56

Generosidade

Sede generosos e senti a alegria e a força das famílias numerosas. Envergonho-me dos casais que não querem ter filhos: se não dese- jais ter filhos, sede continentes! Penso, e digo isso com sinceridade, que não é cristão recomendar85 que os cônjuges se abstenham nas épocas em que a natureza deu à mulher a capacidade de procriar.

56b.

Em algum caso específico, sem- pre de acordo entre o médico e o sacerdote, isso poderá e até deverá ser permitido. Mas não pode ser recomendado como regra geral. Eu vos disse, com palavras muito fortes,86 que haveria muitos de nós que cuspiriam no túmulo de nossos pais se soubéssemos que viemos ao mundo contra a vontade deles, que não tínhamos sido fruto de seu amor limpo. Graças a Deus, geralmente temos de agradecer ao Senhor por ter nascido numa família cristã, à qual — em grande parte — devemos nossa vocação.

56c. Crescimento do povo de Deus

Lembro-me de que um filho meu, que trabalhava num país onde estavam muito estendidas as teorias sobre a limitação dos nascimentos, respondeu — brincando — a uma pessoa que lhe perguntara sobre esse assunto: assim, em pouco tempo, haverá no mundo apenas negros e católicos.87 Mas os católicos das nações onde eles são minoria não entendem isso, porque não se aprofundam nessa realidade — que tem um sólido fundamento teológico — de que o matrimônio cristão é o meio que o Senhor dispôs, em sua providência ordinária, para fazer o povo de Deus crescer.

56d.

Por outro lado, os inimigos de Cristo — mais astutos — parecem ter mais bom senso, e assim, em países de regime comunista, dá-se cada vez mais importância às leis da vida e às energias criadoras do homem, as quais são inseridas, como fatores determinantes, em seus planos ideológicos e políticos.

57

Notas
85

«não é cristão recomendar»: São Josemaria está propondo um ideal muito elevado de vocação conjugal, um chamado à santidade heroica em meio ao clima cada vez mais permissivo que se espalhava na sociedade ocidental dos anos 1960. Percebe-se sua preocupação com que a continência periódica não seja entendida como um método contraceptivo «católico», de aplicação geral, alheio aos aspectos médicos, humanos e espirituais que tal opção acarreta para cada pessoa em particular. É por isso que dirá, no parágrafo seguinte, que em casos específicos ela «pode e deve até ser permitida», mas recomendará o aconselhamento com o médico e o sacerdote. Ele deseja ajudar aqueles que buscam viver seu casamento de maneira cristã e santa e que, ao mesmo tempo, precisam espaçar os nascimentos. Em geral, suas palavras seguem a orientação pastoral e a práxis moral católica vigentes entre 1959 e 1966, anos em que a Carta foi datada e impressa (para citar obras daqueles anos, vejam-se, por exemplo, o Dizionario di teologia morale, dirigido por Frances- co Roberti, Roma, Studium, 1957, p. 348; e La teología moral para seglares, vol. II, de Antonio Royo Marín, Madri, BAC, 1961, pp. 670-672; esses livros estão na biblioteca pessoal de São Josemaria). Essa doutrina foi esclarecida e aperfeiçoada pouco depois pela encíclica Humanae vitae (1968), de São Paulo VI. A Humanae vitae alude às «razões sérias» que devem concorrer para o uso de métodos naturais destinados ao espaçamento dos nascimentos (veja-se o n. 16). Ao mesmo tempo, explica a encíclica, esses métodos não podem ser separados da «paternidade responsável» e da virtude da castidade. Durante o período em que saiu esta Carta de São Josemaria, houve um debate teológico sobre a questão, e o próprio Magistério ainda vinha esclarecendo sua posição, na linha já indicada em 1965 pela Gaudium et spes (nn. 50-51), do Concílio Vaticano II. O atual Catecismo da Igreja Católica, nos nn. 2369-2370, inclui a formulação da Humanae vitae, enriquecida pelo Magistério de São João Paulo II. Cf. Martin M. lintner, Cinquant’anni di Humanae vitae. Fine di un conflitto, riscoperta di un messaggio, Brescia, Queriniana, 2018; Gilfredo Marengo, Humanae vitae. El nacimiento de una encíclica a la luz de los archivos Vaticanos, Madri, Biblioteca de Autores Cristianos, 2020.

86

«com palavras muito fortes»: lembremo-nos de que São Josemaria escrevia para aqueles que conheciam bem a sua maneira de falar, franca e sem hesitação. Ao mesmo tempo, com alguma frequência, em sua pregação e escritos, ele usa de hipérbole para sublinhar um ensinamento, como quando disse que acreditava mais em seus filhos do que em mil notários unânimes (cf. En diálogo con el Señor, op. cit., p. 282) ou que preferiria, em vez de murmurar, cortar a língua com os dentes e cuspi-la (citado por Javier Echevarría, Homilia, 20 de junho de 2006, em romana 42 [2006], p. 84), entre tantos outros exemplos de grande expressividade. São maneiras de dizer hiperbólicas, que ele evidentemente não pretendia que fossem tomadas à letra. Quem estivesse familiarizado com o amor de Escrivá por seus pais e conhecesse tanto sua capacidade de perdoar quanto sua compreensão das fraquezas humanas, o que fica evidente em seus escritos, a começar por esta Carta, poderia deduzir que ele jamais faria o que diz aqui. Todavia, ele quer usar «palavras muito fortes» a fim de sensibilizar seus leitores para o drama experimentado por aqueles que descobrem que são filhos indesejados. Este é um grave problema existencial e psicológico que vem afetando especialmente nossa sociedade após a enorme disseminação de métodos contraceptivos e das práticas de aborto, a partir da chamada revolução sexual, que já estava às portas quando São Josemaria escreveu essas palavras. Ele quer deixar claro que o modelo de santidade que propõe para as pessoas casadas inclui um «amor limpo» entre os cônjuges e um grande amor pelos filhos, sem medo da prole que Deus queira enviar, salvo por motivos graves.

87

«haverá no mundo apenas negros e católicos»: frase que deve ser entendida no contexto histórico da reivindicação dos direitos civis nos Estados Unidos das décadas de 1950 e 1960, quando a Carta foi escrita. Esses anos coincidiram com a disseminação de medidas de controle de natalidade na América do Norte, que para ativistas afro-americanos escondiam um propósito racista (veja-se Simone M. Caron, «Birth Control and the Black Community in the 1960s: Genocide or Power Politics?», Journal of Social History 31, n. 3 [1998], pp. 545—569). Os católicos também se opuseram a tais medidas, ainda que por motivos morais. A irônica frase que Escrivá cita quer zombar dos preconceitos racistas e antipapistas de que alguns setores da população frequentemente compartilhavam, os quais deploravam a maior taxa de natalidade de afro - -americanos e católicos (cf. Stephen l. Barry, «The Forgotten Hatred: Anti-Catholicism in Modern America», NYLS Journal of Human rights 4, edição 1 [1986], pp. 203-238). São Josemaria aproveita a oportunidade para ridicularizar esses preconceitos, citando em tom de brincadeira a ironia daquele membro da Obra, que mostra — por redução ao absurdo — a loucura do racismo e de toda discriminação por motivos religiosos.

Em meados da década de 1960, nos Estados Unidos, era normal se referir aos afro-americanos como negros (plural: negroes). Martin luther King Jr., Malcolm X e outros ativistas antirracistas o empregavam com naturalidade, assim como a opinião pública em geral, como pode ser visto no famoso livro de Robert Penn Warren: Who Speaks for the Negro?, Nova York, Random House, 1965, contemporâneo da Carta, e no qual são coletadas entrevistas com os principais líderes do movimento dos direitos civis. `

Em 1972, um afro-americano perguntou a Escrivá como melhorar no apostolado com os de sua raça (na transcrição lê-se que o rapaz disse «apostolado com os negros», palavra que também em espanhol não tinha o significado pejorativo que agora tem em outras línguas). Temos as palavras com que São Josemaria lhe respondeu: «Olha, meu filho, diante de Deus não há negros nem brancos: somos todos iguais, todos iguais! Eu te amo com toda a minha alma, como eu amo este e aquele, e todos. Devemos superar a barreira das raças, porque não há barreira!: somos todos da mesma cor: a cor dos filhos de Deus» (Notas de uma reunião, 3 de abril de 1972, em Crónica [1972], vol. 5, pp. 106-107).

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