A Ascensão do Senhor aos Céus
*Homilia proferida a 19 de maio de 1966, solenidade da Ascensão do Senhor
A liturgia põe uma vez mais diante dos nossos olhos o último dos mistérios da vida de Jesus Cristo entre os homens: a sua Ascensão aos Céus. Desde o seu nascimento em Belém, já aconteceram muitas coisas: encontrámo-lo no berço, adorado por pastores e reis; contemplámo-lo nos longos anos de trabalho silencioso em Nazaré; acompanhámo-lo pelas terras da Palestina, pregando aos homens o Reino de Deus e fazendo bem a todos; e mais tarde, nos dias da sua Paixão, sofremos ao ver como O acusaram, com que furor O maltrataram e com que ódio O crucificaram.
À dor, seguiu-se a alegria luminosa da Ressurreição. Que fundamento tão claro e firme para a nossa fé! Já não devíamos duvidar. Mas talvez aconteça que, tal como os apóstolos, ainda sejamos fracos e, neste dia da Ascensão, perguntemos a Cristo: «É agora que vais restaurar o reino de Israel?» Será agora que vão desaparecer definitivamente todas as nossas perplexidades e todas
as nossas misérias?
O Senhor responde-nos subindo aos Céus. Também como os apóstolos, ficamos entre admirados e tristes ao ver que Ele nos deixa; na verdade, não é fácil habituarmo-nos à ausência física de Jesus. Comove-me recordar que, num magnífico gesto de amor, Ele Se foi embora e ficou; foi para o Céu e entrega-Se-nos como alimento na Hóstia Santa. Mas sentimos a falta da sua palavra humana, do seu modo de agir, de olhar, de sorrir, de fazer o bem. Gostaríamos de voltar a vê-lo de perto, quando Se senta à beira do poço, cansado da dureza do caminho, quando chora por Lázaro, quando reza longamente, quando Se compadece da multidão!
Sempre me pareceu lógico – e me encheu de alegria – que a Santíssima Humanidade de Jesus Cristo subisse à glória do Pai; mas também me parece que esta tristeza, própria do dia da Ascensão, é uma prova do amor que sentimos por Jesus Nosso Senhor. Sendo perfeito Deus, Ele fez-Se homem, perfeito Homem, carne da nossa carne e sangue do nosso sangue; e agora separa-Se de nós e vai para o Céu. Como não havemos de sentir a sua falta?
Intimidade com Jesus Cristo no Pão e na Palavra
Se soubermos contemplar o mistério de Cristo, se nos esforçarmos por vê-lo com olhos limpos, perceberemos que continuamos a poder aproximar-nos intimamente de Jesus, em corpo e alma. Cristo assinalou-nos claramente o caminho: pelo Pão e pela Palavra, alimentando-nos com a Eucaristia, conhecendo e cumprindo o que Ele veio ensinar-nos, ao mesmo tempo que conversamos com Ele na oração. «Quem realmente come a minha carne e bebe o meu sangue fica a morar em Mim e Eu nele»; «Quem recebe os meus mandamentos e os observa esse é que Me tem amor; e quem Me tiver amor será amado por meu Pai, e Eu o amarei e hei de manifestar-Me a ele».
Não são meras promessas. São o cerne, a realidade de uma vida autêntica, a vida da graça, que nos move a tratar pessoal e diretamente com Deus. «Se guardardes os meus mandamentos, permanecereis no meu amor, assim como Eu, que tenho guardado os mandamentos do meu Pai, também permaneço no seu amor.» Esta afirmação de Jesus, feita no discurso da Última Ceia, é o melhor
preâmbulo para o dia da Ascensão. Cristo sabia que tinha de Se ir embora, porque, de um modo misterioso que não conseguimos compreender, depois da Ascensão viria – em nova efusão do Amor divino – a terceira Pessoa da Santíssima Trindade: «Contudo, digo-vos a verdade: é melhor para vós que Eu vá, pois, se Eu não for, o Paráclito não virá a vós; mas, se Eu for, Eu vo-lo enviarei.»
Foi-Se embora e enviou-nos o Espírito Santo, que rege e santifica a nossa alma. Ao operar em nós, o Paráclito confirma o que Cristo nos anunciou: que somos filhos de Deus; que não recebemos o espírito de escravidão para agir ainda por temor, mas o espírito de adoção de filhos, pelo qual clamamos: «Abba, Pai!»
Vedes? É a ação da Trindade na nossa alma. Qualquer cristão tem acesso a esta inabitação de Deus no mais íntimo do seu ser, se corresponder à graça que nos leva a unirmo-nos a Cristo no Pão e na Palavra, na Sagrada Hóstia e na oração. A Igreja põe diariamente à nossa consideração a realidade do Pão vivo e dedica-lhe duas grandes festas do ano litúrgico: a da Quinta-Feira Santa e a do Corpus Christi. Neste dia da Ascensão, vamos deter-nos na relação com Jesus através da escuta atenta da sua Palavra.
Vida de oração
«Que eu reze e cante, à noite, ao Deus que me dá vida.» Se Deus é vida para nós, não é de estranhar que a nossa existência de cristãos deva estar entretecida em oração. Mas não penseis que a oração é um ato que se faz e depois se abandona; pois o justo «põe o seu enlevo na lei do Senhor e nela medita dia e noite»; pela manhã penso em Ti e durante a tarde a minha oração dirige-se a Ti como o incenso. O dia pode ser, todo ele, tempo de oração: da noite até de manhã e da manhã até à noite. Mais ainda: como nos recorda a Sagrada Escritura, o sono também deve ser oração.
Recordai o que os Evangelhos nos narram sobre Jesus: às vezes, passava a noite inteira em colóquio íntimo com seu Pai. A imagem de Cristo em oração apaixonou tanto os primeiros discípulos que, depois de contemplarem essa atitude constante do Mestre, Lhe pediram: «Domine, doce nos orare», Senhor, ensina-nos a orar assim.
São Paulo – «orationi instantes», perseverantes na oração, escreve – difunde por toda a parte o exemplo vivo de Cristo. E São Lucas retrata com uma pincelada o comportamento dos primeiros fiéis: «Todos unidos pelo mesmo sentimento, entregavam-se assiduamente à oração.»
A têmpera do bom cristão adquire-se, com a graça, na forja da oração. E este alimento da oração, por ser vida, não corre por um caudal único. Habitualmente, o coração desabafa com palavras, nas orações vocais que nos foram ensinadas pelo próprio Deus – o «pai-nosso» – ou pelos seus anjos – a «ave-maria»; outras vezes, utilizaremos orações depuradas pelo tempo, nas quais se verteu a piedade de milhões de irmãos na fé: as orações da liturgia – lex orandi –, as orações que nasceram da paixão de corações enamorados, como muitas antífonas marianas: «Sub tuum præsidium», «Memorare», «Salve Regina».
Noutras ocasiões, bastarão duas ou três expressões lançadas ao Senhor como uma flecha, iaculata, jaculatórias, que aprendemos na leitura atenta da história de Cristo: «Domine, si vis, potes me mundare», Senhor, se quiseres, podes curar-me; «Domine, tu omnia nosti, tu scis quia amo te», Senhor, Tu sabes tudo, Tu sabes que Te amo; «Credo, Domine, sed adiuva incredulitatem meam», creio, Senhor, mas ajuda a minha incredulidade, fortalece a minha fé; «Domine, non sum dignus», Senhor, eu não sou digno!; «Dominus meus et Deus meus», meu Senhor e meu Deus!... Ou outras frases, breves e afetuosas, que brotam do fervor íntimo da alma em resposta a circunstâncias concretas.
Além disto, a vida de oração tem de fundamentar-se em períodos diários dedicados exclusivamente ao trato com Deus, momentos de conversa sem ruído de palavras, sempre que possível junto ao sacrário, para agradecer ao Senhor o facto de estar à nossa espera – tão só! – há vinte séculos. A oração mental é um diálogo com Deus de coração a coração, com intervenção de toda
a alma: a inteligência e a imaginação, a memória e a vontade. Uma meditação que contribui para dar valor sobrenatural à nossa pobre vida humana, ao nosso dia a dia.
Graças a esses tempos de meditação, às orações vocais, às jaculatórias, saberemos converter o nosso quotidiano, com naturalidade e sem espetáculo, num contínuo louvor a Deus; manter-nos-emos na sua presença, como os apaixonados dirigem continuamente o seu pensamento à pessoa que amam, e todas as nossas ações – incluindo as mais pequenas – se encherão de eficácia
espiritual.
Por isso, quando um cristão avança por este caminho de conversa ininterrupta com o Senhor – que não é uma senda para privilegiados, mas um caminho para todos –, a vida interior cresce, segura e firme; e consolida-se no homem a luta, simultaneamente amável e exigente, por realizar a vontade de Deus em profundidade.
Com base na vida de oração, podemos compreender outro tema que a festa de hoje nos propõe: o apostolado, que é pôr em prática os ensinamentos de Jesus, transmitidos aos seus pouco antes de subir aos Céus: «Sereis minhas testemunhas em Jerusalém, por toda a Judeia e Samaria e até aos confins do mundo.»
Apostolado, corredenção
Com a maravilhosa normalidade do divino, a alma contemplativa transborda em preocupação apostólica: «O coração ardia-me no peito; de tanto pensar nisto, esse fogo avivava-se.» Que fogo é este senão aquele de que fala Cristo: «Eu vim lançar fogo sobre a terra; e como gostaria que ele já se tivesse ateado»? Fogo de apostolado, que se robustece na oração; pois não há meio melhor que este para travar em todo o mundo a batalha pacífica em que cada cristão está chamado a participar: cumprir o que resta padecer a Cristo.
Jesus subiu aos Céus, dizíamos. Mas, convivendo com Ele na oração e na Eucaristia, o cristão pode ter com Jesus a mesma relação que tiveram os primeiros doze, deixando-se abrasar pelo mesmo zelo apostólico, para com Ele prestar um serviço de corredenção, que consiste em semear paz e alegria. Servir, pois: o apostolado não é outra coisa. Se contarmos exclusivamente com as nossas próprias forças, nada conseguiremos no terreno sobrenatural; sendo instrumentos de Deus, conseguiremos tudo: tudo posso naquele que me
conforta. Na sua infinita bondade, Deus decidiu utilizar estes instrumentos
ineptos. Por isso, o apóstolo não tem outro fim que não seja deixar o Senhor agir, mostrar-se inteiramente disponível para que Deus realize – através das suas criaturas, através da alma escolhida – a sua obra salvadora.
O apóstolo é o cristão que se sente inserido em Cristo, identificado com Cristo pelo batismo, habilitado a lutar por Cristo pela confirmação, chamado a servir Deus com a sua ação no mundo pelo sacerdócio comum dos fiéis, que confere uma certa participação no sacerdócio de Cristo; uma participação que – sendo essencialmente diferente da que constitui o sacerdócio ministerial – o torna capaz de participar no culto da Igreja e de ajudar os homens no seu caminho para Deus com o testemunho da palavra e do exemplo, com a oração e com a expiação.
Cada um de nós há de ser ipse Christus. Ele é o único mediador entre Deus e os homens; e nós unimo-nos a Ele para, com Ele, oferecer todas as coisas ao Pai. A nossa vocação de filhos de Deus no meio do mundo exige-nos que não procuremos apenas a nossa santidade pessoal, mas vamos convertendo os caminhos da Terra em veredas que, por entre os obstáculos, levem as almas ao Senhor; que participemos, como cidadãos comuns, em todas as atividades temporais, para sermos levedura que dê corpo a toda a massa.
Cristo subiu aos Céus, mas transmitiu a todas as realidades humanas honestas a possibilidade concreta de serem redimidas. São Gregório Magno trata este grande tema cristão com palavras incisivas: «Jesus partia assim para o lugar de onde era, e voltava do lugar onde continuava a morar. Efetivamente, quando subiu ao Céu, Ele uniu o Céu e a Terra com a sua divindade. Na festa de hoje, convém destacar solenemente o facto de o decreto que nos condenava, o juízo que nos tornava sujeitos à corrupção, ter sido suprimido. A natureza à qual se dirigiam as palavras: “Tu és pó e ao pó voltarás” (Gn 3, 19) subiu hoje ao Céu com Cristo.»
Não me cansarei de repetir, portanto, que o mundo é santificável; é aos cristãos que compete em especial essa missão, purificando-o das ocasiões de pecado com que nós, homens, o desfeamos e oferecendo-o ao Senhor como hóstia espiritual, apresentada e dignificada com a graça de Deus e com o nosso esforço. Em rigor, tendo em conta que o Verbo Se dignou assumir integralmente a natureza humana e consagrar o mundo com a sua presença e com o trabalho das suas mãos, não se pode dizer que haja realidades nobres que sejam exclusivamente profanas. A grande missão que recebemos no batismo é a corredenção. A caridade de Cristo urge-nos a tomar sobre os nossos ombros uma parte dessa tarefa divina de resgatar as almas.
Notai: a redenção, que ficou consumada quando Jesus morreu na vergonha e na glória da cruz, «escândalo para os judeus e loucura para os gentios», continuará, por vontade de Deus, a realizar-se até à hora do Senhor. Quem vive segundo o coração de Jesus Cristo não pode deixar de se sentir enviado, como Ele, «peccatores salvos facere», para salvar todos os pecadores, convencido de que precisa de confiar cada vez mais na misericórdia de Deus. Daí, o desejo veemente de nos considerarmos corredentores com Cristo, de com Ele salvarmos todas as almas, porque somos, queremos ser, ipse Christus, o próprio Jesus Cristo, «que Se entregou a Si mesmo como resgate por todos».
Temos uma grande tarefa à nossa frente. E não podemos manter uma atitude passiva, porque o Senhor nos ordenou expressamente: «Fazei render a mina até que eu volte.» Enquanto esperamos o regresso do Senhor, que voltará a tomar posse plena do seu reino, não podemos estar de braços cruzados. A extensão do Reino de Deus não é apenas a missão oficial dos membros da Igreja que representam Cristo por dele terem recebido os poderes sagrados. «Vos autem estis corpus Christi», vós sois o corpo de Cristo, ensina-nos o apóstolo, com o mandato concreto de negociar até ao fim.
Há tanto por fazer! Quer dizer que, em vinte séculos, não se fez nada? Em vinte séculos trabalhou-se muito; não me parece objetiva nem honesta a ânsia de menosprezar, como fazem alguns, a atividade daqueles que nos precederam. Em vinte séculos fez-se um grande labor e, com frequência, foi muito bem realizado; outras vezes houve desacertos, regressões, como também hoje há retrocessos, medo, timidez, ao mesmo tempo que não falta valentia e generosidade. Mas a família humana renova-se constantemente; em
cada geração, é preciso manter o compromisso de ajudar o homem a descobrir a grandeza da sua vocação de filho de Deus, é necessário inculcar o mandamento do amor ao Criador e ao próximo.
Cristo ensinou-nos definitivamente o caminho desse amor a Deus: o apostolado é o amor de Deus que transborda, dando-se aos outros. A vida interior pressupõe crescimento na união com Cristo, pelo Pão e pela Palavra; e o empenho apostólico é a expressão exata, adequada, necessária da vida interior. Quem saboreia o amor de Deus sente o peso das almas. A vida interior não pode ser dissociada do apostolado, da mesma maneira que não é possível separar, em Cristo, o seu ser de Deus Homem e a sua função de Redentor. O Verbo quis encarnar para salvar os homens, para os tornar uma só coisa com Ele. É esta a razão da sua vinda ao mundo: «por nós, homens, e para nossa salvação desceu dos Céus», rezamos no Credo.
O apostolado é conatural ao cristão; não é uma atividade acrescentada, justaposta, externa aos seus afazeres diários, ao seu trabalho profissional. Tenho-o dito sem cessar desde que o Senhor dispôs que o Opus Dei surgisse! Cada cristão há de santificar o trabalho habitual, santificar-se nessa ocupação e santificar os outros com o exercício da sua profissão, cada um de acordo com o seu estado.
Para um cristão, o apostolado é como a respiração: um filho de Deus não pode viver sem esse pulsar espiritual. A festa de hoje recorda-nos que o zelo pelas almas é um mandato amoroso do Senhor, que, ao subir para a sua glória, nos envia a todo o orbe como suas testemunhas. Grande é a nossa responsabilidade, porque ser testemunha de Cristo significa, antes de mais, procurarmos comportar-nos segundo a sua doutrina, lutarmos para que as nossas atitudes façam recordar Jesus e evoquem a sua figura amabilíssima.
Temos de proceder de tal maneira que os outros, ao ver-nos, possam dizer: este é cristão, porque não odeia ninguém, porque sabe compreender os outros, porque não é fanático, porque se sobrepõe aos seus instintos, porque é sacrificado, porque exprime sentimentos de paz, porque ama.
O trigo e o joio
Tracei-vos – não com as minhas ideias, mas com a doutrina de Cristo – um caminho ideal para o cristão. Direis que é elevado, sublime, atrativo; e talvez algum de vós pergunte: será possível viver assim na sociedade contemporânea?
É certo que o Senhor nos chamou em momentos em que muito se fala de paz e não há paz: nem nas almas, nem nas instituições, nem na vida social, nem entre os povos; em que se fala continuamente de igualdade e democracia e abundam as castas: fechadas, impenetráveis. Chamou-nos num tempo em que se clama
por compreensão e a compreensão brilha pela sua ausência, mesmo entre pessoas que agem de boa-fé e querem praticar a caridade, porque – não esqueçais – a caridade, mais do que em dar, está em compreender.
Atravessamos uma época em que os fanáticos e os intransigentes – incapazes de reconhecerem as razões dos outros – se previnem acusando as suas vítimas de serem violentas e agressivas. Chamou-nos, enfim, quando se ouve papaguear muito sobre unidade e talvez seja difícil conceber maior desunião entre os próprios católicos, para já não falar dos homens em geral.
Eu nunca faço considerações políticas, porque não é o meu ofício. Para descrever sacerdotalmente a situação do mundo atual, basta-me pensar de novo numa parábola do Senhor: a parábola do trigo e do joio. «O Reino do Céu é comparável a um homem que semeou boa semente no seu campo. Ora, enquanto os seus homens dormiam, veio o inimigo, semeou joio no meio do trigo e afastou-se.» A situação é clara: o campo é fértil e a semente é boa; o senhor do campo atirou a semente a mãos-cheias no momento propício e com arte consumada; além disso, organizou vigilantes para proteger a sementeira. Se o joio apareceu, é porque não houve correspondência, porque os homens – em especial os cristãos – adormeceram e permitiram que o inimigo se aproximasse.
Quando os servos irresponsáveis perguntam ao Senhor porque foi que o joio cresceu no seu campo, a explicação salta aos olhos: «Inimicus homo hoc fecit», foi o inimigo! Nós, cristãos, que devíamos estar vigilantes para que as coisas boas postas pelo Criador no mundo se desenvolvessem ao serviço da verdade e do bem, adormecemos – triste preguiça, esse sono! –, enquanto o inimigo e todos os que o servem se moviam sem descanso. Bem vedes como cresceu o joio: que sementeira tão abundante em toda a parte!
Não tenho vocação de profeta da desgraça; não desejo, com as minhas palavras, apresentar-vos um panorama desolador, sem esperança, nem pretendo queixar-me destes tempos que são, pela providência do Senhor, os nossos. Amamos a nossa época, porque é o âmbito em que temos de nos santificar. Não admitimos nostalgias ingénuas e estéreis; o mundo nunca esteve melhor do que está hoje. Desde sempre, logo nos primórdios da Igreja, ainda se ouvia a pregação dos primeiros doze, surgiram violentas perseguições, começaram as heresias, propalou-se a mentira e desencadeou-se o ódio.
Mas também não é lógico negar que parece que o mal prosperou. Neste campo de Deus que é a Terra, herança de Cristo, nasceu joio; e não apenas joio, mas abundância de joio! Não podemos deixar-nos enganar pelo mito do progresso perene e irreversível. O progresso retamente ordenado é bom e Deus quere-o. Mas tem-se mais em conta o falso progresso, que cega os olhos a tanta gente, que muitas vezes não percebe que, em alguns dos seus passos, a humanidade
está a voltar atrás, perdendo o que já tinha conquistado.
O Senhor – repito – deu-nos o mundo como herança. Temos de ter a alma e a inteligência despertas; temos de ser realistas, sem derrotismos. Só uma consciência cauterizada, a insensibilidade produzida pela rotina ou o estouvamento frívolo podem permitir olhar para o mundo sem ver o mal, as ofensas a Deus, o dano, por vezes irreparável, para as almas. Havemos de ser otimistas, mas com um otimismo que nasça da fé no poder de Deus – Deus não
perde batalhas –, com um otimismo que não procede da satisfação humana, de uma complacência néscia e presunçosa.
Uma sementeira de paz e de alegria
Que fazer? Dizia-vos que não era minha intenção descrever crises sociais ou políticas, derrocadas ou moléstias culturais. Vendo a realidade do ponto de vista da fé cristã, tenho-me referido ao mal no sentido preciso de ofensa a Deus. O apostolado cristão não é um programa político, nem uma alternativa cultural: consiste na difusão do bem, no contágio do desejo de amar, numa sementeira concreta de paz e de alegria. Desse apostolado hão de derivar, sem dúvida, benefícios espirituais para todos: mais justiça, mais compreensão, mais respeito do homem pelo homem.
Há muitas almas à nossa volta, e não temos o direito de ser um obstáculo ao seu bem eterno. Temos a obrigação de ser plenamente cristãos, de ser santos, de não defraudar Deus nem tanta gente que espera do cristão exemplo e doutrina.
O nosso apostolado tem de assentar na compreensão. Insisto: a caridade, mais do que em dar, está em compreender. Não vos escondo que aprendi na minha própria carne o que custa não ser compreendido. Sempre me esforcei por me fazer compreender, mas há quem se empenhe em não me entender: mais uma razão, prática e viva, para eu desejar compreender a todos. Mas não será um impulso circunstancial a obrigar-nos a ter um coração amplo, universal, católico. O espírito de compreensão é uma expressão da caridade cristã de um bom filho de Deus: porque o Senhor quer que estejamos em todos os caminhos retos da Terra, para propagar a semente da fraternidade – não do joio –, da desculpa, do perdão, da caridade, da paz. Nunca vos sintais inimigos de ninguém.
O cristão há de mostrar-se sempre disposto a conviver com todos, a dar a todos – com o seu trato – a possibilidade de se aproximarem de Cristo Jesus; há de sacrificar-se gostosamente por todos, sem distinções, sem dividir as almas em compartimentos estanques, sem lhes pôr etiquetas, como se fossem mercadorias ou insetos dissecados. O cristão não pode distanciar-se dos outros, porque a sua vida seria miserável e egoísta: deve fazer-se tudo para todos, para
salvar todos.
Se vivêssemos assim, se soubéssemos impregnar o nosso comportamento desta sementeira de generosidade, deste desejo de convivência, de paz! Desse modo, fomentar-se-ia a legítima independência pessoal dos homens e cada um assumiria a sua responsabilidade nos afazeres temporais. Os cristãos saberiam defender, em primeiro lugar, a liberdade alheia, para poderem depois defender a própria; teriam a caridade de aceitar os outros como são – porque cada um, sem exceção, arrasta misérias e comete erros –, ajudando-os, com a graça de Deus e com delicadeza humana, a vencer o mal, a arrancar o joio, a fim de que todos possamos ajudar-nos mutuamente e viver com dignidade a nossa condição de homens e de cristãos.
A vida futura
A missão apostólica de que Cristo encarregou todos os seus discípulos produz, portanto, resultados concretos no âmbito social. Não é admissível pensar que, para ser cristão, é preciso virar as costas ao mundo, ser um cético da natureza humana. Tudo, até o mais pequeno acontecimento, desde que seja honesto, encerra um sentido humano e divino. Ao assumir a nossa natureza humana,
exceto o pecado, Cristo, perfeito Homem, não veio destruir o que é humano, mas enobrecê-lo; veio partilhar todos os anseios do homem, menos a lamentável aventura do mal.
O cristão há de mostrar-se sempre disposto a santificar a sociedade a partir de dentro, estando plenamente no mundo, mas não sendo do mundo naquilo que ele tem – não por característica real, mas por defeito voluntário, pelo pecado – de negação de Deus, de oposição à sua amável vontade salvífica.
A festa da Ascensão do Senhor sugere-nos ainda outra realidade: o Cristo que nos incentiva a realizar esta tarefa no mundo espera-nos no Céu. Por outras palavras: a vida na Terra, que amamos, não é a definitiva, porque «não temos aqui cidade permanente, mas procuramos a futura» cidade imutável.
Evitemos, contudo, interpretar a palavra de Deus nos limites de um horizonte estreito. O Senhor não nos incentiva a ser infelizes enquanto caminhamos, esperando como única consolação o além. Deus também nos quer felizes aqui, embora ansiando pelo cumprimento definitivo da outra felicidade, que só Ele pode realizar completamente.
Neste mundo, a contemplação das realidades sobrenaturais, a ação da graça na nossa alma, o amor ao próximo como fruto saboroso do amor a Deus são uma antecipação do Céu, uma incoação destinada a crescer dia a dia. Nós, cristãos, não suportamos uma vida dupla: mantemos uma unidade de vida simples e forte, na qual se fundam e se interpenetram todas as nossas ações.
Cristo espera-nos. Sendo plenamente cidadãos da Terra, no meio de dificuldades, injustiças e incompreensões – mas também da alegria e da serenidade que resultam de nos sabermos filhos amados de Deus –, vivamos já como cidadãos do Céu. Perseveremos no serviço do nosso Deus e veremos aumentar, em número e santidade, este exército cristão de paz, este povo de corredenção. Sejamos almas contemplativas, com um diálogo constante, privando com o Senhor a toda a hora, desde o primeiro pensamento do dia até ao último da noite, pondo continuamente o nosso coração em Jesus Cristo Nosso Senhor, chegando a Ele por intermédio da nossa Mãe, Santa Maria, e, por Ele, ao Pai e ao Espírito Santo.
E se, apesar de tudo, a subida de Jesus aos Céus nos deixa na alma um rasto amargo de tristeza, recorramos a sua Mãe, como fizeram os apóstolos: «Foram a Jerusalém […], e entregavam-se assiduamente à oração, com […] Maria, Mãe de Jesus.»
Documento impresso de https://escriva.org/pt-pt/es-cristo-que-pasa/a-ascensao-do-senhor-aos-ceus/ (19/05/2026)