deus, mas O negam com as obras.»

Não é possível separar, em Cristo, o seu ser de Deus Homem e a sua função de redentor. O Verbo fez-Se carne e veio ao mundo «ut omnes homines salvi fiant», para salvar todos os homens. Com todas as nossas misérias e limitações pessoais, nós somos outros Cristos, o próprio Cristo, também chamados a servir todos os homens. 

É necessário que aquele mandamento que continuará a ser novo ao longo dos séculos ressoe uma e outra vez. Escreve São João: «Caríssimos, não vos escrevo um mandamento novo, mas um mandamento antigo, que recebestes desde o princípio; este mandamento antigo é a palavra que ouvistes. Não obstante, digo-vos que o mandamento de que vos falo é um mandamento novo, que é verdadeiro em si mesmo e em vós, pois as trevas passaram e já
brilha a luz verdadeira. Quem diz que está na luz, mas aborrece o seu irmão, ainda está nas trevas. Quem ama o seu irmão permanece na luz e nele não há escândalo.»

Nosso Senhor veio trazer a paz, a boa nova, a vida, a todos os homens. Não só aos ricos, nem só aos pobres; não só aos sábios, nem só aos simples. A todos. Aos irmãos, pois somos todos irmãos, filhos de um mesmo Pai, Deus. Por isso, só há uma raça: a raça dos filhos de Deus; só há uma cor: a cor dos filhos de Deus; só há uma língua: a língua que fala ao coração e à inteligência, sem ruído de palavras, mas dando-nos a conhecer Deus e fazendo que nos amemos uns aos outros.

Contemplação da vida de Cristo

É esse amor de Cristo que cada um de nós se deve esforçar por realizar na sua vida. Mas, para sermos ipse Christus, temos de nos ver nele. Não basta termos uma ideia geral do espírito de Jesus, temos de aprender com Ele pormenores e atitudes. E, sobretudo, temos de contemplar a sua passagem pela Terra, as marcas que deixou, para delas tirar força, luz, serenidade, paz.

Quando amamos alguém, queremos conhecer os mais pequenos pormenores da sua existência, do seu carácter, para nos identificarmos com essa pessoa. Por isso, havemos de meditar na história de Cristo, desde o seu nascimento num presépio até à sua morte e à sua Ressurreição. Nos primeiros anos do meu labor sacerdotal, costumava oferecer exemplares do Evangelho ou livros onde se narrasse a vida de Jesus; porque temos de a conhecer bem, de a ter, completa, na mente e no coração, de modo que a qualquer momento, sem necessidade de nenhum livro, fechando os olhos, possamos contemplá-la como um filme; de forma que, nas diversas situações da nossa vida, as palavras e os atos do Senhor nos venham à memória.

Assim, daremos por nós metidos na sua vida. Porque não se trata apenas de pensar em Jesus e de imaginar aquelas cenas; havemos de meter-nos nelas por completo, de ser atores. Seguir Cristo de tão perto como Santa Maria, sua Mãe; como os primeiros doze, como as santas mulheres, como aquelas multidões que se apertavam em seu redor. Se assim fizermos, se não levantarmos obstáculos, as palavras de Cristo entrarão até ao fundo da nossa alma e transformar-nos-ão. Porque «a palavra de Deus é viva, eficaz e mais afiada
que uma espada de dois gumes; penetra até à divisão da alma e do corpo, das articulações e das medulas, e discerne os sentimentos e intenções do coração».

Se queremos levar os outros homens ao Senhor, temos de recorrer ao Evangelho para contemplar o amor de Cristo. Podemos fixar-nos nas cenas culminantes da Paixão, porque, como Ele mesmo disse, «ninguém tem mais amor do que quem dá a vida pelos seus amigos»; mas também podemos considerar o resto da sua vida, o seu trato habitual com quantos se cruzavam com Ele.

Para fazer chegar aos homens a sua doutrina de salvação e lhes revelar o amor de Deus, Cristo, perfeito Deus e perfeito Homem, procedeu de um modo humano e divino. Deus condescende com o homem, assume a nossa natureza sem reservas, exceto no pecado. 

É para mim uma alegria profunda considerar que Cristo quis ser plenamente homem, com carne como a nossa. Emociona-me contemplar a maravilha de um Deus que ama com coração de homem.

Entre tantas cenas narradas pelos evangelistas, detenhamo-nos em algumas, a começar pelos relatos da relação de Jesus com os doze. O apóstolo João, que transfere para o seu Evangelho a experiência de toda uma vida, narra a sua primeira conversa com o enlevo daquilo que nunca mais se esquece: «“Rabi – que quer dizer Mestre –, onde moras?” Ele respondeu-lhes: “Vinde e vereis.” Foram, pois, e viram onde morava e ficaram com Ele nesse dia.»

Diálogo divino e humano, que transformou a vida de João e de André, de Pedro, de Tiago e de tantos outros, preparando-lhes o coração para escutarem a imperiosa palavra que Jesus lhes dirigiu junto ao mar da Galileia: «Caminhando ao longo do mar da Galileia, Jesus viu dois irmãos: Simão, chamado Pedro, e seu irmão André, que lançavam as redes ao mar, pois eram pescadores. Disse-lhes: “Vinde comigo e Eu farei de vós pescadores de homens”. E eles deixaram as redes imediatamente e seguiram-no.»

Nos três anos seguintes, Jesus convive com os seus discípulos, conhece-os, responde às suas perguntas, resolve as suas dúvidas. Sim, Ele é o Rabi, o Mestre que fala com autoridade, o Messias enviado por Deus; mas, ao mesmo tempo, é acessível, próximo. Um dia, Jesus retira-Se para orar; os discípulos estavam por ali, talvez olhando para Ele e tentando adivinhar as suas palavras. Quando
Jesus regressa, um deles roga-Lhe: «Domine, doce nos orare, sicut docuit et Ioannes discipulos suos», Senhor, ensina-nos a orar, como João ensinou aos seus discípulos. «Disse-lhes Ele: “Quando orardes, dizei: Pai, santificado seja o teu nome.”»

É também com autoridade de Deus e com afeto humano que o Senhor recebe os apóstolos quando, pasmados com os frutos da sua primeira missão, Lhe narram as primícias do seu apostolado: «Vinde, retiremo-nos para um lugar deserto e descansai um pouco.»

Encontramos uma cena muito similar quase no final da vida de Jesus na Terra, pouco antes da Ascensão: «Ao romper do dia, Jesus apresentou-Se na margem, mas os discípulos não sabiam que era Ele. Jesus disse-lhes então: “Rapazes, tendes alguma coisa para comer?” Eles responderam-Lhe: “Não.” Disse-lhes Ele: “Lançai a rede para o lado direito do barco e haveis de encontrar.” Lançaram-na e, devido à grande quantidade de peixes, já não tinham forças para a arrastar. Então, o discípulo que Jesus amava disse a Pedro: “É o Senhor!”»

E Deus está à espera deles na praia: «Ao saltarem para terra, viram umas brasas preparadas com peixe em cima e pão. Jesus disse-lhes: “Trazei dos peixes que apanhastes agora.” Simão Pedro subiu à barca e puxou a rede para terra, cheia de peixes grandes: cento e cinquenta e três. E, apesar de serem tantos, a rede não se rompeu. Disse-lhes Jesus: “Vinde almoçar.” E nenhum dos discípulos se atrevia a perguntar-Lhe: “Quem és Tu?”, porque bem sabiam
que era o Senhor. Jesus aproximou-Se, tomou o pão e deu-lho, fazendo
o mesmo com o peixe.»

Jesus não tem estes gestos de delicadeza e afeto apenas com um pequeno grupo de discípulos, mas com todos: com as santas mulheres, com representantes do sinédrio como Nicodemos e com publicanos como Zaqueu, com doentes e com sãos, com doutores da Lei e com pagãos, com pessoas singulares e com multidões inteiras. 

Os Evangelhos narram que Jesus não tinha onde reclinar a cabeça, mas também nos contam que tinha amigos queridos e de confiança, desejosos de O receber em sua casa. E falam-nos da sua compaixão pelos doentes, da sua dor pelos ignorantes e por aqueles que erram, da sua indignação perante a hipocrisia. Jesus chora pela morte de Lázaro, ira-Se com os mercadores que profanam o Templo, deixa que o seu coração se enterneça com a dor da viúva de Naim.

Cada um destes gestos humanos é um gesto de Deus, porque em Cristo «habita realmente toda a plenitude da divindade». Cristo é Deus feito homem; homem perfeito, homem cabal. E, na sua humanidade, dá-nos a conhecer a divindade.

Quando recordamos esta delicadeza humana de Cristo, que gasta a sua vida ao serviço dos outros, não estamos apenas a descrever um comportamento possível; estamos a descobrir como é Deus. Todas as obras de Cristo têm um valor transcendente: dão-nos a conhecer o modo de ser de Deus, convidam-nos a crer no amor de Deus, que nos criou e quer levar-nos à sua intimidade: «Dei-Te a conhecer aos homens que, do meio do mundo, Me deste. Eles
eram teus e Tu Mos entregaste e têm guardado a tua palavra. Agora,
ficaram a saber que tudo quanto Me deste vem de Ti», exclamou Jesus na longa oração que o evangelista João nos transmitiu.

Portanto, o trato de Jesus não se fica por meras palavras ou por atitudes superficiais. Jesus leva o homem a sério, e quer dar-lhe a conhecer o sentido divino da sua vida. Jesus sabe exigir, colocar cada pessoa perante os seus deveres, arrancar os que O escutam do comodismo e do conformismo, para os levar a conhecer o Deus três vezes santo. A fome e a dor comovem Jesus, mas o que sobretudo O comove é a ignorância: «Jesus viu uma grande multidão e
teve compaixão deles, porque eram como ovelhas sem pastor. Começou,
então, a ensinar-lhes muitas coisas.»

Aplicação ao nosso dia a dia

Percorremos algumas páginas dos Santos Evangelhos, para contemplar o trato de Jesus com os homens e aprender a levar Cristo aos nossos irmãos, sendo nós próprios Cristo. Apliquemos esta lição ao nosso dia a dia, à vida de cada um. Porque a nossa vida normal, a vida que vivemos entre os nossos concidadãos, não é uma realidade desprovida de relevo; é precisamente nessas circunstâncias que o Senhor quer que a imensa maioria dos seus filhos se santifique.

É necessário repetir, uma e outra vez, que Jesus não Se dirigiu a um grupo de privilegiados, mas veio revelar-nos o amor universal de Deus. Deus ama todos os homens, e de todos espera amor; de todos, quaisquer que sejam a sua condição, a sua posição social, a sua profissão ou o seu ofício. A nossa vida quotidiana não é desprovida de valor; todos os caminhos da Terra podem
ser oportunidades para um encontro com Cristo, que nos chama a identificar-nos com Ele, a fim de realizarmos a sua missão divina onde nos encontramos.

Deus chama-nos através dos acontecimentos do dia a dia, no sofrimento e na alegria das pessoas com quem convivemos, nas preocupações dos nossos colegas, nas minudências da vida familiar. E também nos chama através dos grandes problemas, conflitos e empreendimentos que definem cada época histórica, atraindo esforços e sonhos de grande parte da humanidade.

A impaciência, a angústia, os inquietos anseios daqueles que, com uma alma naturalmente cristã, não se resignam perante as injustiças individuais e sociais que o coração humano é capaz de criar são perfeitamente compreensíveis. Tantos séculos de convivência entre os homens e ainda há tanto ódio, tanta destruição, tanto fanatismo acumulado em olhos que não querem ver e em corações que não querem amar.

Os bens da Terra divididos por muito poucos; os bens da cultura encerrados em cenáculos; e, lá fora, fome de pão e de sabedoria, vidas humanas – que são santas, porque vêm de Deus – tratadas como simples coisas, como números de estatísticas. Compreendo e compartilho essa impaciência, que me leva a erguer os olhos para Cristo, que continua a convidar-nos a pôr em prática o mandamento novo do amor.

Todas as situações da nossa vida nos trazem uma mensagem divina, nos pedem uma resposta de amor, de entrega aos outros. «Quando o Filho do Homem vier na sua glória, acompanhado por todos os seus anjos, há de sentar-Se no seu trono de glória. Perante Ele, vão reunir-se todos os povos e Ele separará as pessoas umas das outras, como o pastor separa as ovelhas dos cabritos. À sua direita porá as ovelhas e à sua esquerda, os cabritos. O Rei dirá, então, aos da sua direita: “Vinde, benditos de meu Pai! Recebei em herança o reino que vos está preparado desde a criação do mundo. Porque tive fome e destes-Me de comer, tive sede e destes-Me de beber, era peregrino e recolhestes-Me , estava nu e destes-Me que vestir, adoeci e visitastes-Me, estive na prisão e fostes ter comigo.” Então, os justos vão responder-Lhe: “Senhor, quando foi que Te vimos com fome e Te demos de comer, ou com sede e Te demos de beber? Quando Te vimos peregrino e Te recolhemos, ou nu e Te vestimos? E quando Te vimos doente ou na prisão, e fomos visitar-
Te?” E o Rei vai dizer-lhes em resposta: “Em verdade vos digo: sempre que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, a Mim mesmo o fizestes.”»

Temos de reconhecer, nos homens nossos irmãos, Cristo que vem ao nosso encontro. Nenhuma vida humana é uma vida isolada; todas se entrelaçam. Nenhuma pessoa é um verso solto; todos fazemos parte de um mesmo poema divino, que Deus escreve com o concurso da nossa liberdade.

Não há nenhuma realidade que possa ser alheia ao afã de Cristo. Falando com profundidade teológica, isto é, não nos limitando a uma classificação funcional, falando com rigor, não se pode dizer que haja realidades – boas, nobres e até indiferentes – que sejam exclusivamente profanas, uma vez que o Verbo de Deus fixou a sua morada entre os filhos dos homens, teve fome e sede, trabalhou com as suas mãos, conheceu a amizade e a obediência, experimentou a dor e a morte; «porque foi nele que aprouve a Deus fazer habitar toda a plenitude e, por Ele e para Ele, reconciliar todas as coisas, pacificando, pelo sangue da sua cruz, tanto as que estão na Terra como as que estão no Céu».

Havemos de amar o mundo, o trabalho, as realidades humanas. Porque o mundo é bom; o pecado de Adão é que quebrou a harmonia divina da criação. Mas Deus Pai enviou o seu Filho Unigénito para restabelecer a paz, para que nós, tornados filhos por adoção, pudéssemos libertar a criação da desordem e reconciliar todas as coisas com Deus.

Cada situação humana é irrepetível, fruto de uma vocação única, que deve ser vivida com intensidade, realizando nela o espírito de Cristo. Assim, vivendo cristãmente entre os nossos iguais, com normalidade, mas em coerência com a nossa fé, seremos Cristo presente entre os homens.

Ao considerar a dignidade da missão a que Deus nos chama, talvez possa surgir presunção e soberba na alma humana. Mas uma consciência da vocação cristã que nos cegue, fazendo-nos esquecer que somos feitos de barro, que somos pó e miséria, será uma falsa consciência. Na verdade, o mal não existe apenas no mundo, à nossa volta; o mal está dentro de nós, abriga-se no nosso próprio coração, tornando-nos capazes de vilanias e de egoísmos. Só a graça de Deus é rocha firme; nós somos areia, e areia movediça.

Percorrendo com o olhar a história dos homens ou a situação atual do mundo, é doloroso verificar que, passados vinte séculos, são tão poucos os que se chamam cristãos, e os que se adornam com esse nome são tantas vezes infiéis à sua vocação. Há anos, uma pessoa que não tinha mau coração, mas não tinha fé, apontando-me o mapa-múndi, comentou: «Eis o fracasso de Cristo. Tantos séculos a tentar meter a sua doutrina na alma dos homens, e veja
o resultado: não há cristãos.»

Não falta hoje quem pense assim. Mas Cristo não fracassou; a sua palavra e a sua vida fecundam continuamente o mundo. A obra de Cristo, a tarefa que o Pai Lhe encomendou, está a realizar-se, a sua força atravessa a história, trazendo vida verdadeira; e, «quando todas as coisas Lhe tiverem sido submetidas, então o próprio Filho Se submeterá àquele que tudo Lhe submeteu, a fim de que Deus seja tudo em todos».

Deus quis que sejamos seus cooperadores nesta tarefa que vai realizando no mundo, quis correr o risco da nossa liberdade. Emociona-me profundamente contemplar a figura de Jesus recém-nascido em Belém: é um menino indefeso, inerme, incapaz de oferecer resistência. Deus entrega-Se nas mãos dos homens, aproxima-Se, desce até nós.

Jesus Cristo, «que é de condição divina, não considerou como uma usurpação ser igual a Deus; no entanto, esvaziou-Se a Si mesmo, tomando a condição de servo». Deus condescende com a nossa liberdade, com a nossa imperfeição, com as nossas misérias. Consente que os tesouros divinos sejam levados em vasos de barro, que os dêmos a conhecer misturando as nossas deficiências
com a sua força divina.

A experiência do pecado não deve, pois, fazer-nos duvidar da nossa missão. É certo que os nossos pecados podem dificultar o reconhecimento de Cristo por parte dos outros; por isso, temos de nos confrontar com as nossas misérias pessoais e procurar purificar-nos. Sabendo, porém, que Deus não nos prometeu a vitória absoluta sobre o mal nesta vida, antes nos pede que lutemos: «Sufficit tibi gratia mea», basta-te a minha graça, respondeu a Paulo, que Lhe pedia para ser libertado do aguilhão que o humilhava.

O poder de Deus manifesta-se na nossa fraqueza, e incita-nos a lutar, a combater os nossos defeitos, mesmo sabendo que, durante o caminhar terreno, a vitória nunca será total. A vida cristã é um constante começar e recomeçar, uma renovação diária. Se nos tornarmos participantes da sua cruz e da sua morte, Cristo ressuscitará em nós. Havemos de amar a cruz, a entrega, a mortificação. O otimismo cristão não é um otimismo adocicado, nem a confiança humana em que tudo correrá bem. É um otimismo que se enraíza na consciência da liberdade e na fé na graça; é um otimismo que nos leva a sermos exigentes connosco, a esforçarmo-nos por corresponder ao chamamento de Deus.

Assim, pois, Cristo não Se manifesta apesar da nossa miséria, mas, de certo modo, através da nossa miséria, da nossa vida de homens feitos de carne e de barro: no esforço por sermos melhores, por realizarmos um amor que aspira a ser puro, por dominarmos o egoísmo, por nos entregarmos plenamente aos outros, fazendo da nossa existência um serviço constante.

Não quero terminar sem uma última reflexão. Ao tornar Cristo presente entre os homens, sendo ele mesmo ipse Christus, o cristão não procura apenas viver numa atitude de amor, quer também dar a conhecer o Amor de Deus através desse amor humano. 

Jesus concebeu toda a sua vida como uma revelação desse amor: «Filipe», respondeu a um dos seus apóstolos, «quem Me vê, vê o Pai.» Seguindo esse ensinamento, o apóstolo São João convida os cristãos a que, tendo conhecido o amor de Deus, o mostrem com as suas obras: «Caríssimos, amemo-nos uns aos outros, porque o amor vem de Deus, e todo aquele que ama nasceu de Deus e chega ao conhecimento de Deus. Aquele que não ama não chegou a conhecer a Deus, pois Deus é amor. E o amor de Deus manifestou-se desta forma no meio de nós: Deus enviou ao mundo o seu Filho Unigénito, para que, por Ele, tenhamos a vida. É nisto que está o amor: não fomos nós que amámos a Deus, mas foi Ele mesmo que nos amou e enviou o seu Filho como vítima de expiação pelos nossos pecados. Caríssimos, se Deus nos amou assim, também nós
devemos amar-nos uns aos outros.»

É necessário, portanto, que a nossa fé seja viva, que nos leve a crer realmente em Deus e a manter um constante diálogo com Ele. A vida cristã deve ser uma vida de oração constante, procurando estar na presença do Senhor de manhã até à noite e da noite até de manhã. O cristão não é um homem solitário, posto que vive em permanente conversa com Deus, que está junto de nós e nos Céus.

«Sine intermissione orate», orai sem cessar, manda o apóstolo. Recordando esse preceito apostólico, escreve Clemente de Alexandria: «Manda-se-nos louvar e honrar o Verbo, a quem conhecemos como salvador e rei, e, por Ele, o Pai; não em dias escolhidos, como fazem alguns, mas constantemente, ao longo de toda
a vida, e de todos os modos possíveis.»

No meio das ocupações de cada dia, quando vence a tendência para o egoísmo, quando sente a alegria da amizade com os outros homens, em todos esses instantes deve o cristão reencontrar Deus. Por Cristo e no Espírito Santo, o cristão tem acesso à intimidade de Deus Pai, e percorre o seu caminho buscando esse reino, que não é deste mundo, mas que neste mundo se inicia e prepara. 

É preciso privar com Cristo na Palavra e no Pão, na Eucaristia e na oração. Tratá-lo como se trata um amigo, um ser real e vivo, que é isso que Cristo é, porque ressuscitou. Diz a Epístola aos Hebreus que, permanecendo eternamente, Cristo «possui um sacerdócio que não acaba. Sendo assim, pode salvar de um modo
definitivo os que por meio d’Ele se aproximam de Deus, pois está vivo para sempre, a fim de interceder por eles».

Cristo, Cristo ressuscitado, é o companheiro, o Amigo. Um companheiro que só Se deixa ver entre sombras, mas cuja realidade enche toda a nossa vida e nos faz desejar a sua companhia definitiva. «O Espírito e a Esposa dizem: “Vem!” Diga também o que escuta: “Vem!” O que tem sede que se aproxime; e o que deseja beba gratuitamente da água da vida. […] O que é testemunha destas
coisas diz: “Sim, virei brevemente”. Ámen! Vem, Senhor Jesus!»

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