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Meus filhos, do inimigo o conselho.51 Estai avisados, sede prudentes e não adormeçais: hora est iam nos de somno surgere,52 é hora de sacudir a preguiça e a sonolência. Não vos esqueçais de que certos lugares na terra que noutros tempos foram testemunhas de igrejas florescentes são agora um terreno baldio, onde não se pronuncia o nome de Cristo. Seria comodismo tentar justificar esse fracasso pensando que está nos planos divinos escrever reto por linhas tortas e que, no final, a causa de Deus sempre triunfa. É verdade que Cristo triunfa sempre, mas, muitas vezes, apesar de nós.

24b.

Sem espírito belicoso ou agressivo, in hoc pulcherrimo caritatis bello, com uma compreensão que acolhe a todos e colabora com todos os homens de boa vontade — também com os que não conhecem ou não amam Jesus Cristo, sem transigir com os erros que professam —, não vos esqueçais de que o Senhor disse: não penseis que vim trazer paz à terra; não vim trazer a paz, mas a espada.53 É muito fácil prestar atenção apenas à mansidão de Jesus e deixar à margem — porque perturbam o conforto e o conformismo — as palavras, também divinas, com as quais Ele nos estimula a complicar nossas vidas.

25

Notas
51

«do inimigo o conselho»: refrão popular que convida a não seguir a recomendação de quem busca o nosso mal, por mais razoável e oportuno que pareça. O tema figura na fábula do leão e da cabra atribuída a Esopo e foi retomado por outros autores, como Félix María Samaniego (1745-1801), em que se recolhe textualmente o dito que cita Escrivá. Nessa fábula (XXIII, livro V), louva-se a prudência de um cão que evitou ser devorado ao descobrir a insídia que escondia a sugestão de um tortuoso crocodilo: «Oh, que douto Cão velho!/ Eu admiro o seu sentir/ Nisto de não seguir/ Do inimigo o conselho» (Félix María Samaniego, Fábulas en verso castellano para el uso del real Seminario Bascongado, Salamanca, impresso por Dom Vicente Blanco, 1830, p. 136). Curiosamente, no § 35b desta mesma Carta, Escrivá o usa de novo, mas com um sentido oposto, como que dando a entender que também alguém que não pensa como nós pode expressar uma verdade aproveitável.

52

Rm 13, 11.

53

Mt 10, 34.

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