Carta 29
Escolhidos pelo amor de Deus
Fomos escolhidos pelo amor de Deus, filhas e filhos queridíssimos, para viver este caminho — sempre jovem e novo — da Obra, esta aventura humana e sobrenatural que é corredenção com Cristo, estreita e íntima participação no desejo impaciente de Jesus de espalhar o fogo que veio trazer à terra.1
1b. O preço da nossa redenção
Ele, com sua cruz e seu triunfo sobre a morte, rasgou o decreto de condenação dos homens2 e conquistou a todos com o preço imenso e infinito do seu sangue: empti enim estis pretio magno,3 fomos comprados por um grande preço. A toda a humanidade, sem exceção, abriu a possibilidade de uma nova vida, de renascer no Espírito, de iniciar uma existência de vencedores que podem exclamar: se Deus é por nós, quem contra nós? aquele que não perdoou seu próprio Filho, mas O entregou por todos nós, não nos dará com Ele todas as coisas?...
Porque estou convencido de que nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem o presente, nem o futuro, nem as virtudes, nem a altura, nem a profundidade, nem criatura alguma poderá nos arrebatar do amor de Deus em Cristo Jesus, Nosso Senhor.4 Hino esplêndido de segurança, de plenitude, de endeusamento, que o pobre barro humano jamais poderia sonhar em entoar!
2
Nem todos os homens aceitam a salvação
Mas o Senhor, que oferece sua salvação a todos os homens, sem discriminação de pessoas, raça, língua ou condição,5 não força ninguém a aceitá-la. Deixa os homens em liberdade: os homens, às vezes, não o querem e obrigam Jesus a admitir suas desculpas baixas e egoístas, suas recusas — habe me excusatum6 — ao convite amoroso de participar da grande ceia.
2b. Poucos têm a verdadeira doutrina de Cristo
Causa dor ver que, depois de vinte séculos, há tão poucos que se chamem cristãos no mundo e que, entre aqueles que se chamam cristãos, há tão poucos que tenham a verdadeira doutrina de Jesus Cristo. Já lhes contei algumas vezes que, ao olhar para um mapa-múndi, certo homem que não tinha um coração ruim, mas que não tinha fé, me disse: olha, de norte a sul, e de leste a oeste, olha. O que queres que eu olhe?, perguntei-lhe. E esta foi a sua resposta: o fracasso de Cristo. tantos séculos tentando colocar sua doutrina no coração dos homens, e veja os resultados: não há cristãos.
2c. Cristo não fracassou
De início, enchi-me de tristeza; mas, imediatamente, também de amor e de agradecimento, porque o Senhor quis tornar-nos cooperadores livres de sua obra redentora. Cristo não fracassou: sua doutrina e sua vida estão a fecundar continuamente o mundo. Sua redenção é suficiente e superabundante, mas Ele nos trata como seres inteligentes e livres e dispôs que, misteriosamente, cumpríssemos em nossa carne — em nossa vida — o que falta em sua paixão pro corpore eius, quod est Ecclesia.7
2d. Corredentores
A redenção continua a fazer-se: e vós e eu somos corredentores. Va- le a pena empenhar a vida inteira e saber sofrer, por amor, a fim de levar adiante as coisas de Deus e ajudá-lo a redimir o mundo, a fim de corredimir. Em face dessa consideração, é hora de que vós e eu clamemos em louvor a Deus: laudationem Domini loquetur os meum, et benedicat omnis caro nomini santo eius,8 que a nossa boca exalte o Senhor, e que todas as criaturas glorifiquem seu santo nome.
3
O joio e o bom trigo
Não podemos esquecer, meus filhos, que o Senhor disse que o seu reino não é deste mundo9, porque, ao permitir o uso indevido da liberdade humana, tolerou que, até o dia da colheita, o joio cresça ao mesmo tempo que o trigo bom.10
E o mal prosperou! Já desde o berço da Igreja, ainda durante a vida dos Apóstolos, surgem as heresias e os cismas. Perseguições dos pagãos, nos primeiros tempos da cristandade, do islamismo, do protestantismo e, agora, do comunismo. No campo que Deus fez para si mesmo na terra, que é herança de Cristo, há joio. Não apenas joio; abundância de joio!
3b.
Até que desça do céu a cidade santa, a nova Jerusalém — novo céu e nova terra11 —, não haverá trégua na batalha que está sendo travada entre o Senhor dos senhores e rei dos reis e dos que estão com ele, chamados, escolhidos e fiéis,12 de um lado, e os servos da besta e do filho da perdição, que se opõe e se levanta contra tudo o que se proclama Deus ou é adorado, até sentar-se no templo de Deus e se proclamar deus a si próprio.13
4
Otimismo fundamentado em Cristo
Nosso otimismo não é um otimismo tolo e presunçoso: é realismo. É por isso que não podemos ignorar a presença do mal no mundo, nem deixar de sentir a responsabilidade premente de termos sido convocados por Cristo para combater com Ele em sua formosa batalha de amor e paz.
4b. Três manifestações da presença do mal no mundo
Já há muitos anos, num retiro espiritual que dava aos vossos irmãos, procurava que reparassem a situação do mundo, que não mudou muito desde então. Incentivava-os a contemplar — usando uma imagem gráfica — essa mancha vermelha que se espalha rapidamente sobre a terra, que arrasa tudo, que quer destruir até mesmo o menor sentido sobrenatural. E o avanço de outra onda muito grande de sensualidade — perdoem-me —, de imbecilidade, porque os homens tendem a viver como bestas.
4c.
E prosseguia, fazendo-lhes notar que ainda se distingue outra cor, que avança e avança, especialmente nos países latinos; de maneira mais hipócrita em outras nações: o ambiente anticlerical — de mau anticlericalismo —, que tenta relegar Deus e a Igreja ao fundo da consciência ou que, dito de outra forma mais clara, quer relegar Deus e a Igreja à vida privada, sem que o fato de ter fé se manifeste na vida pública. Não estou exagerando:
esses três perigos são constantes, evidentes, agressivos.
5
Não podeis — seria um comodismo intolerável — fechar os olhos a essa realidade. Não para que vos enchais de um pessimismo inerte e inativo, mas para que vos inflameis e enchais das santas impaciências do Cristo que, com um passo rápido, indo adiante de seus discípulos — praecedebat illos Iesus14—, fez sua última viagem a Jerusalém, a fim de ser batizado com um batismo que havia instado continuamente o seu espírito.15
5b. Possumus
Que haja sempre em vossos lábios e em vossas almas uma afirmação categórica, jovem e audaz: possumus!,16 podemos!, quando sentirdes o convite do Senhor: podeis beber o cálice que eu devo beber e ser batizado com o batismo com o qual eu devo ser batizado?17
5c. Não é possível permanecer indiferentes diante do mal
Um filho de Deus em sua Obra, embora sempre sereno com a serenidade de sua filiação divina, não pode ficar indiferente perante um mundo que não é cristão e nem mesmo humano. Porque muitos homens ainda não alcançaram aquelas condições de vida — na ordem temporal — que permitem o desenvolvimento do espírito, e estão como que insensibilizados para qualquer coisa que não seja carnal. As palavras da Escritu- ra podem ser aplicadas a eles: são homens animais, sem espírito.18 Nessas pobres almas, cumpre-se o que São Paulo lamentava: animalis autem homo non percipit ea quae sunt Spiritus Dei,19 porque essas pobres criaturas não veem a luz espiritual, não discernem as coisas que são do espírito de Deus.
6
Progresso humano e crescimento espiritual
Mas virai vossos olhos para aqueles povos que alcançaram um crescimento quase incrível de cultura e progresso; que, em poucos anos, alcançaram uma evolução técnica admirável, que lhes proporciona um alto padrão de vida material. Suas pesquisas — é maravilhoso como Deus ajuda a inteligência humana — deveriam tê-los levado a se aproximar de Deus, porque, na medida em que são realidades verdadeiras e boas, elas procedem de Deus e levam a Ele.
6b.
No entanto, não é esse o caso: eles tampouco, apesar de seu progresso, são mais humanos. Não podem ser, porque, quando falta a dimensão divina, a vida do homem — não importa quanta perfeição material ele alcance — é vida animal. Somente quando o homem se abre para o horizonte religioso é que satisfaz sua ânsia de distinguir-se dos animais: a religião, de um certo ponto de vista, é como a maior rebelião do homem, que não quer ser animal.
6c. Cristo alfa e ômega, princípio e fim
Na ordem religiosa, filhas e filhos meus, não há progresso, não há possibilidade de avanço. O cume desse progresso já ocorreu: é Cristo, alfa e ômega, princípio e fim.20 Por isso, na vida espiritual não há o que inventar; só cabe lutar para identificar-se com Cristo, para ser outros Cristos — ipse Christus —, para se apaixonar e viver com Cristo, que é o mesmo ontem e hoje e sempre será o mesmo: Iesus Christus heri et hodie, ipse et in sæcula.21 Compreendeis que eu vos repita, uma e outra vez, que não tenho outra receita para vos dar a não ser esta: a santidade pessoal? Não há mais nada, meus filhos, não há mais nada.
7
Fermento para divinizar os homens
Torna-se necessário um fermento, uma levedura que divinize os homens e, ao torná-los divinos, ao mesmo tempo os torne verdadeiramente humanos. Até mesmo muitos dos que se dizem discípulos de Jesus, dos que se mostram oficialmente piedosos, têm necessidade de fermento. O fermento torna a massa macia e leve, deixa-a esponjosa, transforma-a, conferindo-lhe as condições próprias para a alimentação. Sem fermento, a farinha e a água não produziriam nada além de uma massa compacta, indigesta e pouco saudável.
7b. O fermento são sempre uns poucos
Deus Nosso Senhor, no meio das grandes deserções, sempre reservou para Si um resto de homens fiéis, que agissem na massa como fermento. Voltará um resto, um resto de Jacó, ao Deus forte; porque, ainda que teu povo fosse, Israel, como as areias do mar, só um resto voltará;22 o fruto restante permanece na oliveira quando é sacudida, quando se faz o rebusco,23 disseram os profetas. também no tempo presente — escreveu São Paulo aos romanos — permaneceu um resto, em virtude de uma eleição feita por pura graça.24 Jesus colocou alguns como fermento: aquele grupo de homens santos e de santas mulheres, que colaboravam com os primeiros, em cujos corações Ele havia feito uma semeadura maravilhosa.
8
Eu fazia notar aos vossos primeiros irmãos que nós éramos poucos. E, com firme segurança, dizia-lhes: melhor! Existem multidões à frente? Mas nós estamos unidos pelo amor.
E eles, embora aparentemente estejam
unidos, de fato vivem dispersos, porque lhes uniu o ódio: o ódio que sempre existiu, o ódio que brota da vida egoísta, da eterna luta das criaturas rebeldes contra seu Criador. E acrescentava: queremos ser mais? Sejamos, então, melhores!
8b. O fermento atua lentamente
Filhos da minha alma, o efeito do fermento não se produz abruptamente, nem violenta nem parcialmente, mas com lentidão, sem pressa, pela virtude intrínseca que atua sobre toda a massa. E podeis comprovar — hoje que já somos, pela graça de Deus, uma multidão — a ação de um fermento: daqueles poucos da primeira hora, que tiveram fé em Deus e neste pobre pecador, que foram — como sois vós atualmente, num ambiente quase universal — um fermento eficaz, pela força da vida sobrenatural, do trabalho e do espírito de sacrifício alegre.
9
Ignem veni mittere in terram
Durante anos, inflamava-me no amor a Deus a consideração da ânsia de Jesus por incendiar o mundo com seu fogo. E eu não podia conter dentro de mim aquele fervor que se abria impetuosamente em minha alma e que, expressando-se nas próprias palavras do Mestre, saía aos gritos da minha boca: ignem veni mittere in terram, et quid volo nisi ut accendatur?... Ecce ego quia vocasti me;25 fogo vim trazer à terra, e o que eu quero senão que queime?... Aqui estou, porque me chamaste.
9b. Desejo magnânimo de servir a todas as almas
Todos os meus filhos devem sentir esse desejo magnânimo de colocar todo o empenho, com o sacrifício que seja necessário, para que se ativem as energias enclausuradas e entorpecidas dos homens a serviço de Deus, fazendo próprio aquele clamor do Senhor: misereor super turbam26, tendo carinho pela multidão.
9c.
Ninguém pode viver tranquilo, no Opus Dei, sem experimentar inquietação diante das massas despersonalizadas: rebanho, manada, piara, já lhes disse certa vez. Quantas paixões nobres existem em sua aparente indiferença, quantas possibilidades! É preciso servir a todos, impor as mãos sobre cada um, como fazia Jesus — singulis manus imponens27—, a fim de os trazer de volta à vida, de curá-los, de iluminar suas inteligências e fortalecer suas vontades, de que sejam úteis! E faremos do rebanho, exército; da manada, mesnada; e extrairemos da piara aqueles que não queiram ser impuros.
9d. A Obra já tem fragrância de campo amadurecido
A Obra hoje tem fragrância do cam po amadurecido,28 e — perante a fecundidade do labor — não é preciso ter fé para perceber que o Senhor abençoou generosamente o nosso trabalho. Há anos, fazendo oração em agradecimento ao Senhor, cantei para a Obra aquela quadra da minha terra: botãozinho, botãozinho,/ já estás ficando rosa:/ já está chegando o tempo,/ de dizer-te alguma coisa. Meus filhos, hoje tendes em vossas mãos algumas belíssimas rosas, esplêndidas, mesmo que tenham espinhos. Este é o momento de não adormecer, de vibrar, para recolher — e entregar a Jesus Cristo e sua Igreja Santa — a colheita conquistada com tanto esforço.
10
Labor de São Gabriel: dar sentido cristão a toda a sociedade
Todo o nosso trabalho apostólico almeja diretamente dar sentido cristão à sociedade humana, mas com a obra de São Gabriel preenchemos todas as atividades do mundo com um conteúdo sobrenatural que — à medida que for se espalhando — contribuirá eficazmente para resolver os grandes problemas dos homens.
10b. Plenitude da vocação dos Supernumerários
Entre os Supernumerários encontra-se toda a gama de condições sociais, profissões e ofícios. Todas as circunstâncias e situações da vi- da são santificadas por esses meus filhos — homens e mulheres — que, dentro de seu estado e situação no mundo, se dedicam a buscar a perfeição cristã com plenitude de vocação.
10c.
Digo com plenitude de vocação porque — nas circunstâncias em que Deus providencialmente os colo- cou — eles se esforçam por corresponder com total generosidade ao que o Senhor lhes pede chamando - -os à sua Obra: um serviço sem reservas, como cidadãos católicos responsáveis, à Igreja Santa, ao Romano Pontífice e a todas as almas.
10d. Sentido vocacional do matrimônio
A maior parte dos meus filhos Supernumerários vive no estado matrimonial, e para eles o amor e os de- veres conjugais fazem parte de sua vocação divina. O Opus Dei fez do matrimônio um caminho divino, uma vocação. Há mais de trinta anos venho procurando inculcar na alma de muitas pessoas o sentido vocacional do matrimônio; e ensinando — isto não sou eu quem digo: a Igreja o definiu29 — que a virgindade, e também a castidade perfeita, é superior ao matrimônio; exaltamos o matrimônio a ponto de fazer dele uma vocação. Que olhos cheios de luz eu mais de uma vez vi quando, acreditando — eles e elas — serem incompatíveis em suas vidas a entrega e um amor nobre e limpo, ouviam-me dizer que o matrimônio é um caminho divino na terra! Voltarei a falar deste ponto mais tarde.
11
Nicodemos e José de Arimateia
Entre os discípulos de Cristo estava representada toda a sociedade de seu tempo: seguiam-nO pessoas comuns, bem como homens in fluentes. Muitas vezes, fiz com que reparásseis nestes dois discípulos: Nicodemos, doutor da lei e homem importante — membro do Sinédrio, talvez —, e José de Arimateia, rico, da aristocracia leiga da suprema corte de Jerusalém. Eles agiam de forma discreta e silenciosa, firmes na vida pública aos imperativos de sua consciência,30 valentes e audazes, com o rosto descoberto na hora difícil.31 Sempre pensei — e assim vos disse — que esses dois homens compreenderiam muito bem, se vivessem hoje, a vocação dos Supernumerários do Opus Dei.
11b. Pessoas de todas as condições sociais
Assim como entre os primeiros seguidores de Cristo, toda a sociedade de hoje está presente em nossos Supernumerários, e sempre estará: intelectuais e homens de negócios; profissionais e artesãos; empresários e operários; pessoas da diplomacia, do comércio, do campo, das finanças e das letras; jornalistas, homens do teatro, do cinema e do circo, esportistas. Jovens e anciãos. Sãos e enfermos. Uma organização desorganizada, como a própria vida, maravilhosa; especialização verdadeira e autêntica do apostolado, porque todas as vocações humanas — limpas, dignas — se tornam apostólicas, divinas.
11c.
Interessam-nos pessoas que procedem de todas as profissões e ofícios, de todas as condições sociais, das mais diversas situações que existem ou possam existir, nesse entrelaçado de serviços mútuos que é a sociedade humana: porque todo esse conjunto de interrelações vivas deve ser penetrado pelo fermento de Cristo.
12
Todas as tarefas cooperam com a obra da redenção
Notai, meus filhos, que não damos destaque a algumas profissões ou condições sociais em todas elas — sem discriminação, sem mentalidade de classe — é o que têm de serviço à comunidade, de forma que elevamos e engrandecemos até mesmo os ofícios que, aos olhos de alguns, têm pouca consideração social. Todas essas tarefas cooperam para o bem temporal de toda a humanidade e, se forem cumpridas com perfeição e por uma razão sobrenatural — se forem espiritualizadas —, cooperam também com a obra divina da redenção, fomentam a fraternidade entre todos os homens, fazendo com que se sintam membros da grande família dos filhos de Deus.
12b. Não tiramos ninguém do seu lugar: Cada um em ali, nessas circunstâncias em que seu próprio ambiente o Senhor o chamou, cada um deve santificar-se e santificar o seu ambiente, a parcela humana à qual está vinculado, pela qual se justifica sua existência no mundo. Também nisso temos o mesmo sentimento dos primeiros cristãos.
12c.
Lembrem-se do que São Paulo escreveu aos fiéis de Corinto: que cada um permaneça no estado em que foi chamado. Foste chamado na servidão? Não te preocupes e, mesmo que possas te libertar, aproveita tua servidão. Pois aquele que, sendo servo, foi chamado pelo Senhor é um homem livre do Senhor. E, da mesma forma, aquele que recebeu a chamada sendo livre é um servo de Cristo. Fostes comprados por um grande preço: não vos torneis escravos dos homens. Irmãos, que cada um persevere diante de Deus, na condição em que foi chamado por Ele.32
13
Em todos os níveis da sociedade
Em todos os níveis da sociedade, busquem especialmente — com a de Deus — vocações para sua Obra entre aquelas pessoas que, pelo seu trabalho, se encontram em centros vitais de convivência humana, naquelas situações que constituem, por assim dizer, elos ou locais de encontro e interseção de densas relações sociais.
13b.
Não me refiro apenas às posições de liderança de uma comunidade nacional ou superior, a partir das quais — com espírito de serviço — tanto bem pode ser feito a fim de garantir que a sociedade se estruture de acordo com as exigências de Cristo, que são garantia de verdadeira paz e autêntico progresso social.
13c. Ajudar a despertar a consciência
Refiro-me também — porque interessam tanto ou mais — àquelas funções, profissões ou ofícios que, na esfera das sociedades menores, são, por sua natureza, meios de contato com uma multidão de pessoas, a partir dos quais se pode formar sua opinião de modo cristão, influir em sua mentalidade, despertar sua consciência, com esse constante afã de dar doutrina que deve caracterizar todos os filhos de Deus em sua Obra.
13d
Por isso, tenho dito com frequência que interessa — é do interesse de Deus Nosso Senhor — que haja muitas vocações entre as pessoas que são peças-chave nas cidades: pessoas de corporações municipais — secretários municipais, vereadores etc. —, professores, barbeiros, vendedores ambulantes, farmacêuticos, parteiras, carteiros, garçons, empregadas domésticas, jornaleiros, balconistas etc.
13e. Impregnar de espírito cristão todas as atividades do mundo
Nosso trabalho deve alcançar até o último povoado, porque o afã de amor e paz que nos move impregnará de espírito cristão todas as atividades do mundo, por meio desse trabalho capilar que cuida de conformar de modo cristão as células vivas que formam as comunidades superiores. Não deve haver nenhuma cidade sem algum Supernumerário que irradie nosso espírito. E, de acordo com nossa maneira tradicional de fazer as coisas, esse meu filho procurará imediatamente transmitir a outros a sua santa inquietação: e logo haverá um grupo de filhos de Deus em sua Obra que será convenientemente atendido — com as viagens e visitas que se tornarem necessárias, para que não se debilite, mas permaneça vibrante e ativo.
13f. Denominador comum e numerador libérrimo
Depois de ter apontado a completa diversidade dos sócios da Obra, compreende-se perfeitamente nossa pluralidade: nas coisas da fé ou nas do espírito do Opus Dei, que são o mínimo denominador comum, podemos falar em termos de nós; em todas as outras, em tudo o que é temporal e em tudo o que é teologicamente opinável — um numerador imenso e libérrimo —, nenhum dos meus filhos pode dizer nós: deveis dizer eu, tu, ele.
14
Extensão do trabalho apostólico
Sabeis muito bem, meus filhos, que nosso trabalho apostólico não tem tem uma finalidade especializada33: todas as especializações, porque está enraizado na diversidade de especializações da própria vida; porque exalta e eleva à ordem sobrenatural, e converte em autêntico trabalho de almas, todos os serviços que uns homens prestam aos outros na engrenagem da sociedade humana.
14b. O trabalho dos religiosos
Nos últimos séculos, os religiosos de vida ativa, procurando aproximar-se do mundo — ainda que sempre de fora —, tentaram especializar seus apostolados e infundir o espírito cristão em certas tarefas humanas: educação, beneficência etc. Um trabalho benemérito, embora muitas vezes não tivesse tanto a finalidade de configurar ou expressar a vocação dos religiosos quanto a de suprir a falta de iniciativa dos cidadãos católicos. Estes, talvez porque sua formação cristã tivesse sido negligenciada, não sentiam a responsabilidade de cristianizar as instituições temporais.
14c. Testemunho consagrada de vida
No entanto, os religiosos, nessa tarefa — não específica de sua vocação, mas de suplência —, ao buscar a especialização, viam-se limitados, pois há muitos campos humanos que, mesmo sendo nobres e limpos, são absolutamente incompatíveis com o estado próprio dessas almas, cuja principal missão comum está em oferecer ao mundo — do qual elas se segregaram santamente — o testemunho de sua vida consagrada. Além disso, o laicismo dos últimos tempos — em muitos países, mesmo católicos — está expulsando os religiosos das escolas e instituições de caridade, ou — pelo menos — limitando suas atividades não estritamente religiosas.
14d. O apostolado da Obra está aberto a todos os campos
Com o apostolado da Obra, os leigos, sem suplência de nenhum tipo,34 mas tomando posse — com consciência plena e responsável — do campo específico que Deus lhes indicou como lugar de sua missão na Igreja, realizam um apostolado cujas possibilidades de especialização são imprevisíveis, uma vez que se confundem com as possibilidades do trabalho humano e suas funções sociais; e, sem imobilismo, esse apostolado está aberto a todas as mudanças de estrutura que possam ocorrer, ao longo do tempo, na configuração da sociedade.
14e.
Não posso, agora, deixar de considerar que é muito difícil que os religiosos se sintam com uma vocação profissional secular e atual — se a tivessem, não seriam religiosos — e que formá-los para um trabalho profissional é difícil, caro, sobreposto e artificial: penso que somente um número muito pequeno de pessoas poderia, nessas condições, atingir o nível profissional médio das pessoas da rua.
15
Preocupação e responsabilidade por toda a Igreja Santa
Por essa razão, podemos dizer, meus filhos, que pesa sobre nós a preocupação e a responsabilidade de toda a Igreja Santa — sollicitudo totius Sanctae Ecclesiae Dei —, e não desta ou daquela parcela específica. Secundando a responsabilidade oficial — jurídica, de iure divino — do Romano Pontífice e dos Reverendíssimos Ordinários, nós, com uma responsabilidade não jurídica, mas espiritual, ascética, de amor, servimos toda a Igreja com um serviço de caráter profissional, de cidadãos que levam o testemunho cristão do exemplo e da doutrina até os últimos recantos da sociedade civil.
15b. Associação de natureza universal
A história demonstra o papel decisivo que, em momentos difíceis para a unidade da Igreja, desempenharam as obras de caráter universal, como as Ordens e as Congregações Religiosas. Nós, com uma vocação que nada tem que ver com a dos religiosos, constituímos uma Associação de caráter universal, também com uma hierarquia interna universal, que nos distingue claramente35 dos chamados movimentos de apostolado e nos torna um instrumento coeso e eficaz a serviço da Igreja e do Romano Pontífice.
16
Santidade pessoal para ser eficaz
Vossa eficácia, meus filhos, será consequência de vossa santidade pessoal, que resultará em obras responsáveis, que não se escondem no anonimato. Cristo Jesus, Semeador, aperta-nos — como ao trigo — em sua mão chagada, inunda-nos com o seu sangue, purifica-nos, limpa-nos, embriaga- -nos! E então, generosamente, lança-nos no mundo, um a um, como devem ir seus filhos do Opus Dei, espalhados: pois o trigo não é semeado a sacos, mas grão a grão.
16b. Dar frutos abundantes de apostolado
Vós sois luz no Senhor; comportai-vos, portanto, como filhos da luz. O fruto da luz é todo bondade, justiça e verdade.36 É inconcebível — seria uma falsidade, uma vida dupla, uma comédia — a vida de um filho meu que não desse frutos abundantes de apostolado. Digo-vos mais uma vez que esse meu filho estaria morto, podre!: iam foetet.37 E eu bem o sabeis — enterro piedosamente os cadáveres.
16c.
Por meio do relacionamento individual com vossos colegas de profissão ou ofício, com vossos parentes, amigos e vizinhos, num trabalho que muitas vezes chamei de apostolado de amizade e confidência, vós sacudireis a sonolência deles, abrireis amplos horizontes para a sua existência egoísta e aburguesada, complicareis suas vidas, fazendo-os esquecer de si mesmos e compreender os problemas dos que estão ao seu redor. E tendes a certeza de que, ao complicar suas vidas, vós os levais — já o experimentastes — ao gaudium cum pace, à alegria e à paz.
16d. Imagem dos primeiros cristãos
Esse apostolado pessoal — que não é um trabalho anárquico, porque nele vós seguis as orientações doutrinais ou práticas de vossos Diretores —, se o realizardes com constância, criará um ambiente sereno ao vosso redor, e reproduzireis em vossas casas a imagem daquelas casas dos primeiros fiéis cristãos.
16e. Tudo é meio de apostolado
No exercício desta obra apostólica individual, procurais aproximar as pessoas com quem vos relacionais dos meios coletivos de formação espiritual e doutrinal que a Obra organiza — retiros espirituais, conferências, círculos etc. — e da direção espiritual com os nossos sacerdotes: porque esses meios são eficacíssimos — necessários — para completar o atendimento dessas almas de que cada um de vós cuida, servindo-se da vossa vida profissional, do lugar que ocupais no mundo, da vossa situação familiar; servindo-se de tudo, porque tudo é meio de apostolado.
17
Orientar as estruturas humanas com sentido cristão
Mas vós não podeis parar por aí. Não podeis ficar satisfeitos quando já tiverdes levado alguns de vossos parentes ou amigos a um retiro espiritual, ou quando os tiverdes colocado em contato com algum sacerdote da Obra. Vosso trabalho apostólico não termina aí. Porque é preciso perceber também que realizais um apostolado fecundíssimo quando vos esforçais por orientar com sentido cristão as profissões, as instituições e as estruturas humanas nas quais vós trabalhais e vos moveis.
17b.
Garantir que essas instituições e essas estruturas estejam em conformidade com os princípios que regem uma concepção cristã da vida é realizar um apostolado de
base muito ampla, porque — ao encarnar desse modo o espírito de justiça — vós garantis aos homens os meios para que vivam de acordo com a sua dignidade e facilitais para muitas almas que, com a graça de Deus, possam responder pessoalmente à vocação cristã.
17c. Justiça e caridade
Quando me ouvirdes falar de justiça, não entendais essa palavra em sentido estrito, porque — para que os homens sejam felizes — não basta estabelecer suas relações baseados na justiça, que dá a cada um o que é seu com frieza: falo-vos de caridade, que pressupõe e ultrapassa a justiça; e da caridade de Cristo, que não é caridade oficial, mas carinho.
18
Semeando paz e amor
Portanto, ao atuar em sociedade, evitai sempre confrontar uns homens com os outros, porque um cristão não pode ter uma mentalidade de classe, de casta; vós não afundais uns para elevar outros, pois nessa atitude sempre se esconde uma concepção materialista: dai a todos a oportunidade de que desenvolvam a própria personalidade e elevem a própria vida por meio do trabalho; e não vos conformeis em evitar o ódio, porque o nosso denominador comum deve ser o de semear paz e amor.
18b.
Ao empreenderdes vosso trabalho, seja ele qual for, fazei, meus filhos, um exame para verificar, na presença de Deus, se o espírito que inspira essa tarefa é de fato um espírito cristão, tendo em vista que a mudança das circunstâncias históricas — com as modificações que ela introduz na configuração da sociedade — pode
fazer com que aquilo que era justo e bom em determinado momento deixe de sê-lo. Por isso, essa crítica construtiva deve ser incessante em vós, impossibilitando a ação paralisante e desastrosa da inércia.
19
Descobrir o sentido divino da realidade
Devemos conquistar para Cristo todo valor humano nobre: estai atentos a tudo o que seja verdadeiro, honrado, justo, puro, amável, virtuoso e digno de louvor.38 Devemos levar imediatamente a Deus qualquer realidade que apareça na vida dos homens, descobrindo seu significado divino. Por isso, como repeti tantas vezes, é necessário que nunca percais o ponto de mira sobrenatural. tudo o que fizerdes de palavra ou obra, fazei tudo em nome do Senhor Jesus, dando graças a Deus Pai por meio Dele.39
19b.
Sempre de acordo com as estruturas temporais, sempre atualizados, vós nunca necessitareis — como se diz hoje em dia — de aggiornamento, pois terão a todo momento uma esperança compreensiva e responsável para com o mundo de todas as épocas, exigindo que sejam afirmados os valores da liberdade, da dignidade da pessoa, sempre com desejo de unidade e de amor nesse serviço.
19c. Amor ao mundo que palpita no cristianismo
Quis o Senhor que, com a nossa vocação, manifestássemos aquela visão otimista da criação, aquele amor ao mundo que palpita no cristianismo. Nunca deve faltar entusiasmo em vosso trabalho e em vosso esforço por construir a cidade temporal, ainda que, ao mesmo tempo, como discípulos de Cristo que crucificaram a carne com suas paixões e concupiscências,40 vós procureis manter vivo o sentido do pecado e da reparação generosa diante do falso otimismo daqueles que, inimigos da cruz de Cristo,41 fundamentam tudo no progresso e nas energias humanas.
19d. Sem esquecer do pecado
Eles cometem o grande pecado de esquecer o pecado, que alguns até pensam já terem eliminado. Não consideram que faz parte da economia redentora que o grão de trigo, para ser fértil, deva afundar-se na terra e morrer.42O fim desses homens será a perdição, seu Deus é o ventre, e a confusão será a glória daqueles que têm o coração voltado para as coisas terrenas. Porque nós somos cidadãos do céu, de onde esperamos o Salvador e Senhor Jesus Cristo, que transfigurará a miséria do nosso corpo à imagem de seu corpo glorioso, em virtude do poder que tem de subjugar todas as coisas a Si.43
20
Presentes em todas as atividades dos homens
Com esse sentido de profunda humildade — forte em nome de nosso Deus, e não nos recursos dos nossos carros de combate e dos nossos cavalos44 —, estai presentes sem medo em todas as atividades e organizações dos homens, a fim de que Cristo nelas esteja presente. Eu apliquei ao nosso modo de trabalhar estas palavras das Escrituras: ubicumque fuerit corpus, illic congregabuntur et aquilae,45 porque Deus Nosso Senhor nos pediria contas estritas se, por descuido ou comodismo, cada um de vós, livremente, não procurasse intervir nas obras e decisões humanas, das quais dependem o presente e o futuro da sociedade.
20b. Atuação prudente e nada tímida
É muito própria da nossa vocação a intervenção prudente — e, quando digo prudente, não digo tímida —, ativa e discreta, da maneira como atuam os anjos, que têm uma ação invisível mas eficacíssima, nas diversas associações e corporações — públicas ou não — de âmbito local, nacional ou internacional.
20c. Promover todo tipo de organizações
Não podeis estar ausentes — seria uma omissão criminosa — das assembleias, congressos, exposições, reuniões de cientistas ou de operários, programas de estudo; numa palavra, de todas as iniciativas científicas, culturais, artísticas, sociais, econômicas, esportivas etc. Às vezes, promovendo-as vós mesmos; na maior parte das vezes, elas terão sido organizadas por outros, e vós participareis. Seja como for, esforçar-vos-ei para não as assistir passivamente, mas sentindo a carga — amável carga — de vossa responsabilidade, procurando que vos torneis necessários — por seu prestígio, por sua iniciativa, por seu impulso —, de maneira a lhes dar o tom conveniente e infundir o espírito cristão em todas essas organizações.
21
E participar individualmente em associações oficiais e privadas
Individualmente, sem formar um grupo — é impossível que o façais, pois todos e cada um gozam de liberdade ilimitada em tudo o que é temporal —, participai ativa e efetivamente em associações oficiais ou privadas, porque elas nunca são indiferentes ao bem temporal e eterno dos homens. Até mesmo uma sociedade de caçadores ou de colecionadores, só para dar um exemplo, pode ser utilizada para se fazer muito bem ou muito mal: tudo depende dos homens que as governem ou inspirem.
21b.
Embora, como vos disse, vós trabalheis nesses terrenos individualmente — com liberdade e responsabilidade pessoais —, sabei que prestais um serviço a Deus, nosso Senhor, ao formar ao vosso redor outros irmãos — orientando-os; sem distorcer, como é lógico, suas próprias inclinações — que possam vir a substituir-vos ou suceder-vos, de modo que nunca, por falta de um de vós, fique a descoberto uma parcela do campo.
22
Assim atuaram os primeiros cristãos
Assim atuaram os primeiros cristãos. Eles não tinham, em razão de sua vocação sobrenatural, programas sociais ou humanos a cumprir; estavam, no entanto, embebidos de um espírito, de uma concepção da vida e do mundo, que não podia deixar de ter consequências na sociedade em que se moviam.
22b. Apostolado pessoal
Com um apostolado pessoal semelhante ao nosso, foram fazendo prosélitos, e durante o cativeiro Paulo já enviava às igrejas as saudações dos cristãos que viviam na casa do César.46 Não vos comoveis com aquela carta encantadora que o Apóstolo dirige a Filêmon e que é um testemunho vivo de como o fermento de Cristo — sem assim o pretender diretamente — deu novo sentido, pelo influxo da caridade, às estruturas da sociedade heril?47
22c.
Somos de ontem e já enchemos o orbe e todas as vossas coisas: as cidades, as ilhas, as aldeias, os municípios, os conselhos, os próprios acampamentos, as tribos, as decúrias, o palácio, o senado, o fórum: só vos deixamos os vossos templos, escrevia — pouco depois de um século —Tertuliano.48
23
Cheios de esperança e de ânimo
Meus filhos, enchei-vos de esperança e de ânimo: sem pausa, trabalhemos pela paz e por nossa mútua edificação.49Não devolvais o mal pelo mal; procurai fazer o bem, não só diante de Deus, mas também diante de todos os homens. Se possível, e na medida em que dependa de vós, tende paz com todos.50
23b. Os filhos das trevas e os filhos da luz
Lembrai-vos muitas vezes, para que vos sirva de incentivo, da queixa do Senhor: filii huius sæculi prudentiores filiis lucis in generatione sua sunt; os filhos das trevas são mais prudentes que os filhos da luz. Palavras duras, mas muito exatas, porque, infelizmente, cumprem-se todos os dias.
23c.
Enquanto isso, os inimigos de Deus e de sua Igreja mexem-se e se organizam. Com uma constância exemplar, preparam seus quadros, mantêm escolas onde treinam dirigentes e agitadores e, com uma ação dissimulada — porém eficaz —, propagam suas ideias e levam aos lares e aos locais de trabalho sua semente destruidora de toda ideologia religiosa.
23d. Marxismo
Hoje, meus filhos, o marxismo —
em suas diferentes formas — está ativo: sistematicamente, tenta dar fundamento científico ao ateísmo e, com uma propaganda incessante, não tanto clamorosa quanto individual, critica toda insinuação de religião e, configurando-se como uma fé e uma esperança terrenas, deseja substituir a verdadeira Fé e a verdadeira Esperança.
23e. Aqueles que dão a mão aos inimigos de Deus
Não compreendo essas pessoas que se dizem católicas e que abrem os braços ao marxismo — tantas vezes condenado pela Igreja como incompatível com sua doutrina —, que apertam as mãos dos inimigos de Deus e tratam como inimigos os católicos que não pensam como eles. O católico que maltrata outros católicos e trata com aparente caridade os que não o são erra gravemente, erra contra a justiça, encobrindo o seu erro com uma falsa caridade. Porque, se a caridade não for ordenada, deixa de ser caridade.
24
Meus filhos, do inimigo o conselho.51 Estai avisados, sede prudentes e não adormeçais: hora est iam nos de somno surgere,52 é hora de sacudir a preguiça e a sonolência. Não vos esqueçais de que certos lugares na terra que noutros tempos foram testemunhas de igrejas florescentes são agora um terreno baldio, onde não se pronuncia o nome de Cristo. Seria comodismo tentar justificar esse fracasso pensando que está nos planos divinos escrever reto por linhas tortas e que, no final, a causa de Deus sempre triunfa. É verdade que Cristo triunfa sempre, mas, muitas vezes, apesar de nós.
24b.
Sem espírito belicoso ou agressivo, in hoc pulcherrimo caritatis bello, com uma compreensão que acolhe a todos e colabora com todos os homens de boa vontade — também com os que não conhecem ou não amam Jesus Cristo, sem transigir com os erros que professam —, não vos esqueçais de que o Senhor disse: não penseis que vim trazer paz à terra; não vim trazer a paz, mas a espada.53 É muito fácil prestar atenção apenas à mansidão de Jesus e deixar à margem — porque perturbam o conforto e o conformismo — as palavras, também divinas, com as quais Ele nos estimula a complicar nossas vidas.
25
Defesa da verdade, afogando o mal em abundância de bem
Nós os homens não gostamos, em geral, de dizer e sustentar a verdade, uma vez que é mais cômodo tentar ser aceitos por todos, não correr o risco de desagradar alguém. Nossa atitude deve ser, meus filhos, de compreensão, de amor. Nossa atuação não se dirige contra ninguém, nunca pode ter matizes de sectarismo: esforçamo-nos por afogar o mal em abundância de bem. Nosso trabalho não é trabalho negativo: não é antinada. É afirmação, juventude, alegria e paz. Mas não às custas da verdade.
25b. Pensar por conta própria
Por cultivarmos a livre personalidade de cada um, os filhos de Deus em sua Obra somos pessoas que sabem pensar por conta própria, que não aceitam, sem mais, os clichês, os lugares comuns que causam furor — que estão na moda — por um certo tempo. Nossa formação ensina-nos a realizar um trabalho de triagem, que aproveita o que é bom e deixa de lado o resto. Muitas vezes teremos de ir — fomos quase sempre — contra a corrente, abrindo canais e caminhos novos. Não por desejo de originalidade, mas por lealdade a Jesus Cristo e à sua doutrina. Fácil é deixar-se levar, mas as posturas fáceis também são muitas vezes atitudes que demonstram falta de responsabilidade.
25c.
É verdade que deveis viver, em todos os momentos, entre as pessoas do vosso tempo, de acordo com sua mentalidade e seus costumes, mas sempre prontos a dar razão de vossa esperança54 em Jesus Cristo; não vá acontecer que, porque não precisais vos adaptar — já que estais no meio de vossos iguais —, não se possa distinguir que sois discípulos do Senhor. Quanto sentimentalismo, medo, covardia há em certas ânsias de adaptação!
26
Compreensão sem discriminação nem exclusivismo
Filhos da minha alma, não vejais por trás das minhas palavras mais do que um amor muito grande por todos os homens, um coração aberto a todas as suas inquietações e problemas, uma compreensão imensa, que nada sabe de discriminações ou exclusivismos. E entendei que não é o medo — porque não temos medo de nada nem de ninguém, nem de Deus que é nosso Pai —, mas o sentimento da responsabilidade de que um dia haveremos de prestar contas ao Senhor da nossa missão corredentora, o que nos impele — caritas enim Christi urget nos55— a não desmaiar, a nos encontrarmos sempre insatisfeitos com as etapas adquiridas, a não descansarmos em nossos louros!
26b.
Sem frouxidão, fervorosos de espírito56, aproveitai o tempo57, porque a vida é breve: enquanto há tempo, façamos o bem a todos, especialmente aos irmãos na fé.58 Enchei de amor este pobre mundo nosso, porque ele é nosso: é obra de Deus, e Ele no-lo deu em herança: dabo tibi gentes hereditatem tuam et possessionem tuam terminos terrae.59 Tende em conta que o possível faz qualquer um, e Deus Nosso Senhor nos pede — e nos dá sua graça para consegui-lo — que façamos coisas que parecerão impossíveis.
27
Não permaneceis em idealismos: sede realistas. Enxergais coisas assaz grandes, tanto campo para trabalhar, tanto labor e tantas possibilidades, e pode acontecer que, depois de contemplá-los, fiqueis satisfeitos e vos esqueçais das coisas concretas — hodie, nunc — que hão de tornar possível que tudo isso chegue a tornar-se realidade um dia.
27b. Serenos
No meio desta formosíssima luta, permanecei serenos. As inquietações emaranhadas são perniciosas. Corripite inquietos,60 advertia Paulo à comunidade cristã de Tessalônica. Porque ouvimos — dizia-lhes — que alguns vivem entre vós na ociosidade, sem fazer nada, ocupados em se intrometer em tudo.61 E dava-lhes o único remédio, que não é outro senão o cumprimento do dever: quando fazemos o que temos de fazer e esta- mos no que fazemos, transformamos em realidade os grandes projetos de Deus. A esses — continuava o Apóstolo — ordenamos e rogamos, pelo amor do Senhor Jesus Cristo, que, trabalhando com serenidade, comam seu pão.62
28
Cristo no cume de todas as atividades humanas
Quanto espera o Senhor de vosso trabalho constante, vibrante e cheio de entusiasmo — mesmo que sem vibração e entusiasmo sensíveis, muitas vezes —, com o qual procurais cristianizar todas as atividades do mundo: colocar Cristo no cume de todas as atividades humanas!
28b. Trabalho das Supernumerárias
Esse trabalho é particularmente próprio dos meus filhos e, também, das minhas filhas Supernumerárias, tão fortes — às vezes mais do que os homens — em levar o sal e a luz de Cristo aos ambientes em que atuam: ao lar e à vida de relacionamento social, bem como ao exercício das mais variadas profissões.
28c. Judite
Tornai a ler aquela passagem do Antigo Testamento em que Judite muda a vontade do povo e de seus líderes, dispostos a entregar a cidade aos exércitos inimigos. Chegaram aos ouvidos de Judite — diz o texto sagrado — as desatinadas palavras que o povo havia dirigido ao chefe... e convocou os anciãos da cidade, Ocías, Cabris e Carmis, e, quando estes chegaram, disse-lhes: escutai-me, príncipes da cidade de Betúlia. Não é certo o que dissestes hoje ao povo... Quem sois vós para tentar a Deus, os que estais constituídos no lugar de Deus no meio dos filhos dos homens? Pretendeis colocar à prova Deus onipotente? Nunca acabareis de aprender?63 Trata-se de uma repreensão cheia de energia e audácia, e que é um expoente do que a mulher sobrenatural e valente, fiel à própria consciência, pode influenciar no curso da vida pública — normalmente de um modo calado, discreto e muito eficaz — quando se trata de defender os interesses de Cristo. Não deixeis de meditar também na força de Maria Santíssima e daquelas santas mulheres que permaneceram íntegras e firmes aos pés da cruz, quando os homens haviam desertado, na hora da covardia geral.
28d.
Minhas filhas e filhos, se mantiverdes este bom espírito, poderá aplicar - -se a vós o que o livro dos Atos diz hoje dos Apóstolos de Jesus: pelas mãos dos apóstolos muitos milagres e prodígios se realizavam no povo.64 Serão — os vossos — milagres sem espetáculo, mas tende a certeza de que serão verdadeiros milagres.
29
Liberdade e responsabilidade pessoal
Todos vós, no exercício de vossas profissões, em vossa vida pública e, geralmente, em tudo o que é temporário, atuais com liberdade e responsabilidade pessoal, formando vossas opiniões sempre de acordo com os ditames de vossa consciência, mas com uma diversidade maravilhosa. Vós não comprometeis — não podeis comprometer — nem a Igreja nem a Obra, porque tendes mentalidade totalmente laical e, portanto, amiga de uma liberdade que não é limitada por outras restrições além daquelas que são marcadas pela doutrina e a moral de Jesus Cristo.
29b. A Obra não tem interesses humanos
O fim e os meios da Obra de Deus não são temporais: são plena e exclusivamente sobrenaturais, espirituais. A Obra está à margem, é alheia aos interesses humanos, políticos, econômicos etc. É, por sua natureza, transcendente à sociedade terrena e nunca poderá, portanto, estar ancorada numa determinada cultura, nem ligada a circunstâncias políticas específicas, nem vincular-se a determinada época da história humana.
29c. Os labores corporativos não são atividades eclesiásticas
Às vezes, o Opus Dei, como corporação, promove tarefas e iniciativas apostólicas. São tarefas — de ensino, de propaganda cristã, assistenciais etc. — conhecidas por todos e abertas a todos, incluindo não católicos e não cristãos, e realizadas nos termos indicados pelas leis civis de cada país. Esses labores corporativos não constituem uma atuação eclesiástica, uma vez que são clara e simplesmente atividades profissionais dos cidadãos, embora com entranhas e fins apostólicos.
30
Consciência cristã ao viver as obrigações cívicas
Mas o fato de que a nossa Obra seja completamente alheia aos interesses da sociedade terrena, às empresas de ordem econômica ou social, às atividades políticas etc. não significa que permaneça indiferente ao espírito — ou à falta de espír ito — que anima as instituições da cidade temporal. Estamos interessados em garantir que os cidadãos estejam claramente conscientes de suas obrigações cívicas, que as cumpram com os critérios humanos corretos e com um sentido cristão da vida.
30b. Catecismo da Doutrina Cristã
Tenho dito muitas vezes que, no Catecismo da Doutrina Cristã que se ensina às crianças, deveriam ser incluídas algumas perguntas e respostas em que esses deveres fossem compilados, de modo que, desde a infância, ficasse gravado em suas inteligências que são preceitos divinos e, mais tarde, ao se tornarem adultos, elas sentissem em consciência a responsabilidade de os cumprir.
31
Anticlericalismo Saudável
Às vezes, essa distinção que o Senhor fez entre as coisas de Deus e as coisas de César é mal compreendida.65 Cristo distinguiu os campos de jurisdição de duas autoridades: a Igreja e o Estado, e assim advertiu quanto aos efeitos nocivos do cesarismo e do clericalismo. Ele estabeleceu a doutrina de um anticlericalismo saudável, que é amor profundo e verdadeiro ao sacerdócio — dá pena que a elevada missão sacerdotal seja rebaixada e aviltada ao se imiscuir em questões terrenas e mesquinhas —, e estabeleceu a autonomia da Igreja de Deus e a legítima autonomia da sociedade civil, quanto ao seu regime e estruturação técnica.
31b. A mensagem de Cristo ilumina toda a vida
Mas a distinção feita por Cristo não significa, de forma alguma, que a religião deva ser relegada ao templo — à sacristia —, nem que a ordenação dos assuntos humanos deva ser feita à margem de toda a lei divina e cristã. Porque isso seria a negação da fé de Cristo, que exige a adesão de todo o homem, alma e corpo; indivíduo e membro da sociedade.
31c.
A mensagem de Cristo ilumina a vida integral dos homens, o seu princípio e o seu fim, e não apenas o estrito campo de algumas práticas subjetivas de piedade. E o laicismo é a negação da fé com obras, da fé que sabe que a autonomia do mundo é relativa e que tudo neste mundo tem como sentido último a glória de Deus e a salvação das almas.
32
Direitos inalienáveis de Cristo
Por esse motivo, vós entendereis que a Obra — tal como a Igreja, da qual ela é um órgão vivo — está interessada na sociedade humana, pois nela há direitos inalienáveis de Cristo que devem ser protegidos. E isso a tal ponto que se pode dizer que todo o apostolado do Opus Dei se reduz a dar doutrina, a fim de que todos os seus membros e as pessoas que se aproximam de sua formação exerçam individualmente — como cidadãos — uma ação apostólica de caráter profissional, santificando a profissão, santificando-se na profissão e santificando os outros com a profissão.
32b.
Afirmei repetidas vezes que a Obra não costuma atuar externamente: é como se não existisse. São os seus membros que, respeitando as leis civis de cada país, trabalham dentro delas. A atividade do Opus Dei visa sobretudo dar aos seus membros uma intensa formação espiritual, doutrinal e apostólica.
32c. O trabalho da Obra é uma grande catequese
O trabalho da Obra é como uma grande catequese, como uma imensa direção espiritual que ilustra, aconselha, move, estimula e alenta a consciência de muitas almas, para que não fiquem aburguesadas, mantenham viva sua dignidade
cristã, exerçam seus direitos e cumpram os deveres de cidadãos católicos responsáveis.
33
Formação dos Supernumerários
Minhas filhas e filhos Supernumerários, a formação que o Opus Dei vos dá é flexível: adapta-se, como a luva na mão, à situação pessoal e social de cada um. Deveis ser muito claros, na direção espiritual, a fim de expor as circunstâncias concretas de vosso trabalho, da família, das obrigações sociais, porque, sendo em nós único o espírito e únicos os meios ascéticos, eles podem e devem realizar-se em cada caso sem rigidez.
33b. Sinceridade e simplicidade
Falai sinceramente com vossos Diretores, a fim de que a liberdade e a paz de vosso espírito nunca sejam perturbadas diante das dificuldades que vierdes a encontrar — muitas vezes imaginárias — e que sempre têm solução. Tende presente que a formação espiritual que recebemos é o oposto da complicação, do escrúpulo, do constrangimento interior: o espírito da Obra nos dá liberdade de espírito, simplifica nossa vida, impede que sejamos retorcidos, emaranhados; faz com que nos esqueçamos de nós mesmos e que nos preocupemos generosamente com os outros.
33c.
Para receber a formação, só excepcionalmente deveis ir às casas em que os Numerários têm a vida em família: é mais discreto que vos encontreis com os Diretores e Zeladores em vossos locais de trabalho, em vossas casas, na rua, que é o lugar onde o Senhor nos chamou. E, para receber a formação coletiva,
não é nada indiscreto ir à sede de uma de nossas obras corporativas, que têm as portas e janelas escancaradas, porque estão abertas a todas as almas.
34
Formação ascética e formação doutrinal
A Obra, juntamente com a formação ascética, vos oferece uma sólida formação doutrinal que é parte
integrante desse denominador comum — ar de família — de todos os filhos de Deus em seu Opus Dei. Vós necessitais dessa base de ideias claras sobre os temas fundamentais a fim de poder iluminar tantas inteligências e defender a Igreja dos ataques que às vezes recebe de todos os lados: ideias claras sobre as verdades dogmáticas e morais; sobre as exigências da família e do ensino cristão; sobre os direitos ao trabalho, ao descanso, à propriedade privada etc.; sobre as liberdades fundamentais de associação, de expressão etc. Desta forma, sereis capazes de experimentar com alegria a verdade daquelas palavras: veritas liberabit vos66, porque a verdade vos dará alegria, paz e eficácia.
34b.
Nas Convivências anuais — que vos ajudam a conservar o fervor primitivo, a melhorar vossa cultura religiosa e a fortalecer-vos para o apostolado —, nos Círculos de Estudo, nas conferências, nos cursos especializados etc., recebeis doutrina abundante com assiduidade, ao mesmo tempo que sois informados sobre as questões candentes da atualidade, abordadas com critério cristão. Completais essa formação com leituras, pois sempre haverá bibliotecas circulantes à vossa disposição, das quais podeis participar como assinantes, tentando inscrever também outras pessoas que não pertencem à Obra.
34c.
Esforçai-vos muito por assimilar a doutrina que vos é dada, para que não fique estagnada; e senti a necessidade e o dever alegre de levar a outras mentes a formação que recebeis, a fim de que frutifique em boas obras, cheias de retidão, também no coração dos outros.
34d.
Pelo que acabei de dizer, é absolutamente necessário que os governos locais que servem aos Supernumerários tenham dedicação ao trabalho, porque nenhum deles — nenhum dos meus filhos — deve se sentir sozinho; e sua formação deve
ser cuidadosamente planejada durante as épocas de férias e períodos de isolamento.
34e.
Aqueles meus filhos aos quais são confiados o governo e a direção de seus irmãos muitas vezes terão de renunciar ao brilho de um trabalho pessoal para, como silhares ocultos, estabelecer as bases de um trabalho de muito maior alcance. E não devem esquecer que essas atividades de governo e formação, bem como as daqueles outros que se dedicam inteiramente aos nossos apostolados corporativos, também são sempre um trabalho profissional.
35
Plena liberdade em questões temporais
A Obra forma os seus membros para que cada um deles — com liberdade pessoal — atue de modo cristão no exercício de sua profissão, no meio do mundo. Em questões temporais, os Diretores da Obra nunca poderão impor uma opinião: cada um de vós — repito — vos comportais com plena liberdade, de acordo com os ditames de vossa consciência bem formada.
35b. Cada caminhante siga seu caminho
Em 1939, recém-acabada a guerra civil espanhola, dirigi um retiro espiritual, nas proximidades de Valência, que se realizou na escola de uma fundação privada que havia sido utilizada, durante a guerra, como quartel comunista. Num dos corredores, encontrei um grande cartaz, escrito por alguém que não era conformista, em que se lia: cadacaminhante siga seu caminho. Quiseram tirá-lo, mas eu lhes impedi: deixai-o — disse-lhes —, eu gosto: do inimigo o conselho.67 Sobretudo desde então, essas palavras me serviram muitas vezes como tema de pregação. liberdade: cada caminhante siga seu caminho. É absurdo e injusto tratar de impor a todos os homens um critério único em questões em que a doutrina de Jesus Cristo não coloca limites.
35c. Não se pode impor um critério único em questões temporais
Liberdade absoluta em tudo o que é temporal, porque não existe uma fórmula cristã única para ordenar as do mundo: há muitas fórmulas técnicas para resolver problemas sociais, científicos, econômicos, políticos; e todas serão cristãs, desde que respeitem esses princípios mínimos que não podem ser abandonados sem violar a lei natural e os ensinamentos evangélicos.
35d. Monopólios sob pretexto de unidade
Liberdade no que é temporal e também na Igreja, meus filhos. Sou muito anticlerical — com esse anticlericalismo saudável, do qual falo tantas vezes —, e quem tiver o meu espírito também o será. Com demasiada frequência, nos ambientes clericais — que não têm o bom espírito sacerdotal —, organizam-se monopólios com pretextos de unidade; trata-se de encerrar as almas em grupinhos; atenta-se contra a liberdade das consciências dos fiéis — que devem buscar a direção e a formação de suas almas onde julgarem mais adequado e com quem preferirem — e multiplicam-se preceitos negativos desnecessários — já seria muito que se cumprissem os mandamentos de Deus e da Igreja —, os quais se impõem psicologicamente a quem tem de cumpri-los.
36
Liberdade
Liberdade, meus filhos. Não espereis jamais que a Obra vos dê palavras de ordem temporais. Não teria o meu espírito aquele que pretendesse violentar a liberdade que a Obra concede aos seus filhos, atropelando a personalidade própria de cada um dos filhos de Deus no Opus Dei.
36b.
Sois vós — livremente — que deveis estar sensibilizados pela formação recebida, de tal forma que reajais espontaneamente perante os problemas humanos, as circunstâncias sociais incertas que precisam ser encaminhadas com critérios retos. Cabe a vós, com vossos concidadãos, correr corajosamente esse risco de procurar soluções huma- nas e cristãs — aquelas que vejais em consciência: não existe uma única — para as questões temporais que surjam em vosso caminho.
36c. Falso Paternalismo
Porque ficaríeis esperando em vão que a Obra vo-las desse prontas: isso não aconteceu, nem acontece, nem poderá jamais acontecer, porque é contrário à nossa natureza. A Obra não é paternalista, embora essa palavra seja ambígua, e portanto refiro-me ao sentido pejorativo. Os Diretores confiam na capacidade de reação e iniciativa que tendes: não vos conduzem pela mão. E, na ordem espiritual, eles têm em relação a vós sentimentos de paternidade, de maternidade!, de bom paternalismo.
36d. Não formamos um grupo de pressão
Portanto, é impossível que formemos, no seio da sociedade, o que hoje é chamado de grupo de pressão, pela própria liberdade de que desfrutamos no Opus Dei: pois, no momento em que os Diretores manifestassem um critério específico em coisa temporal, os outros membros da Obra que pensam diferente se rebelariam legitimamente, e eu me veria no triste dever de abençoar e elogiar aqueles que se recusassem categoricamente a obedecer — estes deveriam levar o assunto ao conhecimento dos Diretores Regionais, ou do Padre, o mais rápido possível — e repreender com santa indignação os Diretores que pretendessem fazer uso de uma autoridade que não podem ter. Também seriam dignos de grave repreensão aqueles meus filhos que — em nome de sua própria liberdade — pretendessem limitar a legítima liberdade de seus irmãos, tentando impor um critério pessoal em assuntos temporais ou opináveis.
36e.
Aqueles que se obstinam em não ver essas coisas com clareza e em inventar segredos, os quais nunca existiram e nunca serão necessários, certamente o fazem ex abundantia cordis, porque eles mesmos agem dessa maneira. E eles nunca poderão, como nós, manter a cabeça erguida e olhar nos olhos dos outros com uma luz clara: porque nós não temos nada a esconder, ainda que cada um tenha suas misérias pessoais, contra as quais luta em sua vida interior.
37
Pessoas que não entendem o nosso trabalho
Acontece que alguns, nestes trinta e um anos, olharam com ciúmes para o nosso trabalho; outros, com pouca simpatia, uma vez que não têm simpatia pela Igreja, a qual servi- mos para o bem de todos os homens; não faltaram alguns — poucos, felizmente — que, devido à sua mentalidade clerical, não foram capazes de entender o trabalho essencialmente laical de meus filhos; houve também outros que não souberam ou não quiseram lembrar que Deus Nosso Senhor concede sua graça — graça específica — às almas que se dedicam a Ele, e para explicar a intensidade, extensão e eficácia dos apostolados da Obra inventam causas humanas, totalmente falsas, uma vez que seus fins são sobrenaturais e os meios que empregamos também são exclusivamente espirituais, sobrenaturais: oração, sacrifício e trabalho santificado e santificante.
37b.
Há alguns que não são capazes de respeitar e compreender a liberdade pessoal dos outros, que parecem insensíveis a compreender que os membros do Opus Dei têm uma finalidade comum, a qual é somente de caráter espiritual, e que só estão de acordo quanto a essa finalidade; que são cidadãos livres em questões temporais, assim como os outros leigos — seus concidadãos — e devem viver fraternalmente com todos.
37c.
Algumas dessas pessoas — dizia — procedem de ambientes fechados de sacristia e estão acostumadas a ver que as pessoas religiosas geralmente expressam suas opiniões de acordo com a escola da respectiva família religiosa ou de acordo com a maneira de pensar de seus Superiores; e quiseram assim, com esse preconceito de mentalidade clerical, colocar no Opus Dei, ou em mim pessoalmente, um rótulo de monárquico ou republicano — isso quando não me chamaram de maçom — porque não
excluí nenhuma alma de nossa atividade de filhos de Deus.
38
Associações de fiéis
Vosso trabalho apostólico, meus filhos, não é uma tarefa eclesiástica. E, muito embora não haja inconveniente propriamente dito em que alguns de vós façam parte de associações de fiéis, isso não será o habitual, porque o apostolado específico para o qual a Obra vos prepara — aquele que Deus quer de nós — não tem um matiz confessional.68
38b. Humildade coletiva
Vivemos, com essa discrição, uma maravilhosa humildade coletiva, porque, trabalhando em silêncio, sem fazer alarde de sucessos ou triunfos — mas, repito, sem mistérios ou segredos, dos quais não necessitamos para servir a Deus —, vós passais despercebidos entre os outros fiéis católicos — porque é isso que sois: fiéis católicos —, sem receber aplausos pela boa semente que semeais.
38c.
No entanto, especialmente em locais rurais — onde o contrário poderia parecer estranho —, alguns podem trabalhar nas confrarias e em outras obras apostólicas
paroquiais, procurando incentivá-las, vivificá-las, mas normalmente sem ocupar cargos. Por isso, aquelas pessoas que lideram associações de fiéis dotadas — infelizmente — de interesses monopolistas não devem ter medo de que lhes arrebatemos sua ditadura exclusivista, uma vez que nosso critério está em que, para fazer o seu traba- lho, já existem eles. Devemos atuar da nossa própria maneira, que é muito diferente.
38d. Presença no culto público
Todavia, como cristãos fiéis que sois, se as circunstâncias do ambiente e a maior eficácia do apostolado não aconselharem o contrário, não vos ausenteis do culto público que a sociedade como tal é obrigada a prestar ao Senhor. Sofri tantas vezes ao contemplar manifestações de culto em que faltava a comunidade, em que não aparecia a família, o povo de Deus. Tenho certeza de que, se fordes fiéis, será uma realidade esse culto público, sóbrio e digno, sem exaltações nem extremismo, que muitas vezes o transformam em algo pitoresco.
39
Apostolado no exercício dos deveres e direitos de cidadão
Digo-vos novamente, meus filhos, que o apostolado específico que tendes de realizar, deveis fazê-lo como cidadãos, com plena e sincera fidelidade ao Estado, de acordo com a doutrina evangélica e apostólica;69 com fiel obediência às leis civis; observando todos os deveres cívicos, sem vos afastardes do cumprimento de qualquer obrigação e exercendo todos os direitos, para o bem da comunidade, sem excetuar imprudentemente nenhum deles.
39b. Exemplos de São Paulo
Desse exercício dos direitos cidadãos, encontramos um exemplo vivo a ser imitado na reiterada atitude de São Paulo, tal qual encontra- se descrito no livro dos Atos dos Apóstolos. Com uma firmeza viril que os timoratos podem achar arrogante, mas que é hombridade sem apoucamento, o Apóstolo exibe, quando necessário, sua condição de cidadão romano e exige, ausente toda a falsa humildade, que seja tratado como tal: depois de que a nós, cidadãos romanos, açoitaram publicamente sem nos julgar e nos colocaram na prisão, querem ago- ra nos tirarem segredo? Não será assim. Que venham (os litores) e nos levem para fora.70
39c.
Com essa coragem ele falou ao carcereiro de Filipos. E é maravilhosa a conversa, cheia de graça humana, que Paulo, prestes a ser açoitado, mantém em Jerusalém com o tribuno: quando o amarraram para chicoteá-lo, Paulo disse ao centurião presente: é lícito açoitarem um romano sem tê-lo julgado? Quando o centurião ouviu isso, foi até o tribuno e lhe disse: o que ias fazer? Este homem é romano. O tribuno aproximou-se dele e disse: és romano? Ele respondeu: sim. O tribuno acrescentou: adquiri tal cidadania por uma grande quantia. Paulo respondeu: pois eu a tenho por nascimento.71Meus filhos, sobram os comentários: aceitai o exemplo.
40
Invasão do Estado na esfera privada
Algumas vezes vos salientei o lamentável fato da invasão progressiva do Estado na esfera privada, com a consequente escravização que isso traz aos cidadãos, que ficam privados de suas legítimas liberdades. Destaquei que o Estado é frio e sem entranhas e, consequentemente, que seu totalitarismo vem a se transformar em algo pior do que a mais dura situação feudal.
40b.
À parte outros motivos, se isso acontece deve-se, em grande parte, à inibição dos cidadãos, à sua passividade em defender os sagrados direitos da pessoa humana. Essa inatividade, que tem sua origem na preguiça mental e na inércia da vontade, também se dá nos cidadãos católicos, que não chegam a tomar consciência de que existem outros pecados — e mais graves — do que os que se cometem contra o sexto preceito do Decálogo.
41
Nenhuma tarefa humana pode ser indiferente para nós
Minhas filhas e filhos, da missão que Deus nos confiou e do caráter plenamente secular de nossa vocação deduz-se que nenhum acontecimento, nenhuma tarefa humana, pode ser indiferente para nós. Por isso, insisto em dizer que é necessário que estejais presentes nas atividades sociais que surgem do próprio convívio humano ou exercem influência direta ou indireta sobre ele: deveis dar ar e alma às agremiações profissionais, às organizações de pais de família e de famílias numerosas, aos sindicatos, à imprensa, às associações e concursos artísticos, literários, às competições esportivas etc.
41b.
Cada um de vós participará dessas atividades públicas segundo a própria condição social e da maneira mais apropriada às próprias circunstâncias, assim como, é claro, com total liberdade, tanto quando agirdes individualmente quanto nas ocasiões em que o fizerdes em colaboração com os grupos de cidadãos com os quais julgastes apropriado cooperar.
41c. Participação na vida pública
Compreendeis muito bem que essa participação na vida pública de que falo não é atividade política no sentido estrito do termo: pouquíssimos dos meus filhos trabalham — por assim dizer — profissionalmente na vida política. Estou falando da participação que é típica de todo cidadão que tem consciência de suas obrigações cívicas. Deveis sentir-vos estimulados a atuar — com liberdade e responsabilidade pessoal — por todas e pelas mesmas razões nobres que movem vossos concidadãos.
Mas, além disso, vos sentis particularmente estimulados por vosso zelo apostólico e pelo desejo de realizar uma obra de paz e compreensão em todas as atividades humanas.
42
Ordenar a legislação de maneira cristã
Trabalhando dessa forma, juntamente com vossos concidadãos e motivando-os, criando um ambiente para que as coisas não sejam impostas sem expressar o sentimento legítimo da sociedade, podereis orientar de modo cristão a legislação de vossas comunidades nacionais, especialmente naqueles pontos que são fundamentais à vida dos povos: nas
leis sobre casamento, sobre o ensino, sobre a moralidade pública, sobre a propriedade etc.
42b.
Como pode ser cristã uma legislação na qual o respeito pela família se baseia no divórcio? Que lógica pode ser encontrada em algumas sociedades que se orgulham de sua diversidade religiosa e não admitem essa diversidade nas escolas públicas, onde todo aluno teria o direito de receber educação religiosa de acordo com sua fé?
42c.
Não percebeis que a propriedade privada — com as limitações exigidas pelo bem comum — é um instrumento de liberdade para o homem, um bem que deve ser colocado entre os fundamentais para o desenvolvimento da pessoa humana e da família? Os países onde esses direitos
não são respeitados não são países católicos, nem humanos. Percebeis qual é o panorama que se apresenta? Nestes e em outros pontos de capital importância, vós tereis de lutar, e bem!
43
Trabalho com Cooperadores
Trabalhai ativamente com os nossos Cooperadores. Aumentai seu número sem medo: quanto mais, melhor. Cuidai deles, formai-os: que sempre tenham trabalho em suas mãos, algo para fazer. Mantende-os em movimento, como nos exercícios esportivos. Ampliai continuamente a base de vossas amizades e fazei chegar a eles, de uma forma ou de outra, a doutrina e o ânimo. Tereis assim a maior extensão da rede divina, delicada, mas eficaz. E, se mantiverdes a vibração deste bom espírito apostólico, fareis um bem incalculável — suave e enérgico — a toda a humanidade.
43b. Ajuda espiritual das Comunidades Religiosas
Também nos ajudarão as comunidades religiosas — especialmente as de clausura — que admitimos como Cooperadoras e que entendem muito bem nosso espírito de contemplação no meio do mundo. Elas são contemplativas com o seu afastamento do século; nós, contemplativos no seio e nas estruturas da sociedade civil. Duas manifestações — diversas, especificamente distintas — do mesmo amor a Jesus Cristo.
43c.
Entre nós, trabalhando nobremente, ombro a ombro, em tarefas apostólicas, ou nos ajudando para que possamos trabalhar, há muitos amigos e Cooperadores. E alguns vivem longe de Deus, nosso Senhor, ou não o conhecem. Meditai naquelas palavras de São Pedro: satagite ut, per bona opera, certam vestram vocationem et electionem faciatis.72 Assegurai-vos de que esses nossos amigos, tão fraternalmente queridos, continuem no exercício de suas boas obras; e não duvideis de que, se os ajudarmos com a nossa oração e com a nossa amizade leal — sempre com o máximo respeito pela liberdade pessoal —, muitos receberão a graça para fazer sua escolha como cristãos.
44
Dar doutrina
Não vos esqueçais de que a essência do nosso apostolado é dar doutrina,73 porque, como já vos disse mil vezes, a ignorância é o maior inimigo da fé. São Paulo escreveu aos romanos: como invocarão aquele em quem não creram? E como crerão, sem ter ouvido falar dele? E como ouvirão se ninguém lhes pregar?74Porque vós sentis essa responsabilidade de pregar, dais grande importância ao trabalho de ensino — privado ou
público; pessoal ou coletivo; primário, médio ou superior —, embora o ensino seja uma pequena parte do nosso trabalho profissional.
44b. Meios de comunicação social
Pela mesma razão, procurais incentivar os meios através dos quais se forma a opinião pública: a imprensa, o rádio, a televisão, o cinema etc. Aqueles de vós que realizam o trabalho profissional nessas mídias já não ensinam apenas um pequeno grupo de pessoas — como fazem quando dirigem um Círculo ou dão uma conferência — mas, como o Senhor, pregam para a multidão, ao ar livre.
44c.
Há uma ignorância religiosa brutal. E nós, cristãos, temos grande culpa por não ensinar por todos esses meios, cada dia mais perfeitos tecnicamente e mais influentes, e que muitas vezes são controlados pelos inimigos de Deus.
45
A pior coisa do mundo, meus filhos, é que as pessoas façam barbaridades e não saibam que as fazem. Proclamai a verdade sem descanso, opportune, importune,75 mesmo que alguns não acreditem em nós ou não queiram acreditar. Quidquid recipitur ad modum recipientis recipitur: é por isso que não acreditam em nós. Podemos até dar a eles o vinho das bodas de Caná, o que foi testemunho do primeiro milagre de Jesus, a primeira manifestação pública de sua divindade, que ainda assim, lançado na consciência dessas pessoas, se transformará em vinagre. No entanto, continuaremos a servir um bom vinho, dizendo a verdade! Como Jesus, cada um de nós — ipse Christus — deve poder dizer: vim ao mundo para isso, para dar testemunho da verdade.76
45b.
Meus filhos, despojando-vos da mentira, fale cada um a verdade ao seu próximo, porque somos todos membros uns dos outros.77 Alguma coisa conhecemos, e cabe aqui muito bem empregar o nós — sofremos em nossa própria carne —, da dor da maledicência, da mentira e da calúnia: ondas de lama às vezes causadas por católicos, e até por sacerdotes. Omnia in bonum!: assim como o Nilo, depois de deixar seu leito, fertilizava os campos com a lama ao se retirar, para nós, meus filhos, aquelas ondas de lixo encheram -nos de fecundidade.
46
Tertúlias periódicas com amigos e colegas
Não deixeis de organizar pequenas tertúlias periódicas com vossos amigos e colegas — são especialmente interessantes as tertúlias com profissionais dos meios de opinião pública — e de nelas levantar temas de atualidade, dando critérios com dom de línguas. Suscitai conversas oportunas em escritórios ou em locais públicos.
46b.
Não percais oportunidades — fomentai -nas — para dizer a verdade e semear a boa semente. Conversai discretamente com pessoas de fora, aproveitando as oportunidades: sejam vossas conversas agradáveis, temperadas com sal, a fim de que saibais como responder a cada um.78
46c. Profissionais da imprensa
Penso com alegria naqueles meus filhos que trabalham em postos de vendas e bancas de jornais e revistas, nos que trabalham em editoras ou em redações de jornais, bem como nas empresas de artes gráficas; e naqueles outros que, por seu tra- balho — ainda que aparentemente modesto —, têm ocasião de se relacionar com muita gente todos os dias.
47
Apostolado da diversão
Pais e mães de família, fomentai diversões saudáveis e alegres, tão distantes do puritanismo quanto do tom mundano que ofende a moral cristã. Dessas reuniões virão — o Senhor abençoará — casamentos entre vossos filhos, que herdarão a felicidade e a paz que aprenderam em vossos lares luminosos e alegres.
47b.
No campo desse apostolado da diversão, não vos esqueçais de que o ponto-chave que deveis defender com vossa ação cidadã é a moralidade dos espetáculos públicos: é difícil que uma juventude que viva num ambiente coletivo de fácil devassidão chegue a formar lares cristãos.
48
Empreendimentos econômicos são também campo de trabalho apostólico
Seria deformação admitir o pensamento de que a esfera da economia e das finanças não pode ser objeto de trabalho apostólico. Essa ideia, difundida entre pessoas que procedem de ambientes clericais, é acompanhada pelo paradoxo de que muitos desses mesmos homens, não raro, estão envolvidos — ao abrigo da Igreja — em negócios e empresas, manipulando dinheiro abundante de outros, que confiam neles porque se chamam católicos. Disse alguém — não tão maliciosamente — desses homens que têm os olhos no céu e as mãos onde caírem. Não são cristãs a reserva e a prevenção em relação aos empreendimentos econômicos, pois é essa mais uma tarefa que deve ser santificada.
48b.
No entanto, essa suspeita entre os católicos teve — e continua a ter — grande influência, e em não poucas ocasiões impediu-os de fazer o bem com seu trabalho nesse campo da economia; ou antes trabalharam, mas com uma consciência culpada, quando não deixaram essas tarefas humanas à discrição de pessoas hostis à Igreja, que souberam e sabem como usá-las para causar danos abundantes às almas.
48c. Todo trabalho honesto pode ser orientado com espírito cristão e apostólico
A tal ponto é assim, que é divertido ler certa consideração piedosa da tradição eclesiástica — que é indubitavelmente justificada pela mentalidade e ambiente da época —, na qual se afirma que Pedro, após a ressurreição do Senhor, pôde retornar ao seu ofício de pescador — porque pescar é um ofício honesto —, mas que Mateus não pôde retornar à sua profissão, pois há negócios que é impossível exercer sem sério risco de pecado ou, simplesmente, sem cometer pecado. E o ofício de Mateus era um desses.79
48d.
É preciso acabar com esses erros, criados por pessoas que professavam o contemptus saeculi: vossa mentalidade laical não entende que haja mal no fato de exercer negócios ou finanças, porque sabeis sobrenaturalizar essas tarefas, como todas as outras, e orientá-las com espírito cristão e apostólico.
49
E, dado que estamos falando desse assunto, quero dizer que — infelizmente — não é verdade o que dizem sobre nossas atividades no campo econômico, que são quase inexistentes: há só as normais, para a vida e o desenvolvimento de uma família numerosa e pobre. Oxalá fossem mil vezes mais!
49b. A Obra é e sempre será pobre
Todas as sociedades — de qualquer estilo — têm de movimentar fundos econômicos para cumprir sua finalidade. É uma pena que não tenham razão quando murmuram assim sobre nós! Não obstante — se tivessem razão —, a Obra continuaria sendo pobre, como sempre será; porque tem de sustentar em todo o mundo muitos trabalhos apostólicos que são deficitários; porque tem de formar seus membros, ao longo de toda a vida, e isso custa dinheiro; porque tem de atender aos membros doentes e idosos; porque sempre teremos, e cada dia em maior número, a bendita carga de ajudar economicamente os pais dos membros da Obra, anciãos ou doentes, que precisam de ajuda para se sustentar etc.
49c.
De qualquer forma, essas atividades econômicas, se existirem — e devem existir o mais rápido possível —, sempre as faremos respeitando as leis do país, pagando as contribuições e taxas como o cidadão que melhor as cumpre: não queremos, não é nosso estilo, viver de privilégios.
50
Às vezes, esses murmuradores pertencem a algum grupo oficial que reparte entre si o dinheiro dos contribuintes contra a vontade dos cidadãos do país; e, ao mesmo tempo, gostariam que não pudéssemos respirar, que não tivéssemos o direito de trabalhar ou nos sacrificar, vivendo de maneira pobre, para levar adiante obras de beneficência, educação, cultura, propaganda cristã. São inimigos da liberdade — da liberdade dos outros, entenda-se — e querem fazer discriminar entre os cidadãos.
50b.
Todas as associações, de qualquer tipo — sejam religiosas, artísticas, esportivas, culturais etc. —, necessariamente têm de possuir e movimentar algum dinheiro a fim de manter os meios necessários ao cumprimento de seus fins: quem queira fazer disso motivo de escândalo demonstra ao menos ser insensato.
50c.
Ao falar sobre associações religiosas, vêm imediatamente como exemplos
a Sociedade Bíblica ou o Exército da Salvação,80 que possuem bancos, companhias de seguros etc. Ninguém se escandaliza: eles precisam desses meios para fazer seus trabalhos de propaganda e beneficência. Em muitos Estados, além de não serem criticadas as atividades econômicas dessas associações religiosas, não se lhes cobram impostos; ficam isentas em razão do trabalho social que fazem.
50d.
É justo, portanto, que — em todo o mundo — entidades oficiais nos façam empréstimos e até doações.
Quando assim for, apenas estarão cumprindo com o seu dever; porque, com o nosso trabalho público e social, nós os estamos descarregando de parte de suas obrigações: essas autoridades, se ajudarem da mesma forma como o fazem a outras instituições culturais e de beneficência, só estarão fazendo o justo.
51
O trabalho é um meio de santificação e apostolado
O Opus Dei, operatio Dei, obra de Deus, exige que todos os seus membros trabalhem: porque o trabalho é um meio de santificação e apostolado. É por isso que, em todo o mundo, tantos milhões de pessoas, católicas e não católicas, cristãs e não cristãs, admiram, amam e ajudam com carinho a nossa Obra. E por isso agradecemos o Senhor.
51b.
Há também alguns entre vós que — porque vos sentis bem preparados para resolver ativamente os problemas públicos de vossa pátria — trabalham, com plena liberdade e responsabilidade pessoal, na vida política. São poucos: o percentual usual na sociedade civil. E, como todos os outros membros da Obra em suas ocupações temporais, ao atuardes nesse campo, vós sempre o fazeis sem vos valerem de vossa condição de católicos ou membros do Opus Dei, sem que vos sirvais da Igreja ou da Obra: porque sabeis que não podeis misturar a Igreja de Deus nem a Obra em coisas contingentes. Ao trabalhardes na vida pública, não podeis esquecer que nós, católicos, desejamos uma sociedade de homens livres — todos com os mesmos deveres e os mesmos direitos perante o Estado —, mas unidos num harmonioso e operativo trabalho para alcançar o bem comum, aplicando os princípios do Evangelho, que são a fonte constante do ensinamento da Igreja.
51c. Direito de viver a vocação de políticos
Tendes todo o direito de viver essa vocação de políticos. Se algum Estado pusesse dificuldades para isso, também teria de impô-las aos membros das outras associações de fiéis e, então, pela mesma razão — a obediência que os fiéis devem às autoridades eclesiásticas —, poriam os mesmos impedimentos — em boa lógica — a todos os católicos praticantes, negando-lhes sua plenitu- de de direitos e responsabilidades na sociedade temporal. É injus- to tratar os católicos praticantes como cidadãos de pior condição, mas não faltam exemplos de dis- criminação desse tipo na história contemporânea.
51d. Mentalidade de serviço
Aqueles de vós que tendes vocação para a política, trabalhai sem medo e considerai que, se não o fizerdes, pecareis por omissão. Trabalhai com seriedade profissional, atendo-vos às exigências técnicas desse trabalho: visando o serviço cristão a todas as pessoas de vosso país e pensando na harmonia de todas as nações.
51e.
É sintoma da mentalidade clerical que, nos elogios — elaborados por pessoas separadas do mundo — que a liturgia faz aos governantes que chegaram aos altares, eles sejam louvados porque governaram seus reinos mais com piedade do que com o exercício da autoridade real, pietate magis quam imperio, mais com afeto do que com o justo mando.
51f. Não misturar divino com o humano
Vós, ao cumprirdes vossa missão, fazei-o com retidão de intenção — sem perder o ponto de mira sobrenatural —, mas não mistureis o divino com o humano. Fazei as coisas como os homens devem fazê-las, sem perder de vista o fato de que as ordens da criação têm seus próprios princípios e leis, os quais não podem ser violentados com atitudes de angelismo. O pior elogio que posso fazer a um filho meu é dizer que é como um anjo: não somos anjos, somos homens.
52
Presença de católicos no governo de países
Aqueles que dedicaram a própria atividade à vida pública devem se sentir instados a não se absterem de trabalhar em todos os regimes, mesmo naqueles não informados pelo sentido cristão, a menos que a Hierarquia Ordinária do país dê outro critério aos cidadãos católicos. Porque a consciência não vos permite deixar que governem aqueles que não são católicos, pois, mesmo nas circunstâncias mais adversas para a religião, vós sempre podereis evitar que se cometam males maiores.
52b.
É aconselhável que não abandoneis o campo em nenhum tipo de regime,81 mesmo que por isso sejais injustamente taxados de colaboracionistas. Meus filhos, mais ainda se estamos falando de nações de maioria católica, seria incompreensível se não houvesse no governo católicos praticantes e responsáveis e, portanto, membros das diferentes associações de fiéis. Caso contrário, poder-se-ia dizer que esses católicos não são nem praticantes, nem responsáveis, nem católicos, ou que a Igreja está perseguida.
52c. Empenho em estabelecer leis justas
Quando vos for necessário participar de tarefas de governo, fazei todos os esforços para estabelecer leis justas, que os cidadãos possam cumprir. O contrário seria um abuso de poder e um atentado à liberdade das pessoas: deformaria suas consciências, e além disso, nesses casos, elas teriam o perfeito direito de deixar de cumprir tais leis, que só o seriam de nome.
52d. Respeitar a liberdade de todos
Respeitai a liberdade de todos os cidadãos, tendo em vista que o bem comum deve ser compartilhado por todos os membros da comunidade. Dai a todos a possibilidade de elevar suas vidas, sem humilhardes uns para elevardes outros; oferecei aos mais humildes horizontes abertos para o seu futuro: a segurança de um trabalho remunerado e protegido, o acesso à igualdade de cultura, porque isso — que é justo — trará luz às suas vidas, mudará seu humor e facilitará que busquem a Deus e as realidades superiores. Filhos da minha alma, não esqueçais, porém, que a miséria mais triste é a pobreza espiritual, a falta de doutrina e de participação na vida de Cristo.
53
O primeiro apostolado dos Supernumerários está em seu lar
Minhas filhas e filhos Supernumerários, penso agora em vossos lares, nas famílias que brotaram desse sacramentum magnum82 do matrimônio. Numa época em que ainda persiste a tarefa destruidora da família, como aconteceu no século passado, chegamos nós para levar o desejo de santidade a esta célula cristã da sociedade.
53b.
Vosso primeiro apostolado é no lar: a formação que o Opus Dei vos dá faz -vos valorizar a beleza da família, a obra sobrenatural que significa a fundação de um lar, a fonte de santificação que se esconde nos deveres conjugais. Não obstante, conscientes da grandeza de vossa vocação matrimonial — assim: vocação! —, sentis especial veneração e um profundo carinho pela castidade perfeita, que sabeis ser superior ao matrimônio,83 e por isso vos alegrais verdadeiramente quando um de vossos filhos, pela graça do Senhor, abraça esse outro caminho, que não é um sacrifício: é uma escolha feita pela bondade de Deus, um motivo de santo orgulho, um serviço voluntário a todos por amor a Jesus Cristo.
53c. Dignidade e limpeza do matrimônio
Normalmente, nos centros educacionais, mesmo que sejam dirigidos por religiosos, não se forma a juventude de maneira a que apreciem a dignidade e a limpeza do casamento. Não o ignorais. É comum que, nos exercícios espirituais — que geralmente são ministrados aos alunos quando já estão em seus últimos anos do secundário —, sejam- -lhes oferecidos mais elementos para considerar sua possível vocação religiosa do que sua orientação para o matrimônio; e não faltam aqueles que desestimam aos seus olhos a vida conjugal, que pode parecer aos jovens algo que a Igreja simplesmente tolera.
53d. O matrimônio é caminho divino na terra
No Opus Dei, sempre procedemos de maneira diferente e, deixando muito claro que a castidade perfeita é superior ao estado conjugal, apontamos o matrimônio como um caminho divino na terra. Não nos fez mal seguir esse critério: porque a verdade é sempre libertadora, e há nos corações jovens muita generosidade para voar acima da carne quando eles são livres para escolher o Amor.
53e. Santo sacramento do matrimônio
Não nos assusta o amor humano, o amor santo dos nossos pais que o Senhor usou para nos dar a vida. Abençoo esse amor com as duas mãos. Não admito que nenhum dos meus filhos deixe de ter um grande amor pelo santo sacramento do matrimônio. Por isso cantamos sem medo as canções do amor limpo dos homens, que também são versos de amor humano ao divino; e nós que renunciamos a esse amor da terra pelo Amor, não somos solteirões: temos um coração substancial.
54
Um ideal e uma vocação
Digo a vós, minhas filhas e filhos que foram chamados por Deus para formar um lar, que vos ameis um ao outro, que tenhais sempre um pelo outro o amor vibrante que tivestes quando noivos. Pobre conceito tem do matrimônio, que é um ideal e uma vocação, quem pensa que a alegria termina quando começam as dificuldades e contratempos que a vida traz consigo.
54b. Receber os filhos com alegria
É então que o amor se consolida, que se torna mais forte que a morte: fortis est ut mors dilectio.84 As torrentes de tristezas e contradições não são capazes de extinguir o amor verdadeiro: une-vos ainda mais o sacrifício generosamente compartilhado — aquæ multæ non potuerunt extinguere caritatem86—, e as muitas dificuldades, físicas ou morais, não serão capazes de extinguir o afeto.
54c.
Vosso matrimônio normalmente será muito fecundo. E, se Deus não vos conceder filhos, dedicareis vossas energias com maior intensidade ao apostolado, que vos dará uma esplêndida fecundidade espiritual. O Senhor costuma coroar as famílias cristãs com uma coroa de filhos, já vos disse muitas vezes. Recebei- -os sempre com alegria e gratidão, pois são um presente e uma bênção de Deus, bem como uma prova de sua confiança.
55
Não cegar as fontes da vida
A faculdade de gerar é como uma participação no poder criador de Deus, da mesma forma como a inteligência é qual uma centelha de luz do entendimento divino. Não cegueis as fontes da vida. Sem medo! São criminosas — e não são cristãs nem humanas — essas teorias que tentam justificar a necessidade de limitar os nascimentos segundo falsas razões econômicas, sociais ou científicas que, logo que se analisam, não se sustentam. Elas são covardia, meus filhos; covardia e ânsia de justificar o injustificável.
55b.
É lamentável que essas ideias muitas vezes venham da casuística, levantada por sacerdotes e religiosos que se intrometem imprudentemente onde ninguém os chama, às vezes manifestando uma curiosidade mórbida e demonstrando que têm pouco amor pela Igreja — entre outras coisas —, pois o Senhor quis colocar o sacramento do matrimônio como meio para o crescimento e expansão do seu Corpo Místico.
55c. Vocações de entrega a Deus nas famílias numerosas
Não duvideis de que a diminuição de filhos nas famílias cristãs resultaria na diminuição do número de vocações sacerdotais e de almas que queiram se dedicar por toda a vida ao serviço de Jesus Cristo. Conheço diversos casais que, tendo Deus lhes dado somente um filho, tiveram a generosidade de oferecê- -lo a Deus. Mas não são muitos os que agem assim. Nas famílias numerosas é mais fácil compreender a grandeza da vocação divina e, entre seus filhos, há gente para todos os estados e caminhos.
56
Generosidade
Sede generosos e senti a alegria e a força das famílias numerosas. Envergonho-me dos casais que não querem ter filhos: se não dese- jais ter filhos, sede continentes! Penso, e digo isso com sinceridade, que não é cristão recomendar85 que os cônjuges se abstenham nas épocas em que a natureza deu à mulher a capacidade de procriar.
56b.
Em algum caso específico, sem- pre de acordo entre o médico e o sacerdote, isso poderá e até deverá ser permitido. Mas não pode ser recomendado como regra geral. Eu vos disse, com palavras muito fortes,86 que haveria muitos de nós que cuspiriam no túmulo de nossos pais se soubéssemos que viemos ao mundo contra a vontade deles, que não tínhamos sido fruto de seu amor limpo. Graças a Deus, geralmente temos de agradecer ao Senhor por ter nascido numa família cristã, à qual — em grande parte — devemos nossa vocação.
56c. Crescimento do povo de Deus
Lembro-me de que um filho meu, que trabalhava num país onde estavam muito estendidas as teorias sobre a limitação dos nascimentos, respondeu — brincando — a uma pessoa que lhe perguntara sobre esse assunto: assim, em pouco tempo, haverá no mundo apenas negros e católicos.87 Mas os católicos das nações onde eles são minoria não entendem isso, porque não se aprofundam nessa realidade — que tem um sólido fundamento teológico — de que o matrimônio cristão é o meio que o Senhor dispôs, em sua providência ordinária, para fazer o povo de Deus crescer.
56d.
Por outro lado, os inimigos de Cristo — mais astutos — parecem ter mais bom senso, e assim, em países de regime comunista, dá-se cada vez mais importância às leis da vida e às energias criadoras do homem, as quais são inseridas, como fatores determinantes, em seus planos ideológicos e políticos.
57
Lares luminosos e alegres
Em vossos lares, que sempre descrevi como luminosos e alegres, vossos filhos serão educados nas virtudes sobrenaturais e humanas, numa atmosfera de liberdade, de sacrifício alegre. E quantas vocações virão para a Obra desses lares que chamei de escolas apostólicas do Opus Dei! Uma das grandes e frequentes alegrias da minha vida é ver um rosto que me faz lembrar aquele rapaz que conheci há tantos anos. tu, pergunto a ele, como te chamas?És filho de fulano? E me alegro, dando graças a Deus, quando me responde afirmativamente.
57b. Felicidade no cotidiano
O segredo da felicidade conjugal está no cotidiano: em encontrar a alegria oculta que jaz na chegada em casa; na educação dos filhos; no trabalho, com o qual toda a família colabora; em aproveitar também todos os avanços que a civilização nos proporciona, para tornar o lar agradável — nunca nada que cheire a convento, o que seria anormal —, a formação mais eficaz, a vida mais simples.
58
Agradecimento das famílias pela vocação de seus filhos
Também contribuireis, com o vosso relacionamento, para que as famílias — poucas — de alguns dos meus filhos que ainda não entendem o caminho de dedicação deles ao serviço de Deus venham a agradecer o Senhor por esse favor inestimável de terem sido chamadas para serem pais e mães dos filhos de Deus em sua Obra. Elas nunca cogitaram que seus filhos viessem a se dedicar a Deus e, ao contrário, teceram-lhes planos distantes desse compromisso que não esperavam e que acabam por destruir seus projetos, muitas vezes nobres, mas terrenos. De qualquer forma, mi- nha experiência — que já não é pequena — mostra que os pais que não receberam com alegria a vocação de seus filhos acabam se rendendo, aproximando-se da vida de piedade, da Igreja, e acabam amando a Obra.
58b.
São, pela graça de Deus, cada dia mais abundantes, apesar das considerações anteriores, as famílias — pais, irmãos e parentes — que reagem de forma sobrenatural e cristã à vocação e que ajudam, pedem ingresso como Supernumerários ou são, pelo menos, grandes Cooperadores.
58c.
Quando falo com as mães e pais de meus filhos, costumo dizer-lhes: vossa missão como pais não acabou. Deveis ajudá-los a serem santos. E como? Sendo santos vós mesmos. Estais cumprindo um dever de paternidade, ajudando-os, ajudando-me a que sejam santos. Permiti-me dizer:
o orgulho e a coroa do Opus Dei são as mães e os pais de família que têm pedaços de seu coração dedicados ao serviço da Igreja.
59
Terminarei, minhas queridas filhas e filhos. Escrevi com liberdade, a fim de despertar novamente vossa memória,88 embora eu conheça vossos anseios por ser fiéis ao chamado do Senhor.
59b. Audácia no cumprimento da nossa missão
Cumpri vossa missão com audácia, sem medo de vos comprometerdes, de dardes a cara, porque os homens facilmente têm medo de exercer a liberdade. Preferem receber fórmulas prontas para tudo: é um paradoxo, mas os homens muitas vezes exigem a norma — renunciando à liberdade — por medo de se arriscarem.
59c.
A Obra vos forma para que, com coragem, sejais — cada qual em seu próprio ambiente — homem ou mulher de iniciativa, de impulso, de vanguarda. Deveis corresponder a essa formação com vosso espírito e vosso esforço: sem essa decisão, a abundância de meios espirituais seria inútil. lembrai- -vos daquela legenda que costu- ma va ser gravada em punhais antigos: não te fies de mim se te falta coração.
59d. Decididos, tenazes, teimosos
Sede decididos, tenazes, teimosos, porque não existe nenhum não definitivo. Sede muito compreensivos com todos, procurando especialmente a unidade dos católicos. Se vos mordeis e devorais, vede que acabareis por destruir uns aos outros,89 disse São Paulo. Os ca- tólicos devemos conhecer-nos e amar-nos.
60
Austeridade cristã e sacrifício
Dai a todos os homens o exemplo de vossa austeridade e sacrifício cristãos. O Senhor nos disse: se alguém quiser vir após mim, negue- -se a si mesmo.90 Ele nos fez sentir, meus filhos, a fecundidade de nos vermos pisoteados, desfeitos no lagar, como a uva, a fim de sermos o vinho de Cristo!
60b. Filiação divina
Sede sempre serenos — nem violentos, nem agressivos, nem exaltados —, com aquela serenidade que é um modo de se comportar e que exige o exercício das virtudes cardeais. A consciência viva de nossa filiação divina vos dará essa serenidade, porque esse traço típico de nosso espírito nasceu com a Obra e, em 1931, tomou forma: em momentos humanamente difíceis, nos quais eu estava, no entanto, certo do impossível — do que vós hoje vedes feito realidade —, senti a ação do Senhor que fazia germinar em meu coração e em meus lábios, com a força de algo imperativamente necessário, esta terna invocação: abba! Pater! Eu estava na rua, num bonde: a rua não impede o nosso diálogo contemplativo; a azáfama do mundo é, para nós, um lugar de oração. Eu provavelmente fiz essa oração em voz alta, e as pessoas devem ter me toma- do por louco: abba! Pater! Que confiança, que descanso e que otimismo vos dará, em meio às dificuldades, este sentir-se filhos de um Pai que tudo sabe e que tu- do pode.
60c.
Meus filhos, peço-vos que sigais em frente e vos esforceis para levar uma vida serena e laboriosa em vossos negócios, trabalhando com vossas mãos tal qual recomendamos, para que viveis honestamente aos olhos dos estranhos e não sofreis necessidade. E que a paz de Cristo reine em vossos corações.91
60d.
Abençoa-vos com toda a alma o vosso Padre
Roma, 9 de janeiro de 1959
.
Cf. Jo 18, 6.
Cf. Mt 13, 24-30
Cf. Ap 21, 1-2.
Ap 17, 14.
2 Ts 2, 3-4; cf. Ap 13, 1-17.
Lc 12, 49; 1 Sm 3, 9. «ignem veni mittere...»: em diversas ocasiões aludiu a este fato, que está recolhido em seus apontamentos íntimos (n. 1741, 16 de julho de 1934, cf. Josemaria Escrivá de Balaguer, Camino, ed. crítico-histórica preparada por Pedro Rodríguez, 3ª ed., Madri, Rialp, 2004, pp. 899-902). Cf. Josemaria Escrivá de Balaguer, En diálogo con el Señor, ed. crítico -histórica preparada por luis Cano e Francesc Castells, Madri, Rialp, 2017, p. 179.
Mc 8, 2.
Lc 4, 40.
Cf. Gn 27, 27.
«a Igreja o definiu»: assim o fez no Concílio de Trento (sessão XXIV, 11 de novembro de 1563, Canones de sacramento matrimonii, n. 10, em Concilio- rum oecumenicorum decreta, ed. de Hubert Jedin e Giuseppe Alberigo, Bolonha, Istituto per le Scienze Religiose di Bologna, 1973, p. 755).
«uma finalidade especializada»: no campo do apostolado laical, discutiu-se durante anos se era melhor seguir o modelo centralizado e tradicional da Ação Católica, que se orientava para a colaboração dos leigos nas diversas atividades paroquiais, ou o modelo «especializado», que visava a inserção do militante católico nos problemas sociais do ambiente. Este último deu origem aos chamados «movimentos especializados» (juvenis, de operários, de camponeses etc.), como na Ação Católica Italiana (cf. Ernesto Preziosi, Obbedienti in piedi. La vicenda dell’azione Cattolica in Italia, , SEI, Turim, 1996). Na época em que esta Carta foi escrita, esse debate ainda estava vivo na Espanha (cf. Feliciano Montero García, La acción Católica y el franquismo. auge y crisis de la acción Católica especializada en los años sessenta, Universidad Nacional de Educación a Distancia, Madri, 2000). Para o Opus Dei, segundo o seu Fundador, qualquer trabalho ou atividade honesta é instrumento de apostolado, e por isso «tem todas as especializações» características da própria vida.
«sem suplência de nenhum tipo»: o Autor quer salientar que o apostolado dos leigos do Opus Dei no mundo é «sua missão na Igreja» e se articula por meio da «vocação profissional secular», como dirá no parágrafo seguinte. Ou seja, não invade e nem se considera melhor ou superior ao apostolado que os religiosos realizam abnegadamente no mundo: é simplesmente diferente, pois não procede de uma vocação para a vida consagrada, mas do Batismo, pelo qual Deus chama todos a serem discípulos missionários de Cristo.
«nos distingue claramente»: na realidade, do ponto de vista sociológico e apostólico, as diferenças com os movimentos são pequenas; a diversidade — para São Josemaria — está aqui na universalidade do fenômeno pastoral e de comunhão que o Opus Dei representa, bem como na universalidade de sua hierarquia interna. No entanto, essa distinção não implica em distanciar-se dos modelos de renovação eclesial que trouxeram consigo muitos dos movimentos atuais, com os quais o Opus Dei compartilha o mesmo desejo de santidade, evangelização e serviço à Igreja, e com os quais mantém laços de comunhão e fraternidade.
Fl 4, 22.
Cf. Flm 8-12; Ef 6, 5ss.; Cl 3, 22-25; 1 Tm 6, 1-2; 1 Pe 2, 18ss.
Tertuliano, apologeticum, 37, 4 (Fontes Christiani 62, ed. Tobias Georges, Friburgo; Basileia; Viena, Herder, 2015, p. 230).
«do inimigo o conselho»: refrão popular que convida a não seguir a recomendação de quem busca o nosso mal, por mais razoável e oportuno que pareça. O tema figura na fábula do leão e da cabra atribuída a Esopo e foi retomado por outros autores, como Félix María Samaniego (1745-1801), em que se recolhe textualmente o dito que cita Escrivá. Nessa fábula (XXIII, livro V), louva-se a prudência de um cão que evitou ser devorado ao descobrir a insídia que escondia a sugestão de um tortuoso crocodilo: «Oh, que douto Cão velho!/ Eu admiro o seu sentir/ Nisto de não seguir/ Do inimigo o conselho» (Félix María Samaniego, Fábulas en verso castellano para el uso del real Seminario Bascongado, Salamanca, impresso por Dom Vicente Blanco, 1830, p. 136). Curiosamente, no § 35b desta mesma Carta, Escrivá o usa de novo, mas com um sentido oposto, como que dando a entender que também alguém que não pensa como nós pode expressar uma verdade aproveitável.
Rm 13, 11.
Mt 10, 34.
«não é uma tarefa eclesiástica»: ou seja, para Escrivá, o apostolado é tarefa de cada pessoa, e não da instituição, a qual se limita a orientar e assistir pastoralmente as pessoas que pertencem ou se aproximam do Opus Dei. Sua ideia é que a ação apostólica é sempre responsabilidade e fruto da iniciativa de membros, cooperadores ou amigos, que se beneficiam da orientação e da ajuda espiritual que lhes são fornecidas. «Não tem matiz confessional»: a missão, como discípulos de Jesus no mundo, brota da consciência batismal e se desdobra nas relações pessoais que cada um cul- tiva. Portanto, usando de um paradoxo, ele diz que um apostolado profundamente cristão como o que está descrevendo pode não ter um matiz oficialmente católico ou «confessional», pois se apresenta como algo que provém da própria vida íntima de fé, no exercício da própria profissão ou atividade secular.
2 Pe 1, 10 (Vg). A versão da Neovulgata alterou o texto da Vulgata que São Josemaria cita aqui, eliminando «per bona opera».
«dar doutrina»: muitas vezes São Josemaria usa essa expressão como sinônimo de expor a verdade cristã, o depósito da fé, nos mais variados contextos e forma — ou, em outras palavras, difundir a mensagem evangélica por meio da própria atividade pessoal e profissional. Não se refere necessariamente a uma atividade catequética, pois inclui também o primeiro anúncio aos que não creem em Cristo.
Rm 10, 14.
2 Tm 4, 2. E adiante, «quidquid recipitur ad modum recipientis recipitur»: «o que é recebido, é recebido de acordo com a capacidade do recipiente». Trata-se de um aforismo filosófico tipicamente escolástico. O conceito é usado, por exemplo, por São Tomás de Aquino na Summa theologiae, I, q. 75, a. 5; cf. também Scriptum super Sententiis, lib. 4, d. 49, q. 2.
Jo 18, 37.
Ef 4, 25.
Cf. São Gregório Magno, Homiliae in Evangelia, XXIV, em Corpus christianorum (Series latina) CXlI, p. 197.
«Sociedade Bíblica»: originalmente chamada The British and Foreign Bible Society, ou simplesmente The Bible Society, foi fundada em 1804. Com outras sociedades bíblicas, faz parte das United Bible Societies, que procuram tornar acessível a Bíblia em todo o mundo. «Exército da Salvação»: The Salvation Army é uma denominação cristã protestante e uma organização beneficente, fundada em 1865.
«não abandoneis o campo em nenhum tipo de regime”: a opção proposta por Escrivá consiste em trabalhar neste setor seguindo a própria vocação profissional, a menos que a Hierarquia Católica disponha de outra forma, como aconteceu, por exemplo, na Itália entre 1868 e 1919, com o non expedit (não convém) que proibia aos católicos a participação ativa ou passiva em eleições políticas, em protesto contra as leis anticatólicas do Reino da Itália. No caso do Opus Dei, é notória a acusação de colaboração com o regime do general Franco, uma vez que dois de seus membros ingressaram no governo espanhol em 1957 e outros o fizeram em anos sucessivos. No entanto, a Hierarquia Católica espanhola não desencorajou — ao contrário, apoiou — a colaboração dos católicos com o regime franquista, na medida em que, embora não reconhecesse as liberdades políticas, parecia garantir a presença da mensagem evangélica na vida pública. Por isso, Escrivá respeitava a opção dos membros do Opus Dei que apoiavam Franco, assim como os da Obra que se opunham ao ditador. Curiosamente, ambas as opções acabaram por prejudicar — de uma forma ou de outra — a imagem do Opus Dei, mas o Fundador não alterou os seus critérios, mantendo a total liberdade dos associados em matéria política. Cf. José luis González Gullón e John F. Coverdale, História do Opus Dei, pp. 210-214.
Cf. Ef 5, 32.
Cf. Mt 19, 11ss; 1 Cor 7, 25-40. «[...] é superior ao matrimônio»: assim o definiu o Concílio de Trento. Cf. nota a 10d.
«não é cristão recomendar»: São Josemaria está propondo um ideal muito elevado de vocação conjugal, um chamado à santidade heroica em meio ao clima cada vez mais permissivo que se espalhava na sociedade ocidental dos anos 1960. Percebe-se sua preocupação com que a continência periódica não seja entendida como um método contraceptivo «católico», de aplicação geral, alheio aos aspectos médicos, humanos e espirituais que tal opção acarreta para cada pessoa em particular. É por isso que dirá, no parágrafo seguinte, que em casos específicos ela «pode e deve até ser permitida», mas recomendará o aconselhamento com o médico e o sacerdote. Ele deseja ajudar aqueles que buscam viver seu casamento de maneira cristã e santa e que, ao mesmo tempo, precisam espaçar os nascimentos. Em geral, suas palavras seguem a orientação pastoral e a práxis moral católica vigentes entre 1959 e 1966, anos em que a Carta foi datada e impressa (para citar obras daqueles anos, vejam-se, por exemplo, o Dizionario di teologia morale, dirigido por Frances- co Roberti, Roma, Studium, 1957, p. 348; e La teología moral para seglares, vol. II, de Antonio Royo Marín, Madri, BAC, 1961, pp. 670-672; esses livros estão na biblioteca pessoal de São Josemaria). Essa doutrina foi esclarecida e aperfeiçoada pouco depois pela encíclica Humanae vitae (1968), de São Paulo VI. A Humanae vitae alude às «razões sérias» que devem concorrer para o uso de métodos naturais destinados ao espaçamento dos nascimentos (veja-se o n. 16). Ao mesmo tempo, explica a encíclica, esses métodos não podem ser separados da «paternidade responsável» e da virtude da castidade. Durante o período em que saiu esta Carta de São Josemaria, houve um debate teológico sobre a questão, e o próprio Magistério ainda vinha esclarecendo sua posição, na linha já indicada em 1965 pela Gaudium et spes (nn. 50-51), do Concílio Vaticano II. O atual Catecismo da Igreja Católica, nos nn. 2369-2370, inclui a formulação da Humanae vitae, enriquecida pelo Magistério de São João Paulo II. Cf. Martin M. lintner, Cinquant’anni di Humanae vitae. Fine di un conflitto, riscoperta di un messaggio, Brescia, Queriniana, 2018; Gilfredo Marengo, Humanae vitae. El nacimiento de una encíclica a la luz de los archivos Vaticanos, Madri, Biblioteca de Autores Cristianos, 2020.
«com palavras muito fortes»: lembremo-nos de que São Josemaria escrevia para aqueles que conheciam bem a sua maneira de falar, franca e sem hesitação. Ao mesmo tempo, com alguma frequência, em sua pregação e escritos, ele usa de hipérbole para sublinhar um ensinamento, como quando disse que acreditava mais em seus filhos do que em mil notários unânimes (cf. En diálogo con el Señor, op. cit., p. 282) ou que preferiria, em vez de murmurar, cortar a língua com os dentes e cuspi-la (citado por Javier Echevarría, Homilia, 20 de junho de 2006, em romana 42 [2006], p. 84), entre tantos outros exemplos de grande expressividade. São maneiras de dizer hiperbólicas, que ele evidentemente não pretendia que fossem tomadas à letra. Quem estivesse familiarizado com o amor de Escrivá por seus pais e conhecesse tanto sua capacidade de perdoar quanto sua compreensão das fraquezas humanas, o que fica evidente em seus escritos, a começar por esta Carta, poderia deduzir que ele jamais faria o que diz aqui. Todavia, ele quer usar «palavras muito fortes» a fim de sensibilizar seus leitores para o drama experimentado por aqueles que descobrem que são filhos indesejados. Este é um grave problema existencial e psicológico que vem afetando especialmente nossa sociedade após a enorme disseminação de métodos contraceptivos e das práticas de aborto, a partir da chamada revolução sexual, que já estava às portas quando São Josemaria escreveu essas palavras. Ele quer deixar claro que o modelo de santidade que propõe para as pessoas casadas inclui um «amor limpo» entre os cônjuges e um grande amor pelos filhos, sem medo da prole que Deus queira enviar, salvo por motivos graves.
«haverá no mundo apenas negros e católicos»: frase que deve ser entendida no contexto histórico da reivindicação dos direitos civis nos Estados Unidos das décadas de 1950 e 1960, quando a Carta foi escrita. Esses anos coincidiram com a disseminação de medidas de controle de natalidade na América do Norte, que para ativistas afro-americanos escondiam um propósito racista (veja-se Simone M. Caron, «Birth Control and the Black Community in the 1960s: Genocide or Power Politics?», Journal of Social History 31, n. 3 [1998], pp. 545—569). Os católicos também se opuseram a tais medidas, ainda que por motivos morais. A irônica frase que Escrivá cita quer zombar dos preconceitos racistas e antipapistas de que alguns setores da população frequentemente compartilhavam, os quais deploravam a maior taxa de natalidade de afro - -americanos e católicos (cf. Stephen l. Barry, «The Forgotten Hatred: Anti-Catholicism in Modern America», NYLS Journal of Human rights 4, edição 1 [1986], pp. 203-238). São Josemaria aproveita a oportunidade para ridicularizar esses preconceitos, citando em tom de brincadeira a ironia daquele membro da Obra, que mostra — por redução ao absurdo — a loucura do racismo e de toda discriminação por motivos religiosos.
Em meados da década de 1960, nos Estados Unidos, era normal se referir aos afro-americanos como negros (plural: negroes). Martin luther King Jr., Malcolm X e outros ativistas antirracistas o empregavam com naturalidade, assim como a opinião pública em geral, como pode ser visto no famoso livro de Robert Penn Warren: Who Speaks for the Negro?, Nova York, Random House, 1965, contemporâneo da Carta, e no qual são coletadas entrevistas com os principais líderes do movimento dos direitos civis. `
Em 1972, um afro-americano perguntou a Escrivá como melhorar no apostolado com os de sua raça (na transcrição lê-se que o rapaz disse «apostolado com os negros», palavra que também em espanhol não tinha o significado pejorativo que agora tem em outras línguas). Temos as palavras com que São Josemaria lhe respondeu: «Olha, meu filho, diante de Deus não há negros nem brancos: somos todos iguais, todos iguais! Eu te amo com toda a minha alma, como eu amo este e aquele, e todos. Devemos superar a barreira das raças, porque não há barreira!: somos todos da mesma cor: a cor dos filhos de Deus» (Notas de uma reunião, 3 de abril de 1972, em Crónica [1972], vol. 5, pp. 106-107).
Documento impresso de https://escriva.org/pt-br/carta-29/carta-29/ (25/03/2026)