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Empreendimentos econômicos são também campo de trabalho apostólico

Seria deformação admitir o pensamento de que a esfera da economia e das finanças não pode ser objeto de trabalho apostólico. Essa ideia, difundida entre pessoas que procedem de ambientes clericais, é acompanhada pelo paradoxo de que muitos desses mesmos homens, não raro, estão envolvidos — ao abrigo da Igreja — em negócios e empresas, manipulando dinheiro abundante de outros, que confiam neles porque se chamam católicos. Disse alguém — não tão maliciosamente — desses homens que têm os olhos no céu e as mãos onde caírem. Não são cristãs a reserva e a prevenção em relação aos empreendimentos econômicos, pois é essa mais uma tarefa que deve ser santificada.

48b.

No entanto, essa suspeita entre os católicos teve — e continua a ter — grande influência, e em não poucas ocasiões impediu-os de fazer o bem com seu trabalho nesse campo da economia; ou antes trabalharam, mas com uma consciência culpada, quando não deixaram essas tarefas humanas à discrição de pessoas hostis à Igreja, que souberam e sabem como usá-las para causar danos abundantes às almas.

48c. Todo trabalho honesto pode ser orientado com espírito cristão e apostólico

A tal ponto é assim, que é divertido ler certa consideração piedosa da tradição eclesiástica — que é indubitavelmente justificada pela mentalidade e ambiente da época —, na qual se afirma que Pedro, após a ressurreição do Senhor, pôde retornar ao seu ofício de pescador — porque pescar é um ofício honesto —, mas que Mateus não pôde retornar à sua profissão, pois há negócios que é impossível exercer sem sério risco de pecado ou, simplesmente, sem cometer pecado. E o ofício de Mateus era um desses.79

48d.

É preciso acabar com esses erros, criados por pessoas que professavam o contemptus saeculi: vossa mentalidade laical não entende que haja mal no fato de exercer negócios ou finanças, porque sabeis sobrenaturalizar essas tarefas, como todas as outras, e orientá-las com espírito cristão e apostólico.

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Notas
79

Cf. São Gregório Magno, Homiliae in Evangelia, XXIV, em Corpus christianorum (Series latina) CXlI, p. 197.

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